08:55 28 Novembro 2020
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    Uma agência governamental norte-americana revelou documentos que mostram as preocupações dos dirigentes de Washington, que queriam evitar um sucesso e exemplo antiamericano na América Latina.

    O Arquivo de Segurança Nacional dos EUA publicou recentemente seis documentos nunca antes vistos, que relatam as tentativas de Washington de derrubar o governo socialista de Salvador Allende (1970-1973) no Chile.

    A administração Nixon se preocupou com Allende ainda antes de sua vitória nas eleições de 4 de setembro de 1970, com um dos documentos relatando que a presidência de Richard Nixon (1969-1974) se dividiu sobre como operar a queda do governo Allende, com William Rogers, o secretário de Estado, sugerindo executá-la "sem ser contraproducente", seguindo uma linha de hostilidade a Santiago, mas sem ser evidente o suficiente para culpar Washington.

    Henry Kissinger, na época conselheiro de Segurança Nacional, defendia uma abordagem mais agressiva, dizendo em 5 de novembro de 1970 que o presidente norte-americano tomaria a "mais histórica e difícil decisão de política externa", que teria "ramificações que vão muito além das simples relações EUA-Chile", com o objetivo de contrariar as "ameaças sérias e posição no nosso hemisfério" vindo do governo Allende.

    O posicionamento final acabou sendo tomado em 29 de outubro de 1970, com uma postura abertamente "fria" surgindo "apenas em reação a provocações", e pressão e hostilidade mais dura nos bastidores. Em geral, os EUA deveriam "criar pressões, explorar fraquezas, ampliar obstáculos, o que, no mínimo, garantirá seu fracasso ou o forçará a modificar suas políticas e, no máximo, poderá levar a situações em que seu colapso ou derrubada mais tarde poderá ser mais viável".

    O então general-chefe do Exército do Chile, Augusto Pinochet, e o presidente do país Salvador Allende em foto de 23 de agosto de 1973
    © AP Photo / Enrique Aracena
    O então general-chefe do Exército do Chile, Augusto Pinochet, e o presidente do país Salvador Allende em foto de 23 de agosto de 1973.

    A principal preocupação de Washington era a possibilidade de sucesso de Salvador Allende na América Latina, que foi legalmente eleito.

    "O exemplo de um governo marxista eleito com sucesso no Chile certamente teria um impacto, e até mesmo um valor precedente, para outras partes do mundo", incluindo Itália, que tinha o maior Partido Comunista da Europa, e no continente europeu em geral, disse Kissinger.

    "Segundo Henry, o Chile pode acabar sendo o pior fracasso de nossa administração, 'nossa Cuba' até 1972", comentou o agendador de Nixon.

    Golpe lento

    Como parte dessa estratégia, foram aplicados ao Chile bloqueio de empréstimos, início da saída de bancos multilaterais, e manipulação do valor do cobre, sua principal mercadoria exportadora.

    Outra forma de influenciar negativamente o país foi a administração Nixon alistar o apoio do Brasil e Argentina.

    Na época, o plano deu certo, com o país se afogando em falta de financiamento e a mídia se expressando contra a situação. Estava criado o ambiente propício para descontento com o governo Allende, com o chefe do Executivo sendo assassinado em 11 de setembro de 1973, segundo as mais recentes investigações, mesma data que o golpe de Estado.

    O então comandante-chefe do Exército do Chile, Augusto Pinochet, tomou as rédeas do país, e as Forças Armadas puseram um fim ao governo socialista de Unidade Popular, ao qual se seguiu a violenta ditadura do militar chileno até 1990.

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    Tags:
    Itália, Europa, Argentina, Brasil, Unidade Popular, Henry Kissinger, Richard Nixon, Salvador Allende, Augusto Pinochet, Chile, EUA
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