07:53 28 Novembro 2020
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    A demissão sem cerimônias do secretário de Defesa pelo presidente Trump após uma eleição contestável levantou algumas suspeitas, e com razão. Porém, este não é o início de um golpe nacional, como alguns sugeriram.

    No que se tornou uma força de hábito para o presidente Donald Trump, ele anunciou a demissão do secretário de Defesa, Mark Esper, e a nomeação do substituto, Christopher Miller, através da rede social Twitter.

    Tenho o prazer de anunciar que Christopher C. Miller, diretor bastante respeitado do Centro Nacional de Contraterrorismo (confirmado por unanimidade pelo Senado), será o secretário de Defesa interino, com efeito imediato. Chris fará um ótimo trabalho! Mark Esper foi demitido. Eu gostaria de agradecê-lo por seu serviço.

    Possíveis causas da demissão

    Apesar do modo não convencional com que a sua saída foi anunciada, Esper, que servia como secretário de Defesa desde 2019, preparou uma carta de renúncia antes da eleição presidencial de 3 de novembro, eliminando a possibilidade de que sua saída estivesse de alguma forma diretamente relacionada com tal evento.

    Apesar da existência de várias discórdias entre o presidente e seu ex-secretário, supõe-se que a razão mais provável para Trump o ter demitido foi ato percebido como deslealdade: a preparação de uma carta de demissão. Segundo o blog de notícias políticas Political Wire, John McEntee, diretor do Gabinete de Pessoal Presidencial da Casa Branca, tinha informado a todos os funcionários da administração Trump que eles seriam demitidos se fosse descoberto que estavam procurando emprego fora da administração.
    O secretário da Defesa, Mark Esper, fala enquanto o presidente Donald Trump ouve durante uma coletiva de imprensa sobre o coronavírus na Casa Branca, 15 de maio de 2020.
    © AP Photo / Alex Brandon
    O secretário da Defesa, Mark Esper, fala enquanto o presidente Donald Trump ouve durante uma coletiva de imprensa sobre o coronavírus na Casa Branca, 15 de maio de 2020

    É mais do que provável que tal medida seja projetada para reforçar a noção atualmente promulgada pela Casa Branca de que o presidente Trump, e não o seu adversário democrata, Joe Biden, é o verdadeiro vencedor da eleição presidencial.

    Traços de inconstitucionalidade

    O substituto de Esper, Christopher Miller, é um veterano de combate condecorado, tendo servido anteriormente à administração de Trump como assistente especial do presidente e diretor sênior para contraterrorismo e ameaças transnacionais no Conselho de Segurança Nacional, secretário assistente de Defesa para operações especiais e conflitos de intensidade e, mais recentemente, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo.

    A nomeação de Miller causou controvérsia. O artigo 132° da Constituição dos EUA exige que o vice-secretário de Defesa assuma o cargo de secretário de Defesa "quando o secretário morre, renuncia ou fica impossibilitado de desempenhar as funções e deveres do cargo". O atual vice-secretário de Defesa é David Norquist. Além disso, o mesmo artigo também proíbe de ocupar o cargo de secretário de Defesa qualquer pessoa que tenha servido como oficial em um ramo regular das Forças Armadas nos últimos sete anos. Miller deixou o Exército em 2014. Esta lei está sendo questionada em vários círculos, embora não se saiba se o presidente Trump está contando de todo com esta base legal para a nomeação de Miller.

    Material para teorias da conspiração

    A demissão de Esper e a nomeação de Miller como seu substituto foram objeto de algumas conspirações exageradas, incluindo a de um ex-promotor federal, Andrew Weissmann.

    Weissmann conhece bem teorias da conspiração. Afinal, ele é o autor do "Relatório sobre a investigação da interferência russa nas eleições presidenciais de 2016", mais conhecido como Relatório Mueller.

    Weissman, mais conhecido por seu papel como promotor principal da equipe do ex-conselheiro especial Robert Mueller que investigou Donald Trump, e atualmente colaborador da emissora MSNBC, publicou no Twitter uma nova teoria da conspiração que se baseia na demissão de Esper como base para um "golpe" por parte do presidente Trump, explicando-o em quatro partes:

    1. Para ter um golpe bem-sucedido, um líder deve controlar os militares; 2. Trump acabou de demitir o secretário de Defesa e instalou um lacaio; 3. Isto é sério 4; Os Republicanos se manifestarão ou permanecerão cúmplices?

    Mais do que fantasia, um ataque à honra

    A teoria fantasiosa de Weissmann implica que os militares dos EUA, que recebem suas ordens legais do presidente dos EUA enquanto servem em sua qualidade de comandante-chefe, devem sua lealdade a um homem, e não à Constituição que juraram defender.

    Contudo, em plena véspera do Dia dos Veteranos, tal implicação é tão insultuosa como totalmente errada. A recente polêmica em torno do envio de tropas norte-americanas para Washington devido as grandes manifestações contra o presidente ressalta o quão seriamente os militares levam esta questão, e para Weissmann sugerir o contrário sem oferecer nada mais do que sua própria opinião tendenciosa é inaceitável.
    Soldada americana bate continência durante celebração do Dia dos Veteranos.
    © AP Photo / Anja Niedringhaus
    Soldada americana bate continência durante celebração do Dia dos Veteranos

    Weissmann também denigre o homem que o presidente Trump escolheu para substituir Esper, Christopher Miller. Miller, além de seu serviço na administração Trump, serviu anteriormente como oficial comissionado no Exército dos EUA, onde, entre outras realizações, liderou uma equipe de operações especiais conjuntas encarregada de caçar Osama Bin Laden antes do 11 de setembro, e serviu em múltiplas viagens de combate no Iraque e Afeganistão, comandando uma variedade de unidades de Forças Especiais dos EUA.

    Sugerir que um homem com o currículo de Miller foi escolhido a dedo por Trump com o propósito de orquestrar um golpe que violaria tudo o que o primeiro passou sua vida defendendo, é um insulto não apenas para Miller, mas para qualquer cidadão que tenha feito juramento e que vista, ou tenha vestido, o uniforme pelo seu país.

    Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Mark Esper, e general Mark Milley
    © AP Photo / Susan Walsh
    Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Mark Esper, e general Mark Milley

    O presidente do Estado-Maior Conjunto, o general Mark Milley, escreveu em uma carta aos membros do Congresso em agosto passado que "a Constituição e as leis dos EUA e dos [seus] estados estabelecem procedimentos para a realização de eleições e para a resolução de disputas sobre o resultado das eleições". Deste modo, Milley não vê "os militares norte-americanos como parte desse processo. No caso de uma disputa sobre algum aspecto das eleições, por lei, os tribunais e o Congresso dos EUA são obrigados a resolver quaisquer disputas, [e] não os militares dos EUA". Milley conclui afirmando que acredita profundamente no princípio apolítico das Forças Armadas norte-americanas.

    Os militares dos EUA têm uma longa história de permanecer fora da política interna do país, seguindo fielmente as ordens e instruções legais de quem quer que seja eleito pelo povo norte-americano como seu presidente, e é assim que deverão continuar.

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    Tags:
    teorias da conspiração, golpe militar, Defesa, Forças Armadas dos EUA, Estados Unidos
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