04:45 26 Novembro 2020
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    A posse de outro governo de esquerda no continente evidencia que a questão ideológica com Brasil deve continuar, dizem especialistas.

    O Brasil foi a primeira nação continental a reconhecer o governo interino da senadora conservadora Jeanine Áñez após a saída de Evo Morales, de esquerda, da presidência da Bolívia em novembro de 2019. Foi também o último país fronteiriço com a Bolívia a reconhecer, no dia 24 de outubro, a vitória nas ruas do candidato de esquerda, Luis Arce, à presidência. E foi um dos poucos Estados da América do Sul a não ter enviado representante para a posse, domingo passado (8), do novo chefe de governo boliviano.

    Assim tem sido a política externa brasileira em relação à Bolívia desde a eleição de Jair Bolsonaro em outubro de 2018: a de antagonismo em relação a mais um país de viés de esquerda.

    A questão é que a Bolívia foi a segunda nação a se movimentar recentemente para este lado do espectro político - a outra, a Argentina de Alberto Fernández - numa região que já tinha a Venezuela como referência básica de poder de esquerda. O movimento do pêndulo político, ora mais conservador, ora mais progressista, agora seguiu para este último após uma onda que levou Uruguai, Chile, Peru, Colômbia - e o Brasil, claro - para a direita.

    Falar em Brasil é falar em Bolsonaro. Para Maurício Santoro, professor-adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a equação do presidente tem mais consequências econômicas do que políticas.

    "Bolsonaro trata a política externa como extensão de sua guerra ideológica interna e isso gera tensão com parceiros como aconteceu com países europeus e com a China e já houve até uma divergência com Joe Biden antes mesmo de sua eleição. Essa visão tem perturbado relações no continente, já temos questões bastante difíceis com a Argentina, e agora também com a Bolívia com quem temos relação fundamental por causa do gás natural", disse à Sputnik Brasil o Doutor e Mestre em Ciência Politica.

    Para Nelson Franco Jobim, jornalista, professor universitário e mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics (LSE) em Londres, há sim um fator de isolamento de Bolsonaro, mas não apenas na América do Sul.

    "O presidente sai mais enfraquecido pela derrota de Donald Trump do que pela vitória do socialismo boliviano, mas esse é mais um fator para aumentar o isolamento do Brasil no continente. Não vejo como estabelecer pontes com o governo Arce, mesmo que seja mais pragmático e menos ideológico, mas tenho dúvidas se este governo, este Itamaraty, vão reconhecer essa diferença em relação ao que era o governo de Evo Moraes", concluiu Jobim em entrevista à Sputnik Brasil.

    Bolívia no Mercosul?

    Esta dificuldade de enxergar nuances em cenários políticos deve interferir na posição brasileira sobre uma possível entrada da Bolívia no Mercosul, grupo que reúne Uruguai, Paraguai, Argentina e Venezuela além claro, do Brasil. A introdução é defendida por Alberto Fernández, presidente argentino. Para Jobim, é complicado.

    "Bolsonaro nunca deu importância ao Mercosul, que vai mal, e despreza a relação com a Argentina e não acredito que o Brasil seja favorável a um aumento de status boliviano, já que o país é membro associado. Difícil pensar na Bolívia como membro efetivo", explicou.

    Santoro concorda e aproveita para projetar a questão a longo prazo.

    "O Mercosul está paralisado. Brasil e Argentina, por motivos diferentes, vivem momentos de isolamento e nesta circunstância fica complicado imaginar que haja negociações para ampliar a quantidade de integrantes. É improvável que haja motivação em efetivar outros membros, em particular a Bolívia pelas diferenças ideológicas grandes com o Brasil", defendeu Santoro.
    Luis Arce, presidente da Bolivia, e seu vice Dvid Choquehuanca
    © REUTERS . DAVID MERCADO
    Presidente boliviano Luis Arce e seu vice David Choquehuanca na varanda do Palácio Presidencial de La Paz, Bolívia

    Arce, que tomou posse domingo (8), é o segundo presidente eleito pelo voto popular com viés esquerdista em 13 meses. Antes dele, Alberto Fernández venceu tendo como vice Cristina Kirchner. Estes foram os recentes movimentos do pêndulo político continental para a esquerda depois de uma onda conservadora que passou por Brasil, Uruguai, Colômbia, Equador e Chile, para citar apenas os países mais representativos.

    Santoro entende que o movimento é cíclico e normal, mas que o desafio vai mais além.

    "O continente oscila, não é um bloco homogêneo e vemos hoje uma divisão bastante pronunciada. Mas a questão é se é possível trabalhar em conjunto a despeito das divergências. Temos visto uma polarização ideológica que travou a possibilidade de cooperação na região. O processo de integração está travado e um exemplo disso é a incapacidade de resposta conjunta à crise social e humanitária na Venezuela", comentou.

    Mesmo sem essa capacidade de superar obstáculos ideológicos, o continente teve no caso da Bolívia um marco interno envolvendo instituições democráticas, como lembrou Jobim.

    "A explosão de uma banana de dinamite diante do centro de campanha do Movimento ao Socialismo, o MAS, em La Paz mostra um país dividido e, historicamente, sempre há risco de radicalização. Mas mostra também que as instituições aceitaram a transição democrática, então não vejo no horizonte possibilidade de revolução, conflito ou guerra civil", comentou.

    Brasil e Bolívia vão começar um novo ciclo de relacionamento diplomático num momento econômico complicado entre eles. Com o aumento da produção de gás no pré-sal, Brasília importa menos de La Paz. E em 2020, nossas exportações têm caído ainda mais. Em comparação ao mesmo período do ano de 2019, houve uma queda de 32,6%.

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    Tags:
    Cristina Kirchner, Luis Arce, Jair Bolsonaro, Brasil, Bolívia
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