20:39 31 Maio 2020
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    Ex-agente secreta russa que atuou por quase 30 anos na América Latina conta detalhes da sua vida clandestina nas vésperas do Dia Internacional da Mulher.

    Pela primeira vez na história da Rússia contemporânea, em janeiro de 2020 o serviço de inteligência russo publicou o nome de sete ex-agentes de inteligência que atuavam ilegalmente no estrangeiro.

    A Sputnik Mundo conversou com a coronel aposentada Tamara Netyksa, que contou detalhes de sua atividade como agente ilegal na América Latina entre 1978 e 1998.

    A oficial revelou que durante os 20 anos que passou no continente americano só falava em idioma espanhol com seus filhos e seu marido, o agente secreto Vitaly Netyksa.

    "Enquanto trabalhamos no estrangeiro, Vitaly e eu não pronunciamos nenhuma palavra em russo sequer", assegura a ex-agente secreta.

    Netyska recorda, no entanto, que uma vez, logo no início da sua carreira, disse uma frase em russo sem se dar conta, quando morava com uma família latino-americana.

    "Foi a única vez na minha vida que, antes de dormir, ao invés de falar em espanhol 'buenas noches', disse em russo 'spokoinoi nochi'. Mas não aconteceu nada, ninguém percebeu", revelou.

    A coronel aposentada acredita que o incidente contribuiu para que ela nunca mais cometesse o mesmo erro, o que a incentivou a não falar russo em nenhuma ocasião, nem quando estava sozinha com seu marido.

    Tamara Netyksa, ex-agente secreta russa
    © Foto / Serviço de imprensa do Serviço de Inteligência Exterior da Rússia
    Tamara Netyksa, ex-agente secreta russa

    Ao recordar as dificuldades da vida de espiã clandestina, Netyska lembra a impossibilidade de cozinhar pratos russos, mesmo em dias de festa, para que seus filhos e amigos não suspeitassem da sua real identidade.

    Ela conta como seus filhos finalmente conheceram o borsch, uma sopa de beterraba tradicional russa.

    "Tinha uma família que morava no nosso prédio, que todos achavam que era da Rússia, apesar de eles não saberem nenhuma palavra em russo. A esposa cozinhava borsch, e um dia trouxe um pouco para nós provarmos", contou.

    A filha de Netyska adorou a sopa, apesar de que "estava fria", e passou a pedir para sua mãe que a preparasse.

    Assim, Netyska passou a preparar esse prato tradicional russo. Caso alguém perguntasse por que o fazia, ela dizia que havia aprendido a receita com sua vizinha.

    "Nada pode ser considerado de pouca importância no nosso trabalho, assim, a esposa [de um espião] deve ser capacitada em todos os assuntos de inteligência ilegal", explicou Netyska.

    A ex-oficial conta que ela era a responsável por muitos aspectos da segurança do casal, era encarregada de estabelecer relações com os vizinhos, zeladores e vendedores locais.

    Ela revela que uma jovem espiã deve "manter-se atraente" e conta que foi cortejada por muitos homens latino-americanos.

    "Claro que eu chamava a atenção, e houve ocasiões em que [homens] declaravam seu amor, mas que isso representasse algum obstáculo, não, isso nunca aconteceu", assegurou.

    Além da aparência, uma jovem que decida seguir o seu exemplo deve sentir um amor verdadeiro pelo seu país, acredita Netyska.

    Para ela, "dominar um idioma na perfeição não é o suficiente", acrescentando que "com isso o máximo que se pode fazer é viajar ao exterior como turista".

    "Também recomendaria que as jovens façam tudo para ampliar os seus horizontes, elevar o seu nível cultural, aprofundar os seus conhecimentos [...] Um agente secreto precisa saber muito, caso contrário está fadado ao fracasso", ressaltou.

    Tamara Netyska nasceu em 1949 e foi casada com Vitaly Netyksa, condecorado Herói da Rússia e já falecido.

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    Tags:
    espionagem, Rússia, América Latina
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