08:18 05 Abril 2020
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    Em seu discurso do Estado da União, Donald Trump enalteceu o desempenho da economia norte-americana sob a sua administração. Os EUA estão em uma boa fase, mas qual a performance real da maior economia do mundo nos últimos quatro anos?

    Os EUA estão em seu 11º ano de expansão econômica recorde e Donald Trump planeja surfar na onda do bom desempenho econômico durante a sua campanha para reeleição.

    Usando o slogan "Grande recuperação americana" ("Great American Comeback", em inglês), o presidente irá argumentar que a assinatura da "fase um" do acordo comercial com a China e a renegociação da parceria com o México foram essenciais para garantir o crescimento econômico dos EUA.

    "Estou radiante por poder informar que a economia [dos EUA] está melhor do que nunca", declarou Trump, em seu discurso do Estado da União.

    No entanto, existem alguns indicativos econômicos que o presidente dos EUA preferiu não citar no seu discurso.

    Indicadores positivos

    Alguns indicadores mostram que Trump realmente atendeu à expectativa do eleitorado. Durante sua campanha de 2016, o então candidato havia prometido criar novos postos de trabalho. Conforme reportou a Reuters, os indicadores mostram que esse objetivo foi atingido.

    O nível de desemprego nos EUA é o mais baixo dos últimos cinquenta anos. Além disso, os salários pagos para postos que exigem baixa qualificação estão em alta, o que sugere aumento da renda na base da pirâmide social.

    Baristas preparam bebidas em uma filial da cafeteria norte-americana Starbucks, em Nova Orleans, em janeiro de 2020
    © AP Photo / Gerald Herbert
    Baristas preparam bebidas em uma filial da cafeteria norte-americana Starbucks, em Nova Orleans, em janeiro de 2020

    As minorias também parecem estar sendo beneficiadas pelo bom desempenho no mercado de trabalho. A discrepância entre os índices de desemprego de brancos e negros diminuiu, apesar de ainda ser mais elevada do que a discrepância entre brancos e latinos.

    Os extremamente ricos também obtiveram ganhos durante a administração Trump, principalmente em função do aumento dos índices das bolsas de valores e bom desempenho dos preços das ações. Aqueles que tiveram capital para investir em ações angariaram ganhos significativos.

    Indicadores medíocres

    Mas nem tudo são flores. Alguns indicadores apontam que a economia norte-americana apresenta sinais de estagnação.

    Os índices de produtividade, por exemplo, não apresentaram melhoras nos últimos quatro anos, o que indica que o quadro geral da economia dos EUA mudou pouco desde a administração Barack Obama.

    A estagnação dos níveis de produtividade influencia o nível de investimento, que tampouco apresenta sinais de recuperação. Para tentar reverter o quadro, a administração Trump aprovou uma reforma tributária que favoreceu largamente as empresas.

    A reforma foi aprovada por Trump em 2017. Cumprindo sua promessa de campanha, o presidente reduziu a taxa de impostos para as empresas de 35% para 21%.

    No entanto, os indicadores mostram que as empresas não utilizaram o incentivo para aumentar o investimento, e os recursos podem ter sido utilizados tanto para aumentar os salários dos executivos, quanto para engordar carteiras de investimento em ativos financeiros.

    Presidente Donald Trump fala sobre a reforma tributária, durante palestra em casino de Las Vegas (foto de arquivo)
    © REUTERS / Manuel Balce Ceneta
    Presidente Donald Trump fala sobre a reforma tributária, durante palestra em casino de Las Vegas (foto de arquivo)

    Como resultado, o nível de investimento encontra-se estagnado e sem sinais de recuperação, o que coloca a economia norte-americana em risco de estagnação.

    No entanto, o indicador que mais preocupa os assessores de Trump é o déficit na balança comercial. Apesar da retórica do presidente e das "guerras comerciais" que ele iniciou ao redor do mundo, impondo tarifas inclusive a produtos de países aliados, como a França, os EUA continuam comprando muito mais do que vendendo no mercado internacional. 

    Indicadores negativos

    A reforma tributária pode ter sido uma das vilãs da economia norte-americana sob Trump, uma vez que é apontada como a responsável pelo déficit fiscal recorde do governo.

    Ao abrir mão dos impostos das empresas, o governo federal norte-americano não conseguiu sanar as suas contas e fechou o ano fiscal de 2019 com déficit recorde, de cerca de US$ 984 bilhões (cerca de RS$ 4 trilhões).

    Além disso, apesar da economia estar em crescimento, ela não atingiu a meta de Trump de 3% e manteve-se em pouco acima dos 2%, a média do período de 2016 a 2019.

    Com níveis de investimento praticamente inalterados, os preços dos bens também apresentam sinais de estagnação. Ao contrário do preço das ações, os preços das mercadorias não aumentaram, o que pode dificultar a manutenção do crescimento econômico no médio prazo.

    Mas o principal vilão da economia dos EUA sob Trump é a desigualdade socioeconômica. Os dados do ano fiscal de 2019 mostram que a desigualdade nos EUA atingiu seu pior nível em mais de meio século.

    Desigualdade nos EUA: americanos fazem fila para receber atendimento médico, em ação para atender pessoas sem seguro saúde
    © AP Photo / Jacquelyn Martin
    Desigualdade nos EUA: americanos fazem fila para receber atendimento médico na Flórida

    O índice de Gini, utilizado para medir a desigualdade socioeconômica, subiu para 0,48 nos EUA. Para fins de comparação, a desigualdade média na Europa é muito menor, cerca de 0,38.

    Analistas sugerem que, apesar dos ganhos salariais da base da pirâmide econômica dos EUA, os ganhos dos "ultrarricos" foram muito superiores, o que levou ao aumento da desigualdade sob Trump.

    O aumento na desigualdade é um dos principais temas nos debates da corrida presidencial norte-americana. O descontentamento popular com a concentração de renda é um dos principais fatores favorecendo candidatos à esquerda do espectro político, como Bernie Sanders e Elizabeth Warren.

    Nesta terça-feira (5), Donald Trump proferiu o anual discurso do Estado da União, na Câmara dos Representantes do Congresso dos EUA. O discurso indica os principais temas e argumentos que o presidente deve explorar durante sua campanha para a reeleição. As eleições presidenciais dos EUA estão previstas para novembro de 2020.

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    Tags:
    emprego, desigualdade, balança comercial, déficit público, EUA, economia
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