18:00 04 Agosto 2020
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    Legisladores norte-americanos de ambos os partidos acreditam que Washington deve parar de travar "guerras intermináveis" e querem retomar controle do Congresso sobre atividades militares no exterior.

    Na semana passada, deputados democratas e republicanos votaram pelo projeto de lei na Câmara Baixa do Congresso dos EUA para revogar as autorizações de guerra concedidas ao executivo em 2001 e 2002. Essas autorizações abriram caminho para as invasões do Afeganistão e do Iraque.

    Caso sejam repelidas, o Congresso sinalizaria para o presidente dos EUA, Donald Trump, que sua capacidade de expandir as atividades militares dos EUA no exterior sem a supervisão do Congresso será restrita.

    A medida foi desencadeada pelo assassinato do general iraniano Qassem Soleimani, que deixou os EUA próximos de um conflito de grandes proporções com o Irã.

    "Eu acho que o assassinato de Soleimani e a escalada [de tensões] com o Irã deixou claro que as pessoas não estão prestando atenção nas guerras que já estamos travando", disse o historiador Stephen Wertheim. "Nós quase nos envolvemos, e ainda estamos próximos de nos envolver, em mais um conflito no Oriente Médio que não atende aos interesses dos EUA."

    O estrategista Elbridge Colby, ex-assessor da administração Trump, concorda que os esforços de guerra no Oriente Médio não deveriam ser a prioridade de Washington.

    "Uma das principais patologias de Washington e do seu aparato de defesa é esse envolvimento no Oriente Médio, [região] que simplesmente não é tão importante", afirmou Colby, acrescentando que "os EUA atingiram a sua independência energética. E nós não temos sido muito bem-sucedidos em atingir nossos objetivos na região".

    Colby é um dos autores da Estratégia de Defesa Nacional dos EUA de 2018, que advoga que os EUA concentrem seus esforços de defesa na contenção de "potências revisionistas" como Rússia e China.

    A opinião pública norte-americana parece concordar com os analistas. Pesquisa encomendada pelo jornal USA Today revelou que 52% dos entrevistados acreditam que os EUA são um lugar menos seguro após o assassinato de Soleimani.

    Veterano da guerra no Iraque, Yan Martinez protesta contra conflito armado com o Irã, em Los Angeles, nos EUA, em 4 de janeiro de 2020
    © AP Photo / Damian Dovarganes
    Veterano da guerra no Iraque, Yan Martinez protesta contra conflito armado com o Irã, em Los Angeles, nos EUA, em 4 de janeiro de 2020

    Ciente da oposição de boa parte do eleitorado às "guerras intermináveis", Donald Trump prometeu reiteradamente durante sua campanha eleitoral que retiraria tropas norte-americanas do Oriente Médio.

    Uma vez no posto, no entanto, o presidente Trump adotou medidas no sentido contrário. Em dezembro, Trump ordenou o envio de mais 4.500 soldados para o Oriente Médio, reforçando o contingente de cerca de 50.000 que já está mobilizado na região.

    Além disso, a intensidade dos ataques com mísseis e bombardeios no Afeganistão atingiu níveis recordes. Em abril de 2019, Trump vetou medida do Congresso para acabar com o envolvimento dos EUA na guerra do Iêmen.

    18 anos de guerra

    Por mais de 18 anos, as invasões norte-americanas realizadas em nome do combate ao terrorismo –as chamadas "guerras intermináveis" – têm sido usadas para expandir a presença militar dos EUA no Oriente Médio e no Norte da África.

    Em janeiro deste ano, mais de 16 anos após a invasão do Iraque, o Departamento de Estado dos EUA voltou a emitir "alerta vermelho", que considera viagens de norte-americanos para o país árabe altamente inseguras, reportou o The New York Times.

    A piora na situação de segurança era previsível, uma vez que a ocupação norte-americana levou à criação de grupos insurgentes e à eclosão de uma guerra civil no Iraque. Em retrospecto, muitos analistas consideram a invasão do Iraque um dos maiores erros da história dos EUA desde a guerra do Vietnã.

    A administração Trump, assim como suas predecessoras, insiste que essas guerras são necessárias para manter a segurança dos EUA. Mas críticos questionam se a ação militar dos EUA, pelo contrário, não aumenta a hostilidade internacional contra Washington.

    Pedestre passa por cartazes em homenagem ao general Qassem Soleimani, assassinado em operação dos EUA, em janeiro de 2020
    © AP Photo / Vahid Salemi
    Pedestre passa por cartazes em homenagem ao general Qassem Soleimani, assassinado em operação dos EUA, em janeiro de 2020

    A longa duração dessas guerras também levanta dúvidas acerca da legitimidade dos conflitos, levando muitos americanos a questionar os danos psicológicos, físicos e sociais infligidos pelos EUA contra essas sociedades.

    A medida tomada pelo Congresso na semana passada pode levar ao maior controle legislativo sobre decisões do executivo acerca da invasão de países estrangeiros ou envio de contingentes militares.

    Desde os ataques de 11 de setembro, o executivo norte-americano foi confiado com amplos poderes para tomar esse tipo de decisão sem a supervisão do Congresso. Caso os legisladores ouçam a opinião pública dos EUA, esse salvo conduto pode estar com os dias contados.

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    Tags:
    guerra ao terror, Afeganistão, Iraque, presença militar, oriente médio, EUA
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