18:06 06 Julho 2020
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    A administração Trump quer facilitar as exportações de armas leves, desvinculando-as de considerações políticas e militares. De acordo com especialistas, a medida favorece os produtores de armas norte-americanos e deve prejudicar regiões que já sofrem com a violência.

    A Casa Branca quer modificar as regras de exportação de fuzis, metralhadoras, revólveres e demais armas leves. Com as mudanças propostas, a competência para regular as exportações passaria do Departamento de Estado para a Secretaria de Comércio e o Congresso deixaria de ser notificado sobre as entregas.

    O cientista político Sergei Sudakov explica por que o Departamento de Estado, equivalente ao Itamaraty brasileiro, deve perder a competência de controlar as exportações:

    "Hoje, o Departamento de Estado impõe barreiras relativamente duras à exportação, relacionando-as à situação política e militar de cada região. Isso é claramente ruim para os fabricantes de armas e Trump quer livrá-los dessas restrições", explicou Sudakov à RT.

    As medidas podem favorecer grandes produtores norte-americanos como a American Outdoor Brands Corp. e a Sturm Ruger & Co, que devem aumentar a sua exportação de armas, reportou a Reuters.

    Dona de loja de armas, Tiffany Teasdale-Causer, aponta um fuzil AR-15 semiautomático, o mesmo usado para realizar massacre em igreja no Texas, em novembro de 2017
    © AP Photo / Elaine Thompson
    Dona de loja de armas, Tiffany Teasdale-Causer, aponta um fuzil AR-15 semiautomático, o mesmo usado para realizar o massacre em igreja no Texas, em novembro de 2017

    A Associação Nacional de Esportes de Tiro (NSSF, na sigla em inglês) aprovou a iniciativa da administração Trump. A NSSF estimou que a medida proporcionará o aumento das exportações de armas leves dos EUA em cerca de 20%. Em comunicado, a associação declarou que as regras atuais de exportação de armamentos estavam obsoletas e que as medidas devem criar novos postos de trabalho nos EUA.

    A modificação das regras, que teria sido uma iniciativa pessoal do presidente norte-americano Donald Trump, enfrenta alguma oposição, como a do senador democrata Robert Menendez, membro da Comissão de Relações Exteriores do Congresso.

    "Estamos novamente chocados e frustrados – apesar de não estarmos surpresos – com a disposição dessa administração de colocar o lucro dos fabricantes de armas na frente da segurança da população. Essa medida não só facilita a exportação de armas para países que praticam violações dos direitos humanos, mas também retira o controle do Congresso", notou Menendez.

    A questão do porte de armas é muito sensível nos Estados Unidos, que sofre frequentemente com ataques de atiradores contra a população civil. No mesmo dia da publicação das propostas de Trump, um atirador adolescente fez quatro mortos e deixou uma pessoa gravemente ferida, no estado de Utah.

    De acordo com especialistas, este tipo de ataques impacta a opinião do eleitorado não só em relação ao comércio interno de armas de fogo, mas também à exportação. A administração Obama tinha planos de facilitar as exportações de armas leves, conforme reportou o The Washington Post, mas teria adiado a medida após os ataques na escola de Sandy Hook, que vitimou 20 crianças e 3 adultos.

    Lobby de armas

    Konstantin Blokhin, especialista do centro de pesquisa de assuntos de segurança da Academia de Ciências da Rússia, lembra que a política de porte e exportação de armas nos EUA está sob forte influência do lobby pró-armas do país.

    "Nos EUA ocorreu mais um ataque, mas isso não leva a Casa Branca a abandonar seus planos. O lobby das armas pressiona as autoridades e tem muita influência nos EUA", explicou o especialista.

    Andrei Koshkin, da Universidade russa de Economia Plekhanov, teme que as armas norte-americanas deteriorem ainda mais a situação de países que já sofrem com conflitos armados.

    "A Casa Branca dá a entender que quer aumentar os índices de exportação das suas empresas de armas. E isso é um péssimo sinal para a comunidade internacional, uma vez que as armas norte-americanas irão, em grande medida, acabar em zonas de conflito, e tudo isso sem nenhum controle", declarou o especialista.

    A medida de Trump agrada aos setores mais conservadores do Partido Republicano, o que pode ser útil ao presidente, que tentará a reeleição neste ano. Além disso, apoiadores da medida alegam que ela poderá criar postos de trabalho na indústria de armas, o que estaria de acordo com as promessas de campanha de Donald Trump.

    Ativistas pró-armas marcham em defesa do direito de portar armas no dia do lobby do portador de armas (Gun Owner Lobby Day, em inglês), celebrado em 25 de abril (foto de arquivo)
    © AP Photo / Sarah Zimmerman
    Ativistas pró-armas marcham em defesa do direito de portar armas no dia do lobby do portador de armas (Gun Owner Lobby Day, em inglês), celebrado em 25 de abril (foto de arquivo)

    "Trump faz de tudo para conseguir o apoio do eleitorado. Por isso ninguém está interessado em ouvir que a facilitação das exportações poderá trazer consequências negativas. As armas podem cair em mãos de grupos terroristas, por exemplo. Claro que eles já adquiriam as armas de maneira ilegal, mas agora o processo deve ficar ainda mais simples", disse Sergei Sudakov.

    Impacto no Brasil

    De acordo com o jornal alemão DW, grupos criminosos brasileiros, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), utilizam armamentos norte-americanos importados ilegalmente.

    Dados oficiais do governo brasileiro apontam que 24% das armas ilegais na posse do crime organizado no Brasil vieram dos EUA. Além disso, "praticamente 100% das armas de grande calibre nas mãos do crime organizado, como o AK-47 e AR-15, vieram do território americano", escreveu a jornalista Anabel Hernández.

    Primeiro Comando da Capital (PCC) é a maior facção criminosa do Brasil e faz do tráfico de drogas a sua principal moeda
    © AP Photo / Jonne Roriz / Agência Estado
    Primeiro Comando da Capital (PCC) é a maior facção criminosa do Brasil e faz do tráfico de drogas a sua principal moeda

    Com a aprovação das novas medidas, a exportação de armas norte-americanas deve aumentar, facilitando o acesso de grupos ligados ao tráfico de drogas e demais organizações criminosas a armamentos.

    O Brasil já observa um aumento no registro de posse de novos armamentos desde o início da administração Jair Bolsonaro: durante o ano de 2019, o país registrou 5 novas armas por hora.

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    Tags:
    crime organizado, CV, PCC, exportação de armas, fuzis, armas, EUA
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