16:39 06 Agosto 2020
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    O acordo de livre comércio de veículos e autopeças firmado entre Brasil durante a 55ª reunião do Mercosul, realizada em Bento Gonçalves (RS), pode ser não só uma forma de amenizar as perdas da indústria automotiva brasileira, mas também marcar uma retomada rumo aos patamares de 2013, segundo um especialista ouvido pela Sputnik Brasil.

    Na cidade gaúcha, os presidentes Jair Bolsonaro e Mario Abdo Benítez formalizaram um acordo interno na esfera do Mercosul, que deve permitir a entrada de mais veículos fabricados no Brasil no mercado paraguaio – uma reação à queda das exportações para a Argentina, destino até 2018 de 75% da produção automobilística brasileira.

    A forte crise econômica que os argentinos enfrentam fez, de acordo com dados da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), com que o número das exportações de produtos brasileiros para o mercado argentino caísse para 53%. Se as compras diminuíram, a produção nas plantas do Brasil cresceu, por isso é preciso abrir mercados.

    À Sputnik Brasil, o economista Antônio Jorge Martins, coordenador do curso de MBA em Gestão Estratégica de Empresas da Cadeia Automotiva, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destacou que o acordo automotivo com o Paraguai ajuda de alguma forma, porém em caráter reduzido, uma vez que, segundo ele, só 3% das exportações que iam para Argentina irão para o mercado paraguaio.

    "Mas, de qualquer forma, eu diria que o grande aspecto desse acordo é a abertura cada vez maior da pauta de exportações do Brasil com relação ao setor automotivo, que vem se ampliando de forma significativa, no sentido de fazer frente aos altos e baixos da economia brasileira. Ou seja, fazer a exportação brasileira ser a válvula de escape para fazer frente à queda do mercado interno, que é comum e notória em qualquer país em processo de desenvolvimento", afirmou.

    De acordo com Martins, as exportações ajudam tanto o volume de produção de veículos quanto a balança comercial das montadoras diante dos altos e baixos da economia brasileira. É justamente com conta desses dois motivos que o governo brasileiro estaria hoje trabalhando para "ampliar o leque de acordos comerciais que passem a ser utilizar o setor automotivo".

    Da esquerda para a direita: o presidente da Argentina, Mauricio Macri; do Brasil, Jair Bolsonaro; do Paraguai, Mario Abdo Benítez; e a vice presidente do Uruguai, Lucia Topolansky. O representantes partipam da 55ª Cúpula do Mercosul, em Bento Gonçalves (RS), no dia 5 de dezembro de 2019.
    © Folhapress / Fabiano Mazzotti/Futura Press
    Da esquerda para a direita: o presidente da Argentina, Mauricio Macri; do Brasil, Jair Bolsonaro; do Paraguai, Mario Abdo Benítez; e a vice presidente do Uruguai, Lucia Topolansky. O representantes partipam da 55ª Cúpula do Mercosul, em Bento Gonçalves (RS), no dia 5 de dezembro de 2019.

    "Diria que hoje a estratégia de todas essas empresas atuantes no mercado brasileiro é no sentido de aumentar a gama de exportações, e não só para países da América Latina. Hoje em dia eu vejo esforços, até bem-sucedidos, de ampliar essas exportações para países da África, da Europa e até para Ásia. Então existem negociações para que o Brasil exporte para outros continentes também, porque já vinha exportando para os demais países da América Latina", acrescentou.

    2013 como meta

    O analista ouvido pela Sputnik Brasil relembrou que, em 2013, o Brasil chegou a um recorde de produção de veículos em fábricas instaladas no país: nada menos do que 3,9 milhões de produtos saíram das linhas espalhadas por vários estados brasileiros. De lá para cá, as fortes crises política e econômica causaram recessão, menos vendas e muitas demissões.

    Para este ano, continuou o economista, a estimativa é de que o mercado automobilístico interno cresça 9%, e a linha deve seguir para cima também em 2020, segundo as mais recentes projeções. De acordo com Martins, nos próximos anos, até 2023, existe essa meta de atingir os patamares registrados pela última vez em 2013.

    "A questão básica não é apenas ser competitivo. É fazer com que as matrizes dessas empresas entendam a necessidade de exportação da produção brasileira e, com isso, redirecionem aquela atenção dada a alguns países para a produção brasileira. Esse processo não acontece da noite para o dia, necessita de uma série de negociações e entendimentos, mas é algo que as empresas já estão rumando nessa direção e já estão tendo sucesso, algo que terão nos próximos anos", analisou.

    O especialista também ponderou que não acredita que novas marcas venham disputar e implantar fábricas no Brasil – "já temos um leque de empresas muito grande" –, sobretudo porque a competitividade dos veículos fabricados no país está ligada ao número de indústrias e montadoras que estão presentes aqui.

    "Eu diria que hoje em termos de mundo, de estratégia de competitividade de todas essas montadoras, um ponto que chama a atenção é que elas têm de estar presentes em todos esses continentes, e dentro da América do Sul o país que de forma geral mais atrai esse tipo de estratégia e de produção fabril é exatamente o Brasil, não só por ter o maior mercado – cerca de 70% e 75% do mercado da América Latina reside no Brasil –, então com isso de uma forma geral gerando maiores condições para que as indústrias se instalem aqui e usufruam daquela experiência de mais de 50 anos de fabricação. Isso vale muito para as novas plantas até no sentido de fortalecer os novos conteúdos e o incremento cada vez mais de filtros de conectividade que abastecem os carros brasileiros", concluiu.

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    Tags:
    FGV, Anfavea, Mercosul, exportações, veículos, carros, setor automotivo, relações comerciais, relações bilaterais, diplomacia, Mario Abdo Benítez, Jair Bolsonaro, América do Sul, Argentina, Paraguai, Brasil
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