01:48 16 Dezembro 2019
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    'Tenho que inventar coisas para EUA manterem Venezuela na cabeça', diz embaixador colombiano

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    Áudio que revelou as estratégias da Colômbia para interferir na Venezuela causa turbulência em Bogotá. O autor das declarações, o embaixador da Colômbia em Washington Francisco Santos, se defende: "Não sou de dizer mentiras".

    O embaixador da Colômbia em Washington foi chamado de volta para sua capital, a fim de prestar esclarecimentos sobre áudio de 24 minutos, publicado pelo jornal colombiano Publimetro. No áudio o embaixador da Colômbia em Washington, Francisco Santos, conversa com a recém-nomeada ministra das Relações Exteriores da Colômbia, Claudia Blum, sobre a Venezuela.

    O embaixador diz que "Trump não vai entrar na Venezuela" e que, se Nicolás Maduro não se retirar do poder "a nossa vida vai ficar impossível".

    "Tenho que inventar coisas para que eles [os EUA] mantenham a Venezuela na cabeça", disse, resumindo: "Essa é a tarefa que eu tenho em relação à Venezuela".

    Para manter o assunto Venezuela no topo da agenda dos americanos, o embaixador revelou que iria organizar uma viagem de congressistas dos EUA à Colômbia, para que eles "vejam as fronteiras, vejam drogas".

    Militares venezuelanos fazem cordão de isolamento na ponte Simón Bolívar, que conecta a Venezuela com a Colômbia
    © Sputnik / Mikhail Alaeddin
    Militares venezuelanos fazem cordão de isolamento na ponte Simón Bolívar, que conecta a Venezuela com a Colômbia

    "Vamos fazer isso para que Washington não perca de vista a importância da Venezuela", explicou, reclamando do déficit de atenção dos norte-americanos: "Aqui não se tem memória. Ficam incomodados com algo por dez minutos, depois passam para outro tema".

    Apoio a Juan Guaidó

    O embaixador relata à sua nova chefe que "a história do Guaidó está parada" e expressou esperança de "que isso volte a se mover".

    "É importantíssimo construir uma coisa estratégica com a Venezuela a partir do nosso trabalho, com as embaixadas que o governo [sic] de Guaidó já está montando. Lá tem gente que eu conheço, eu trabalho muito em conjunto e te ajudo em tudo que você precisar", revelou o embaixador colombiano.

    A Colômbia reconhece a autoridade do parlamentar venezuelano, Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente da Venezuela em janeiro de 2019.

    Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana, que muitas nações reconheceram como o governante provisório legítimo do país, conversa com apoiadores perto da embaixada da Bolívia em Caracas, Venezuela, 16 de novembro de 2019
    © REUTERS / Carlos Garcia Rawlins
    Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana, que muitas nações reconheceram como o governante provisório legítimo do país, conversa com apoiadores perto da embaixada da Bolívia em Caracas, Venezuela, 16 de novembro de 2019

    'O Departamento de Estado está destruído'

    O embaixador se queixa reiteradamente da falta de coordenação, imprevisibilidade e desmonte de alguns dos principais órgãos norte-americanos de condução da política externa. Segundo ele, o Departamento de Estado dos EUA, órgão equivalente ao Itamaraty brasileiro, estaria "destruído" sob Donald Trump.

    "O Departamento de Estado, que era importantíssimo, está destruído, não existe", disse, acrescentando que a única figura de peso na instituição é o secretário Mike Pompeo.

    Santos nota a imprevisibilidade da política norte-americana, usando como exemplo a ocasião na qual foi discutida a possibilidade de invocar o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) para justificar uma intervenção militar na Venezuela.

    "Na questão do TIAR, o Departamento de Estado queria, a Casa Branca não. Eu não sei em que momento a política da Casa Branca foi modificada. Mas aqui [nos EUA], de qualquer forma, eles não conseguem entrar em acordo", lamentou.

    Estratégias de intervenção na Venezuela

    A futura ministra colombiana considerou algumas maneiras de interferir na política venezuelana, com o objetivo de desestabilizar o governo:

    "Pachito [apelido carinhoso do embaixador Francisco Santos], me ajude a pensar. A solução não é um golpe militar, porque os militares não vão tirar ele [Maduro] do poder. Os Estados Unidos tirarem e, no final, a gente não saber no que vai dar, também não é uma opção", disse a futura chanceler colombiana.

    Nesse momento, o embaixador responde dizendo que "A CIA não está se metendo. A CIA está pffff....", disse, sugerindo que a agência de inteligência norte-americana tem pouco interesse pela questão venezuelana.

    "A única opção que vejo é fazer ações encobertas lá dentro [da Venezuela], para fazer ruído e apoiar a oposição que está muito isolada", disse o embaixador.

    "Muito isolada, desgastada!", concorda a ministra, que lembra com pesar do "fiasco total" da operação que tentou enviar caminhões com "ajuda humanitária" da Colômbia para a Venezuela, em fevereiro do ano passado. Na ocasião, Nicolás Maduro denunciou o comboio como uma estratégia dos EUA para "justificar uma intervenção estrangeira".

    Pessoas acompanham ajuda humanitária dos EUA destinada à Venezuela, em Cucuta, Colômbia, 23 de fevereiro de 2019
    © AP Photo / Fernando Vergara
    Pessoas acompanham ajuda humanitária dos EUA destinada à Venezuela, em Cucuta, Colômbia, 23 de fevereiro de 2019

    "Então, é preciso pensar em uma estratégia, não sei qual será. Conversei com [...] e eles me disseram: 'Claudia, a única coisa é diálogo, mas um diálogo em que todos se encaixem'", disse Blum.

    "Vou mentir para a chanceler?"

    O embaixador foi chamado de volta para Bogotá pelo presidente da Colômbia, Iván Duque, para prestar esclarecimentos. Em entrevista à W Radio, o embaixador lembrou que a conversa se deu em âmbito "privado".

    "O que me preocupa é que o áudio está perfeitamente audível, isso quer dizer que foi gravado do meu telefone", assegurou.

    Santos também conta que ele e a nova chanceler estavam em um local reservado no hotel Mandarin de Washington: "Estávamos sozinhos".

    Embaixador da Colômbia em Washington conversa com repórteres (foto de arquivo)
    © AFP 2019 / Jim Watson
    Embaixador da Colômbia em Washington conversa com repórteres (foto de arquivo)

    O embaixador justificou as suas declarações, notando o objetivo da conversava com a sua chefe, nesse caso a chanceler da Colômbia, era descrever o estado das relações entre os EUA e a Colômbia:

    "Vou mentir para a chanceler? Eu não sou uma pessoa de dizer mentiras, é uma pena, mas eu tenho que dizer-lhe a verdade", declarou.

    Quando questionado sobre a possibilidade de renunciar ao posto, Santos afirmou que não o faria, lembrando que a decisão cabe ao presidente da Colômbia.

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    Tags:
    áudio, escutas, Venezuela, EUA, Colômbia
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