06:06 06 Dezembro 2019
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    Refugiados venezuelanos em centro de acolhida em Manaus.

    Barraca para passar a noite é única opção de muitos venezuelanos em Manaus

    © Sputnik / Magda Gibelli
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    Uma barraca, montada em um centro de recepção, é a única opção que muitos venezuelanos que deixaram seus país buscando emprego tem para dormir em Manaus, no Amazonas.

    "Minha experiência foi horrível aqui, eles nos dão uma barraca e comida todos os dias, mas posso dizer às pessoas para não virem, porque aqui você não encontra trabalho, eu em El Tigre [na Venezuela] estava melhor do que aqui, porque estava em casa com meus dois filhos e não voltei porque não tenho dinheiro para voltar", disse Maria Diaz, de 19 anos, à Sputnik.

    Díaz disse que, embora a situação econômica em seu país seja difícil, dada a hiperinflação e a ausência de um salário que lhe permita atender suas necessidades básicas, em Manaus ele conheceu a mesma realidade.

    "Eu deixei o país, mas quatro meses se passaram e eu não tenho emprego, não pude enviar dinheiro para minha mãe e ajudar meus filhos. Acho que, se eu voltar neste momento, serei apenas mais um fardo. Estou esperando que algo aconteça, conseguir um emprego, ser realocada para que, se eu voltar, pelo menos leve algum dinheirinho", afirmou.

    Segundo dados publicados pela Polícia Federal, dos 231 mil venezuelanos que entraram no Brasil até setembro de 2018, entre 16 mil a 20 mil vivem no estado do Amazonas, que faz fronteira com a Venezuela.

    Ao caminhar pelas ruas do centro de Manaus é comum encontrar em quase todos os quarteirões com um venezuelano; alguns trabalham como vendedores ambulantes, outros, disseram, não tiveram escolha a não ser pedir dinheiro, comida ou até mesmo um trabalho para manter sua família.

    Refugiados venezuelanos pedem ajuda nas ruas de Manaus.
    © Sputnik / Magda Gibelli
    Refugiados venezuelanos pedem ajuda nas ruas de Manaus.

    No centro de acolhida com capacidade para cerca de 300 venezuelanos visitado pela reportagem, a maioria dos consultados afirmou que encontrar um trabalho foi mais difícil do que o imaginado. 

    "Estou aqui por causa da crise na Venezuela, que os empregos não pagam nada [...] eu pensei que seria melhor para mim, mas acontece que não há emprego, não há nada, estamos esperando para ver se eles nos realocam e ficaremos melhor, mas se eu soubesse que era assim, não teria vindo", disse Mildred Baute, 26, que também vive em Manaus como refugiado.

    Segundo a Pesquisa Nacional Contínua de Domicílios (PNAD), publicada em agosto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego em Manaus é de 17,7% e está entre as mais altas do estado do Amazonas.

    Os venezuelanos que estão em condição de refugiados e ainda não conseguiram um emprego percorrem as ruas com suas malas porque não têm onde deixá-las durante o dia.

    E o centro de recepção no bairro de Flores, onde também fica a rodoviária municipal, abre apenas no final da tarde. Longas filas são formadas para conseguir um lugar nas barracas do local.

    Um dos militares responsáveis ​​pela proteção do centro explicou que os venezuelanos não podem descansar no local durante o dia, mas alguns aproveitam qualquer deslize na segurança para entrar e tirar um cochilo. 

    • Barraca que abriga venezuelanos em centro de acolhida.
      Barraca que abriga venezuelanos em centro de acolhida.
      © Sputnik / Magda Gibelli
    • Fila para conseguir uma refeição.
      Fila para conseguir uma refeição.
      © Sputnik / Magda Gibelli
    • Distribuição de comida em centro de acolhida para refugiados venezuelanos.
      Distribuição de comida em centro de acolhida para refugiados venezuelanos.
      © Sputnik / Magda Gibelli
    • Refeitório em centro de acolhida no bairro Flores, em Manaus.
      Refeitório em centro de acolhida no bairro Flores, em Manaus.
      © Sputnik / Magda Gibelli
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    © Sputnik / Magda Gibelli
    Barraca que abriga venezuelanos em centro de acolhida.

    Simon, que preferiu não informar seu sobrenome à Sputnik, afirmou que a noite na barraca é "horrível".

    "Os guardas [militares] chegam e acordam você toda hora porque qualquer coisa [roubo ou irregularidade] já nos pegam e dizem que todos pagam por qualquer erro e começam a dar voltas na barraca para bater em alguém, eles não se importam se há crianças", disse o jovem de 19 anos que está em Manaus há cinco meses. 

    Simon conta que apesar de trabalhar descarregando mercadorias em uma loja, onde recebe R$ 50 por dia quando há alguma atividade para ser feita, ele não consegue pagar por um lugar para morar.

    No centro de recepção, as famílias venezuelanas possuem um refeitório, administrado pelas autoridades brasileiras, e recebem três refeições por dia, mas para obter esse benefício, adultos, crianças e idosos devem esperar em demoradas filas. 

    Entre os habitantes de Manaus, muitos expressaram sua disposição em receber venezuelanos, mas confessaram que sua cidade não tem condições para o grande fluxo de migrantes que recebeu.

    O governo da Venezuela ativou um programa de retorno à Venezuela, chamado "Plano Vuelta a la Patria", e repatriou grupos de pessoas que deixaram Manaus e Boa Vista. 

    A maioria das pessoas com quem a reportagem conversou afirma que gostaria de voltar à Venezuela, mas contraíram dívidas para deixar o país e voltar sem dinheiro não é uma opção. 

    "Aqui, posso esperar um pouco e conseguir um emprego, mas se eu voltar para a Venezuela, o que farei para comer ou dar algo para minha mãe? Essa é minha última opção", disse Diego Salas, de 28 anos.

    A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que mais de 4,5 milhões de venezuelanos já tiveram que deixar seu país devido à grave situação econômica.

    Caracas afirma que a situação é resultado do bloqueio econômico dos Estados Unidos e que pediu ajuda a ONU, que acusa de inflar os dados dos refugiados, para conseguir financiamento para o programa de repatriamento de venezuelanos. 

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    Estados Unidos, Manaus, refugiados, Brasil, ONU, Venezuela
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