23:07 09 Dezembro 2019
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    Uma pepita de ouro em uma cédula de 500 bolívares.

    O sonho dourado que se esconde no sul da Venezuela (FOTOS)

    © Sputnik / Magda Gibelli
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    Crise econômica, doenças, banditismo e esperança de enriquecer são coisas do cotidiano de muitos venezuelanos. Em reportagem exclusiva, a Sputnik Mundo foi ver a vida dos garimpeiros no país.

    Situado no meio da Venezuela, o Arco Minero del Orinoco é uma área de 111.843 km² que inclui os estados de Apure, Amazonas, Delta Amacuro e Bolívar, onde se encontra o pequeno município de El Callao. Uma equipe da Sputnik Mundo resolveu ir ao local e ver mais de perto como as pessoas vivem ali.

    A região do Arco Minero é conhecida por ser rica em ouro. Atualmente, o Arco é o destino de muitos cidadãos venezuelanos, devido à crise econômica que varre o país.

    "Aqui chove e quase sai ouro pelas calçadas", disse à Sputnik Miguel Rivas, um dos moradores de El Callao.

    A 30 minutos da zona urbana, é possível ver os garimpeiros em El Callao. Uns a pé, outros de caminhão, todos com instrumentos cônicos feitos de madeira, necessários para a lavagem do ouro.

    Uma mulher mostra uma pepita de ouro encontrada em El Callao
    © Sputnik / Magda Gibelli
    Uma mulher mostra uma pepita de ouro encontrada em El Callao

    Ao chegar a El Callao, o visitante se sente como se estivesse em uma feira, em meio de vozes dizendo "compro ouro!" e "vendo ouro!". Velhos, crianças, jovens, homens e mulheres, todos caminhando com cuícas e lanternas na cabeça.

    "Quase todos trabalham nas minas, é por isso que as pessoas estão cheias de terra até o joelho. Aqui você nunca vê gente com roupa limpa", acrescentou Rivas, que trabalhou por 17 anos em uma mina até sofrer malária e largar o trabalho.

    Malária

    O ambiente úmido, com muitos mosquitos, torna El Callao um lugar fácil para contrair malária. A doença é como uma gripe que atinge grande parte da população. 

    Por sua vez, o governo distribui entre a população remédio e telas mosquiteiras para pendurar em cima da cama.

    "Entregaram-nos várias telas mosquiteiras faz uma semana, e já sabemos que o mosquito que transmite malária tem suas horas. Pela manhã às 6 horas e durante a tarde às 18. A esta hora alguém fica expulsando a praga", disse Mariana Gutiérrez, dona de um negócio alimentício perto de uma mina.

    Na falta de tratamento médico, muitos se cuidam com bebidas feitas a partir de plantas medicinais, água com bicarbonato de sódio e limão para se livrar do vírus. No entanto, se tais métodos falham, resta comprar remédios no mercado negro.

    Na localidade, o medicamento contra a malária custa 4 g de ouro, o equivalente a US$ 120, tendo em conta que cada grama custa US$ 30, de acordo com a cotação de 5 de agosto. 

    A malária traz consigo febre alta que, se não for tratada em 24 horas, pode levar à morte, informou a Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil.

    Embora a malária tenha forte presença na África, a Venezuela tem experimentado um maior número de casos da doença. Em 2017, o país registrou 406 mil casos, um aumento de 69% se comparado a 2016, publicou os dados da OMS o jornal O Globo.

    Ilusão do ouro

    A busca por ouro na Venezuela tem tido forte relação com a atual crise econômica que o país tem vivido. Com a redução do preço do petróleo no mercado internacional, as receitas do governo do país caíram consideravelmente.

    Extração de ouro em El Callao, Venezuela
    © Sputnik / Magda Gibelli
    Extração de ouro em El Callao, Venezuela

    Além dos hidrocarbonetos, a Venezuela também é rica em minério. O presidente Maduro disse em junho que seu país ocupa a 6ª posição em reservas de ouro no mundo. Hoje, Caracas aposta no mercado do ouro como uma saída para a crise econômica.
    Tendo em vista estes fatores, a Sputnik conheceu muitos habitantes de outras regiões do país em El Callao.

    "Isso é uma ilusão. Você se dá todo para pegar ouro, fazendo 2g por dia (US$60), algo que quase ninguém ganha nesse país, mas o dinheiro acaba dando só pra viver, visto que os que controlam as minas pegam 50%, outra parte vai para os militares. Depois tem o hotel, comida e mandar algo para a família", explicou um jovem de 19 anos ao regressar do trabalho na mina de Nacupay.

    Ao entrar no povoado, em 4 de agosto, nossa equipe viu homens armados, com calças camufladas, embora não portassem nenhum distintivo. Seus rostos estavam cobertos, evitando serem identificados. 

    Nacupay é uma mina localizada a leste do centro de El Callao. A mina também é conhecida como Dubái.

    O clima na região é de tensão e medo. Muitos arregalam seus olhos, em sinal de perigo, quando se menciona o nome, visto que todos os pontos de produção de ouro são controlados por grupos criminosos.

    Tais grupos são responsáveis por pegar parte do ouro achado. Todo aquele que leva ouro escondido pode sofrer alguma punição. Por vezes, alguns são decapitados, esquartejados, mutilados ou até mesmo queimados. Tudo de acordo com a gravidade de sua falta.

    Extração de oro em El Callao, Venezuela
    © Sputnik / Magda Gibelli
    Extração de oro em El Callao, Venezuela

    Os grupos criminosos são chamados pelos populares de "las bases". Estes grupos geram tanto medo que muitos temem conversar com jornalistas.

    "É que os de 'las bases' estão por aí, e se nos veem falando podem pensar que é alguém da inteligência da polícia, visto que a polícia tenta pacificar as minas. Isto tem causado muitos confrontos", expôs o jovem.

    A equipe da Sputnik não pôde chegar aos pontos de extração visto que "las bases" não permitiram nosso acesso.

    Na produção, os garimpeiros usam moinhos artesanais para processar a areia ou moer as pedras. Em seguida, as pedras caem na água e, através de uns dutos, chegam a uma placa preparada com mercúrio. As partículas de ouro acabam se aderindo ao mercúrio.

    Residentes de El Callao trabalhando no refino do ouro
    © Sputnik / Magda Gibelli
    Residentes de El Callao trabalhando no refino do ouro

    No final do processo, após tirar toda a areia e as pedras, a placa é limpa com cuidado, formando um fileto arenoso formado por ouro. Em seguida, com a ajuda de um pedaço de algodão o ouro é limpo do mercúrio.

    O ouro também é queimado para que seja o mais puro possível. Após esta etapa, ele é entregue ao dono do moinho.

    "A metade que sai é para os do moinho[...]e a areia também fica com ele, é submetida a estudo e pode ser vendida. Dependendo disto vão te pagar conforme a quantidade de ouro que tens", explicou o jovem garimpeiro.

    Muitos que chegam de outras cidades acreditam na ilusão de ficarem ricos. Ao viver em El Callao, eles percebem que o que ganham fica para atender suas necessidades no local, ao passo que os serviços são deficientes e o ouro é a moeda local.

    "Sou de Barinas e já tenho três anos nas minas. A vida nas minas é difícil. Enquanto eu pego duas gramas, as gasto em milésimos. Por exemplo, 1 kg de espaguete são 3 milésimas. (US$0,60) [...] você vai vendo que não tem mais dinheiro", disse a Sputnik Patrícia, uma das mulheres que trabalha como garimpeira.

    Homem funde ouro em El Callao
    © Sputnik / Magda Gibelli
    Homem funde ouro em El Callao

    Um outro problema é a hepatite. Para fugir da doença, os locais compram água, visto que a água do local não é boa para consumo.

    "Aqui a água não é boa e, por mais que você filtre e coloque para ferver, a água é barrenta, contaminada e muitos estão ficando com hepatite", diz Patrícia.

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    Tags:
    crise econômica, Venezuela, ouro
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