03:26 16 Setembro 2019
Ouvir Rádio
    Bolívar venezuelano

    Entenda como Venezuela pode recuperar economia em 2 ou 3 meses

    © REUTERS / Ueslei Marcelino
    Américas
    URL curta
    233112
    Nos siga no

    Atualmente, há uma tendência de acreditar que o principal problema econômico da Venezuela seja a hiperinflação, que no último ano contabilizou em uma elevada porcentagem, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

    Apesar da astronômica inflação, o principal problema no país é a falta de dinheiro real em circulação e para estabilizar a economia nacional é preciso evitar as medidas recomendadas pelo FMI, explica o macroeconomista russo, Sergei Blinov à Sputnik Mundo.

    O especialista especificou quais os passos a serem tomados para frear a hiperinflação na Venezuela sem que ela afete o crescimento econômico do país, além de dar recomendações de como estabilizar a situação econômica em poucos meses.

    O alto custo para a população

    A luta contra a inflação não é a melhor opção, visto que ela afeta a população e ao mesmo tempo leva à recessão econômica do país sem garantir resultados, segundo Blinov.

    A lógica dita que uma excessiva quantidade de dinheiro em circulação diminui seu valor e deve ser reduzida para frear a inflação.

    Não obstante, isso significa que a população acabará tendo menos dinheiro e consequentemente um menor poder aquisitivo.

    Consequentemente, as vendas das empresas são reduzidas, bem como a fabricação dos produtos. Isso pode incluir um aumento da taxa de desemprego, visto que estes fabricantes começam a ter menos dinheiro para pagar seus empregados ao retirar menos produtos, pois não necessitam de tanta mão de obra.

    Tudo isso leva a uma redução do crescimento econômico do país, incluindo a recessão. Um exemplo disso é o que ocorreu na Rússia entre 1992 e 1996: as medidas tomadas para frear a inflação levaram a uma redução do PIB para aproximadamente 37% neste período.

    Por isso, deve ser feito o contrário, elevar a quantidade de dinheiro em circulação, explica o especialista, ressaltando que, desta maneira, é possível manter o poder aquisitivo da população e o ritmo do crescimento econômico do país.

    Blinov cita diversos exemplos da economia mundial onde alguns países conseguiram manter o crescimento econômico no contexto da hiperinflação.

    República de Weimar entre 1920 e 1924

    Apesar dos preços terem sido multiplicados por 42 em 1922, a produção cresceu aproximadamente 11,7%. Em 1923, houve uma queda quando a França ocupou a região de Ruhr e os preços foram multiplicados por 860 milhões. Além disso, a produção começou a crescer em meados de 1924.

    Argentina

    Em 1983, a inflação chegou a aproximadamente 344%, porém o PIB cresceu aproximadamente 2,8%. Um ano depois, a inflação praticamente duplicou para 627% e o crescimento do PIB foi mantido em 2,6%.

    Peru

    Apesar de em 1991 o nível da inflação chegar a 410%, o país registrou um crescimento do PIB de 2,6%.

    Brasil

    Entre 1985 e 1994 o país enfrentava altos níveis de inflação e, em alguns momentos, os preços cresceram entre 20 e 30 vezes. Além disso, foi registrada uma queda do PIB de 3,1% em 1990. Com isso, entre 1985 e 1986 o crescimento do produto interno bruto superou os 8%.

    Vietnã

    No contexto de uma inflação que superou os 400% em 1988, o crescimento do PIB deste país asiático chegou a aproximadamente 7,4% em 1989.

    Rússia

    Após a suspensão dos pagamentos e a desvalorização que ocorreu no país em 1998, a inflação viu um rápido crescimento que não demorou em superar os 100%. Contudo, o PIB cresceu em torno de 6,4% em 1999 e aproximadamente 10% em 2000, superando até mesmo a China.

    Blinov também explica que todos os países citados superaram a hiperinflação sem derrubar sua economia, pois não reduziram a quantidade de dinheiro em circulação. Pelo contrário, os países elevaram e mantiveram o poder aquisitivo da população.

    "Se os preços aumentam 10 vezes, porém a quantidade de dinheiro que a população tem aumenta em 15 vezes, a inflação não é um problema", afirmou Blinov.

    Para combater a hiperinflação é fundamental estabilizar os preços no mercado interno, e, para isso, é necessário aumentar o atrativo da moeda nacional aos olhos da população.

    Uma das medidas que a população deveria tomar é guardar a poupança em bolívares, o que é praticamente impossível quando a inflação é muito alta. Sendo assim, para solucionar este problema é preciso tomar duas medidas.

    A primeira delas é proporcionar uma taxa de câmbio flexível entre o bolívar venezuelano e outra moeda estável. A segunda consiste em proporcionar informações oficiais e reais sobre a inflação.

    Adotando estas duas medidas, as autoridades poderão proceder a emitir bônus governamentais que estejam protegidos contra a desvalorização, adiciona Blinov.

    O especialista afirma que um dos aspectos cruciais que não devem ser esquecidos são os tipos de interesses, ou melhor, que os tipos de interesses reais não sejam negativos.

    Um exemplo disso é o caso da Rússia entre 1992 e 1995. Apesar de os tipos de interesses serem muito altos e rondavam os 200% anualmente, na realidade eram negativos devido à forte inflação.

    Por isso, o Banco Central da Venezuela deve incrementar o tipo de desconto para que os tipos reais sejam gradualmente positivos.

    Caso as medidas sejam adotadas, os preços deveriam se estabilizar em questão de meses, mais precisamente, dois ou três meses, conclui o especialista.

    Mais:

    Exército da Venezuela introduz vigilância aérea sobre infraestruturas energéticas
    Vice-ministro russo chega ao Brasil para falar de Venezuela e BRICS
    Rússia promete defender investimentos petrolíferos na Venezuela 'custe o que custar'
    Tags:
    recuperação, dinheiro, inflação, economia, Venezuela
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar no FacebookComentar na Sputnik
    • Comentar