03:09 23 Setembro 2018
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    Bandeira dos EUA atrás de arame farpado

    Detentos norte-americanos realizam greve para acabar com 'complexo prisional de escravos'

    CC0 / Pixabay
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    Presos em 17 estados dos EUA realizaram uma greve nesta terça-feira, 21 de agosto, aniversário da morte do fundador do grupo "Panteras Negras", George Jackson. Detentos realizaram paralisações, boicotes e greves de fome em uma tentativa de pressionar por melhores condições, mais direitos e o fim do que chamam de "escravidão nos presídios".

    A greve vai continuar até 9 de setembro, aniversário da revolta de 1971 na Unidade de Correção de Attica, em Nova York.

    Prisão de Guantánamo
    © East News / Tech. Sgt. Michael R. Holzworth
    Um prisioneiro* que ajudou a organizar a greve disse à Sputnik News em abril que está tentando desmantelar o "complexo industrial de escravos da prisão". Ele está encarcerado na Unidade de Correção Lee, na Carolina do Sul, que presenciou o evento mais mortífero na história da prisão dos EUA nos últimos 25 anos em 15 de abril: sete pessoas foram mortas e mais de 20 ficaram feridas durante a revolta. A greve destina-se a protestar contra a violência, bem como as más condições de vida nas prisões americanas e a prática de trabalho escravo no país.

    A 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos aboliu a escravidão. Contudo, o texto na verdade veda a "escravidão [e] servidão involuntária", mas adiciona: "exceto como punição por crimes".

    Isso significa que, de fato, a escravidão não é um fenômeno vencido no paós. Encarcerados fabricam todos os tipos de bens, recebendo "salários que não ultrapassam alguns dólares por dia. Materiais têxteis, xícaras de café Starbucks e muitos produtos de consumo são feitos, a uma taxa frequentemente subsidiada para grandes corporações, por prisioneiros. Na Califórnia, por exemplo, onde incêndios florestais devastam o estado desde o início do ano, mais de 2 mil presos (60 deles, menores) foram empregados para combater as chamas a um salário de US$3 por dia. Os detentos, porém, são proibidos de se juntarem às corporações de bombeiros após a soltura.

    Ativistas "corrigem" comunicado do Departamento Correcional da Califórnia. O tweet diz: Hoje, mais de 2.000 bombeiros voluntários detentos escravos, incluindo 58 jovens infratores crianças escravas, estão combatendo as chamas do incêndio em toda a Califórnia. Os bombeiros detentos Trabalho escravo desempenha um papel vital serve ao capitalismo, arrancando arbustos até o solo nu os cofres públicos para impedir a propagação do fogo por meio de subsídios que beneficiam os mesmos aristocratas que nos jogaram nessa bagunça em primeiro lugar.

    Karen Smith é membro do Comitê Organizador dos Trabalhadores Presos (IWOC), um grupo formado em 2014 por ex-encarcerados do sindicato dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW). Ela explicou à Sputnik News as bandeiras da greve.

    "Ficou claro para o IWW que essa luta em que os irmãos e irmãs da classe trabalhadora estavam engajados era a nossa luta também. Precisávamos de um grupo coeso para atender às suas necessidades e se organizar ao lado deles", afirma ela.

    Grupos como o IWOC, o Movimento "Liberte o Alabama", o Jailhouse Lawyers Speak e o Fire Inside têm trabalhado com prisioneiros para organizar a greve, o que forçou 11 prisões administradas pelo Departamento Correcional do Novo México a tomarem medidas para mitigar os efeitos da manifestação.

    Na Instituição Correcional Hyde, Carolina do Norte, três prisioneiros foram designados como organizadores de greve e estão "enfrentando ameaças de repressão administrativa", denunciou o IWOC em um comunicado.

    "A retaliação vem sob a forma de abuso físico, movimento restrito, ser sentenciado a confinamento solitário — ter seu status alterado; aqui na Flórida é chamado de 'gerenciamento fechado'", disse Smith à Sputnik. "Muitas pessoas que estavam na linha de frente do movimento de resistência dos prisioneiros aqui na Flórida foram rotuladas como 'grupo de ameaça à segurança' e colocadas em uma administração fechada", completa a ativista.

    Tweet mostra carta enviada por detentos de Tacoma, no estado de Washington, comunicando o início de uma greve de fome realizada por 200 presos em solidariedade às mobilizações nacionais do dia 21 de agosto.

    Os presos têm 10 demanda. A primeira e principal é uma melhoria geral das condições nas prisões para que os locais "reconheçam a humanidade de homens e mulheres presos".

    "[Presos têm direito a] sair e ter sol e ar fresco, isso é um direito humano mínimo", pede Smith. "E o movimento já está restrito a um dormitório, ou a uma sela de nove por sete [metros quadrados], por um ano e meio, o que causa um dano imensurável a uma pessoa. Também alimenta a desumanização que o sistema confia: quebrando as pessoas, separando-as uns dos outros, isolando-as. Pessoas que já estão marginalizadas, já isoladas de muitas maneiras".

    Outra demanda listada exige o fim da "sobrecarga racial, excesso de sentença e negação de liberdade condicional", observando que os negros condenados por crimes contra vítimas brancas são particularmente visados dessa forma, especialmente "nos estados do sul". Outras demandas exigem mais serviços de reabilitação e direitos de voto.

    "As paralisações são apenas uma das formas de ação direta com que os prisioneiros se envolvem; há boicotes, greves de fome. Acho que os ataques ao trabalho são uma mercadoria a que as pessoas encarceradas têm acesso. São forçados a trabalhar. Então, é uma alavancagem. O sistema prisional depende deles para funcionar", diz Smith.

    Tweet denuncia que guardas de unidade prisional na Carolina do Sul fazem piadas com o número de mortos em Lee, onde "7 presos foram assassinados após serem trancados em uma cela para se materem". Os guardas teriam usado uma ofensa racional grave nos EUA. Um preso teria sido preso acusado de ameaçar os agentes prisionais.

    Prisioneiros evitam fazer ligações telefônicas, que custam muito dinheiro, além de dispensar o uso do comissário, o que os ajuda a ingerir comida suficiente diante de pequenas porções servidas pelo refeitório. Eles reclamam de serem extorquidos por preços nas lojas da prisão. De acordo com Brian Sonenstein, da Shadowproof, uma lata de sopa pode custar mais de US $ 15.

    Traci Fant, do grupo Freedom Fighters Upstate, disse à imprensa local que, desde a revolta em um presídio na Carolina do Sul, os detentos de Lee "não podem urinar ou defecar no toalete, porque precisam tomar água no banheiro". Um vídeo postado no Facebook pelo grupo mostra presos dentro do Centro Lee reclamando do cheiro de urina e fezes, além de lixo atravancando os corredores.

    Autoridades da Carolina do Sul responderam ao levante instituindo um sistema de vigilância por drones. Equipados com visão noturna e capacidade de detecção de calor, os drones aumentam a já custosa infraestrutura de segurança, que inclui duas torres de guarda — construídas em parte por detentos — a um custo de US $ 237.000. A prisão já tinha um sistema de câmeras ao custo de US $ 2,2 milhões, também com visão noturna e tecnologia de detecção de calor.

    "A resposta a essa tragédia que deixou sete mortos e tantos feridos foi aumentar a tecnologia para interromper os sinais de celular", disse Smith. "Essa é a resposta deles à tragédia; é o que eles vêem como errado com essa situação: não as mortes, não a violência. Isso é status quo no sistema prisional", completa.

    A greve segue uma longa linha de protestos semelhantes nas prisões. Em janeiro e fevereiro, os prisioneiros da Flórida entraram em greve em um movimento chamado Operação PUSH. Em 2016, os prisioneiros entraram em greve em 24 estados em 9 de setembro.


    *O nome do detento foi preservado.

    Tags:
    prisões, sistema prisional, greve, direitos humanos, 13ª Emenda, Constituição dos Estados Unidos, Operação PUSH, Freedom Fighters Upstate, Departamento Correcional do Novo México, Jailhouse Lawyers Speak, Fire Inside, Movimento "Liberte o Alabama", Comitê Organizador dos Trabalhadores Presos (IWOC), Panteras Negras, Starbucks, Traci Fant, Brian Sonenstein, Karen Smith, George Jackson, Carolina do Sul, Alabama, Novo México, Carolina do Norte, Califórnia, Flórida, Nova York
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