15:54 23 Outubro 2019
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    Militares norte-americanos no Afeganistão

    'Homens verdes' do Pentágono: como exército dos EUA combate às escondidas por todo o mundo

    CC BY 2.0 / The U.S. Army / flickr_cover_photo
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    O Pentágono reconheceu que quase mil soldados norte-americanos estão instalados no Níger, onde eles participam de ações militares e até morrem. Nem sequer o Congresso dos EUA sabia sobre esses oficiais.

    Além do mais, o número do contingente dos EUA na Síria e no Afeganistão supera muitas vezes o divulgado oficialmente. Os EUA mantêm suas tropas por todo o mundo e clandestinamente participam de muitos conflitos armados. Ex-militares americanos confirmaram isso à Sputnik.

    Tragédia perto de Tongo Tongo

    Neste ano, um grupo do batalhão de vigilância nigeriano, composto por 30 oficiais, dentre eles, oito soldados norte-americanos, estava realizando uma missão perto da aldeia Tongo Tongo. Eles buscavam cúmplices de Adnan Abu Walid al-Sahrawi, ex-comandante do "Movimento pela Unificação e Jihad", um grupo terrorista pró-Daesh (os dois são proibidos na Rússia e em vários outros países). Perto da aldeia, o grupo de militares foi cercado e atacado. Como resultado, quatro soldados nigerianos e quatro norte-americanos morreram.

    Soldados estadunidenses carregam caixão do sargento morto na Níger
    © AP Photo / Pfc. Lane Hiser/ U.S. Army
    Soldados estadunidenses carregam caixão do sargento morto na Níger

    Foi difícil disfarçar a morte dos militares estadunidenses, já que a viúva de um deles, La David Johnson, irritou-se com o comportamento do presidente do país, Donald Trump. Ao ligar para a mulher, o presidente destacou que o militar era ciente da missão e dos riscos. Além disso, de acordo com a viúva, durante conversa telefônica, o líder do país não conseguiu se lembrar do nome de seu marido. Por sua vez, Trump desmentiu essas informações no Twitter.

    Eu conversei por telefone muito respeitosamente com a viúva do sargento La David Johnson, e falei o nome dele desde o início, sem hesitar!

    Contudo, com a popularidade das informações sobre o incidente, o escândalo desencadeou um motivo mais sério. 

    "Guerra sem limites"

    Vários congressistas norte-americanos reconheceram que não sabiam nada sobre a missão de seus militares no Níger. Lindsey Graham foi um deles.

    "É um tipo de guerra sem fronteiras e sem limites de tempo e de geografia. Devemos saber mais", afirmou ele. 

    O Pentágono foi obrigado a confirmar que no Níger estão instalados 800 militares norte-americanos, ou seja, estavam anteriormente escondidos no país. Em seguida, cidadãos norte-americanos ouviram outras estatísticas chocantes: no Afeganistão, o número do contingente estadunidense é 1,5 vez maior do que o divulgado anteriormente, ou seja, não são apenas 8.900 militares, há 14 mil soldados. Quanto à Síria, na época do presidente Barack Obama, foi comunicado sobre 503 soldados, mas o número verdadeiro correspondia a 2.000.

    A tragédia perto de Tongo Tongo é muito parecida com a que aconteceu 24 anos atrás, e que é conhecida como a luta perto de Mogadíscio, recorda Zakhar Artemiev, ex-militar do exército dos EUA. Naquela época, no início de outubro de 1993, 18 soldados norte-americanos foram mortos e 73 ficaram feridos. Aquele incidente também chocou os EUA, já que ninguém sabia sobre a presença dos militares estadunidenses na Somália.

    Tropas dos EUA disparam contra atiradores certeiros em Mogadíscio, 1993
    © AP Photo / Hansi Krauss
    Tropas dos EUA disparam contra atiradores certeiros em Mogadíscio, 1993

    "Meu comandante foi um dos soldados atacados em Mogadíscio, e ele não gosta de recordar a tragédia. Já ouvi bastantes histórias deste tipo […], elas acontecem em diversas partes do mundo. Muitas delas até então são desconhecidas." 

    "Em qualquer lugar, eles se sentem como se fossem donos"

    "Na Europa, especialmente na Alemanha, militares dos EUA se sentem completamente livres. Uma densa rede de aeródromos militares faz com eles se desloquem a quaisquer direções. Basicamente, dessa forma eles tentam se introduzir em todos os lugares, possuindo, hoje em dia, destacamentos em muitos países", assinalou Zakharov, um dos russos que serviu no Fort Benning, maior base naval no território dos EUA, depois continuou servindo no Texas, e, mais posteriormente, na base estadunidense na Alemanha.

    Ele recorda um incidente que ocorreu na Eritreia. Naquela época, os militares norte-americanos, instalados na região, resolveram lidar com criminosos que patrocinavam piratas locais. Como resultado, todos os "barões" foram mortos. Artemiev afirma que até agora ninguém sabe sobre esta pequena “guerra”.

    "Em qualquer lugar, militares norte-americanos agem como se fossem donos. Conheço um caso que aconteceu na Colômbia, onde nossos oficiais deram ordens à polícia", conta outro ex-militar dos EUA natural da Bielorrússia, Nikolai Felshtinsky, acrescentando que ninguém pode deter algum soldado estadunidense ou até mesmo adverti-lo.

    Um terço dos soldados serve no exterior

    De acordo com dados do Ministério da Defesa russo, as Forças Armadas dos EUA contam com 1,3 milhão de oficiais, já que 450 mil deles estão em serviço no exterior, ou seja, um terço dos soldados norte-americanos cumpre sua missão fora da Pátria. Além disso, 826 mil oficiais da Guarda e reservistas também fazem parte das Forças Armadas norte-americanas. 

    Submarino norte-americano USS Topeka no porto filipino de Subic
    © AP Photo / Jun Dumaguing
    Submarino norte-americano USS Topeka no porto filipino de Subic

    Pelo visto, nem congressistas sabem qual é o número real do contingente militar estrangeiro dos EUA, o que seria um tanto estranho, pois, de acordo com a Constituição norte-americana, suas Forças Armadas podem agir em qualquer outro país somente após a aprovação do Congresso. 

    Contudo, em 14 de setembro de 2001, três dias após os ataques terroristas nos EUA, o Congresso aprovou a Autorização para Uso de Forças Armadas contra Terroristas (AUMF), dando ao presidente direito de enviar tropas a locais onde operam forças responsáveis por ataques aos Estados Unidos.

    Depois de um ano, em 2002, foi aprovada a resolução especial sobre o Iraque, que também autorizou o  presidente a manter as Forças Armadas neste país "o quanto ele achar necessário".

    "Documentos deste tipo dão direito ao dono da Casa Branca de solicitar permissão aos senadores, e enviar tropas norte-americanas a vários lugares do planeta", explicou Artemiev.

    Enquanto isso, já houve casos quando os termos dos documentos oficiais foram abusados. Assim, hoje em dia no Iraque, Síria e Níger, milhares de soldados norte-americanos operam contra agrupamentos do Daesh. Autoridades dos EUA explicam que a AUMF pode ser aplicada para organizações afiliadas à Al-Qaeda, acusada de ataques terroristas. Contudo, a lei não menciona esta particularidade. Além disso, é difícil qualificar o Daesh como uma organização afiliada à Al-Qaeda, já que por muito tempo é sabido que os dois grupos terroristas se confrontam.

    "Com o pretexto da luta contra o terrorismo, os EUA podem cumprir seus objetivos em qualquer ponto do mundo […] combatendo regimes que Trump, Obama e Bush não gostam, justificando suas ações como luta contra o terrorismo. É só escrever no papel: atividade terrorista suspeita", acredita Felshtinsky.

    Por todo o mundo

    De acordo com o comandante dos EUA, Raymond T. Odierno, as tropas norte-americanas estão instaladas em 150 países, já que mais de 600 bases militares dos EUA estão situadas em 38 países do mundo (mas há dados que afirmam haver 800 bases).

    Militares estadunidenses na Síria
    © AFP 2019 / Delil Souleiman
    Militares estadunidenses na Síria

    Uma das principais características da presença militar dos EUA em outros países é que, depois de entrarem, não se apressam para sair. O exemplo de hoje: militares dos EUA afirmam que permanecerão na Síria ainda por um tempo ilimitado para cumprir missões especiais.

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    Tags:
    soldado, exército, EUA
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