06:18 18 Janeiro 2018
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    Luis Augusto Frappola com o livro Os russos no Uruguai: história e atualidade

    Médico uruguaio se tornou conde russo e conta sua história pela primeira vez

    © Foto: Patricia Lee
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    Luis Augusto Frappola, médico geriatra-gerontólogo uruguaio, foi adotado aos 30 anos pela condessa russa Dusya Lutsky de Tretyakov e conta sua história para a Sputnik.

    Dusya Lutsky de Tretyakov e seu marido sérvio deixaram a Europa no final da Segunda Guerra Mundial para se instalarem no Novo Mundo. Eles chegaram em Montevideu em 1947 e alugaram um apartamento de propriedade da família Frappola.

    Os recém-chegados não entendiam nada de espanhol e foi por isso que se estabeleceu uma relação especial entre a condessa e Esther Aurora, mãe de Luis Augusto, já que ambas falavam italiano.

    Eles não sabiam, porém, que a relação de amizade duraria décadas e que o menino acabaria por herdar um título imperial russo.

    Dusya começou a desempenhar um papel muito importante na vida de Luis Augusto:

    "Ela cuidou de mim enquanto os meus pais trabalhavam e assim comecei a conhecer a cultura russa. Os trenós coloridos com sinos para andar no inverno, a comida, a sopa borsch, estrogonofe de carne, em criança ela me fez amar a Rússia, ao ponto de senti-la como minha segunda pátria", revela o médico à Sputnik Mundo.

    Luis Augusto cresceu, terminou seu curso de medicina e participou de um concurso para entrar na Marinha com o grau de oficial.

    Naquela época, Dusya já era viúva sem filhos. Ele tinha 29 anos e ela — 76. "Ela disse a minha mãe: 'Eu quero que Luis Augusto leve meu nome porque ele tem um título nobre incorporado".

    Foi assim que a adoção adulta foi feita, na qual uma pessoa mantém os sobrenomes legítimos e os novos são adicionados.

    Neste caso, Luis Augusto tornou-se Frappola de Tretyakov, e Dusya também lhe doou o título nobiliárquico para que o pudesse transmitir a seus filhos.

    Dusya organizou um jantar de gala do qual Luis Augusto participou com seu uniforme de oficial. Ela colocou um sabre em seu ombro e o fez jurar "lealdade à família imperial russa", em frente de uma pintura de Nicolau II.

    De Moscou para Montevidéu

    A família Tretyakov tem uma longa tradição na Rússia. Pavel Tretyakov foi um patrono famoso que começou uma coleção de arte, que hoje em dia é um dos museus mais importantes do mundo, a Galeria Tretyakov, com sua valiosa exibição de ícones e pintura russa dos últimos 1.000 anos.

    Frappola relembra os comentários de Dusya sobre o sobrenome Tretyakov, aparentemente originário da cidade de Taganrog, que fica perto do mar de Azov, há mais de 400 anos.
    A família possuía pedreiras quando Pedro I, o Grande, começou a construção de São Petersburgo. A família de Tretyakov contribuiu com grandes quantidades desse material para a nova cidade. Pedro agradeceu-lhes, não com dinheiro, mas com um título nobre.

    Dusya nasceu em 1905, ano da primeira Revolução Russa. Seu pai, Mikhail Tretyakov, era um engenheiro rodoviário e construiu estradas importantes no Cáucaso antes da Primeira Guerra Mundial.

    Por seu talento, foi contratado pelo governo imperial alemão e a família mudou-se para Berlim. Como de costume, Dusya foi educada com uma governanta, mas no início da guerra foi dada a ordem de que todas as crianças frequentassem instituições de ensino.

    Condessa russa Dusya Lutsky de Tretyakov concede o título nobiliário a Luis Augusto Frappola
    © Foto: Patricia Lee
    Condessa russa Dusya Lutsky de Tretyakov concede o título nobiliário a Luis Augusto Frappola

    Dusya teve lá uma experiência muito complicada, porque os colegas se divertiam com seu sotaque e a atacavam porque era russa, inimiga deles, já que estavam em guerra.

    A Dusya chorou tanto que o pai decidiu fazer uma coisa bem ousada: voltar para a Rússia em meio à guerra. A família viajou para a Finlândia com o fim de atravessar a fronteira de trenó e estava prestes a ser mandada para a cadeia, detida por suspeita de serem espiões. Salvou-os a amizade com a mãe do imperador Nicolau II, Maria Fedorovna, que os autorizou a passar.

    "Desde então, Dusya ficou com um forte formigueiro em suas mãos e pés porque estes ficaram gelados durante a viagem", relembra Frappola.

    A família morou em São Petersburgo até à Revolução de Fevereiro de 1917. Depois, a família fugiu da cidade e se mudou para Odessa, no mar Negro.

    Dusya relembra que moravam em uma casa de dois andares na praça de Catarina II. Ali enterraram as joias da família, incluindo um diadema de esmeraldas.

    Luis Augusto Frappola (centro), mãe dele (à direita) e condessa russa Dusya Lutsky de Tretyakov (à esquerda)
    © Foto: Patricia Lee
    Luis Augusto Frappola (centro), mãe dele (à direita) e condessa russa Dusya Lutsky de Tretyakov (à esquerda)

    Em 1918, após o assassinato de Nicolau II e sua família, os Tretyakov decidiram deixar a Rússia. À medida que a cidade passava para as mãos das forças francesas que lutavam contra os bolcheviques, eles conseguiram encontrar um navio francês "onde apenas podiam entrar aqueles que falavam essa língua", isto é, a nobreza e as altas camadas da sociedade russa.

    "Não havia lugar para dormir, as crianças estavam chorando […] O navio estava indo para Istambul, mas houve uma tempestade muito forte no mar Negro e o capitão informou os passageiros de que eles não poderiam continuar a viagem. Aqueles que fugiam da revolução pediram-lhe que continuasse a todo o custo, em uma viagem terrível, e assim o navio chegou ao porto de Constança, na Romênia ", relembra Frappola dos relatos de Dusya.

    A mãe de Dusya só conseguiu resgatar uma caixa de joias feita de ouro maciço. Para que não lha tirassem, ela a pintou de esmalte vermelho, e, quando os guardas romenos pediram para ver o conteúdo de sua bolsa, a confundiram com uma caixa barata.

    A família voltou para Berlim, onde sua casa ainda se mantinha. Dusya casou-se com um sérvio e se instalou em Belgrado. No final da Segunda Guerra Mundial, o casal decidiu sair da Europa e viajou para o Uruguai através da Itália.

    A condessa morreu em 1993, com 98 anos de idade, e nunca mais voltou para a Rússia. Até agora, Luis Augusto nunca quis contar sua história publicamente, mas desta vez concordou "em memória dela, porque ela sempre me acompanha".

    "Eu educo meus filhos com o conceito de que o título nobre que eles herdarão implica valores de solidariedade e responsabilidade", confessou.

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    Tags:
    imigrantes, Revolução de Fevereiro, Rússia, Uruguai
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