08:08 18 Novembro 2017
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    A bandeira estadunidense aparece fora da sede da UNESCO, em Paris, em 12 de outubro de 2017

    Qual é a lógica do 'drama' que Washington desencadeia com saída da UNESCO?

    © REUTERS/ Philippe Wojazer
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    Ontem (13), foi comunicado que os EUA, bem como Israel, tinham decidido abandonar a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) após 6 anos de não pagamento demonstrativo de contributos. O colunista russo da Sputnik, Dmitry Kosyrev, tenta "entender a lógica" desse passo.

    Desde a tarde de ontem, muitas personalidades oficiais têm manifestado sua pena em relação à decisão estadunidense. Quanto a declarações não oficiais, houve até palavras mais fortes — assim, o chefe do Comitê de Assuntos Internacionais do Conselho da Federação (câmara alta do parlamento russo), Konstantin Kosachev, afirmou que os EUA estão se comportando como se fossem "um país pária".

    "Mas imaginemos que apoiamos Trump e os EUA com todo o coração e queremos que dê tudo certo para eles. E tentemos detectar a lógica que motivou tal decisão. Ou o sinal que eles tentam nos enviar", escreve o jornalista.

    Pode-se passar sem eles?

    Primeiro, o jornalista esclarece o que é a UNESCO: uma organização que protege os monumentos culturais, financiando sua manutenção, cria programas de cooperação humanitária entre os diferentes países e assim por adiante.

    "Sua reputação é impecável. De todos os filhos legítimos da ONU, este talvez seja o melhor e o mais eficiente", manifesta Kosyrev.

    Entretanto, o jornalista frisa que a UNESCO, isto é, os países-membros da ONU, "ofendem frequentemente Israel", um amigo e aliado estadunidense.

    "De qualquer maneira, falar nas resoluções que o Monte do Templo em Jerusalém serve como santuário apenas para muçulmanos é uma postura conflituosa. O Monte, em algum sentido, também é significante para os judeus e os cristãos", adiantou.

    A propósito, realça Kosyrev, a saída americana da UNESCO foi motivada formalmente pelo fato de Israel "ter sido ofendido" no âmbito dessa instituição.

    "Tudo bem, as posições contrárias são evidentes, há duas verdades e um conflito. E ele existe muito além da UNESCO. De fato, ele tem uma dimensão global e é muito significante para os EUA, pois se trata das suas relações com o enorme mundo muçulmano", continua.

    Durante esse conflito, em 2011 os EUA empreenderam uma démarche, ou seja, pararam de pagar contributos à UNESCO. Esta, em opinião do jornalista, foi uma "jogada forte". Já sair da UNESCO até que esta se corrija, "se reforme", é uma "jogada fraca".

    "Ela é fraca porque a organização passou 6 anos sem as contribuições estadunidenses, por isso agora a saída dos EUA não criará nenhumas dificuldades financeiras ou de caráter técnico. A saída é uma arma de uso único que, depois de disparada uma vez, já não ameaça ninguém. O mundo vai finalmente se habituar a que os EUA não estão na UNESCO e que ninguém sofreu com isso. Ou seja, se pode passar sem os EUA", resumiu.

    Nem com toda a porta se pode bater

    O jornalista continua que na história parece haver analogias. Por exemplo, a saída da Rússia da APCE (Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa). Mas aí, a situação era um pouco diferente, pois esses dois órgãos não têm nada a ver um com outro, sendo este um simples clube de discussão.

    Já o conceito fundador da ONU é totalmente diferente, assinala o colunista. Ele consiste em que na ONU todos são, não apenas iguais, mas fazem parte dela logo "à nascença". Nela não se é aceite segundo o princípio "serve ou não serve", pois um Estado é membro simplesmente porque existe.

    "É verdade que ocorrem problemas com países não reconhecidos ou dois candidatos à mesma soberania (como China e Taiwan), mas eles são resolúveis", especificou Kosyrev.

    Bater com a porta nessa organização é pior para quem o faz, afirma o colunista. Isto já sucedeu à URSS, em 1950, quando o país saiu de todas as instituições das Nações Unidas por causa de numerosas contradições em relação à península da Coreia, China e sua participação na ONU e muitas outras questões. Na sequência, os EUA puderam intervir nos assuntos coreanos sob auspícios da ONU.

    "Esta lição foi aprendida", afirma o colunista, e frisa que a partir daí a Rússia nunca tentou abandonar as respectivas estruturas, bem como todos os outros países do mundo.

    Eles nos avisam, mas não temos medo

    "Caso a administração de Donald Trump esteja na verdade enviando algum sinal através da atual démarche com a UNESCO, então ele é sobre 'uma tal ONU não serve para os EUA'. Toda ela, e não apenas uma das estruturas da organização. Então, se é assim, podemos sair da ONU, nós somos assim. Isto, em geral, é muito próprio dos EUA da antiga época fracassada das superpotências — dizer que se 'os EUA não retiram benefícios da ONU', e não só da ONU, então ela não serve para nada", explica o colunista.

    Mas a época em que se podia fazer o mundo obedecer através de tais atos já passou, acredita Kosyrev. Antigamente, sim, antes da invasão estadunidense do Iraque em 2003 havia um mundo unipolar em que a ONU era uma "loja" dos norte-americanos que devia dar lucro.

    Mas agora já é tarde demais, pois no caso de um colapso da ONU, haverá "dois mundos — o Ocidente e o não-Ocidente". Contudo, já há um monte de organizações alternativas para comunicar dentro de si. Entretanto, precisariam, de qualquer maneira, de comunicar entre elas também, em uma "plataforma neutral onde todos, pelo menos formalmente, sejam iguais".

    Em opinião de Kosyrev, a ONU é precisamente essa plataforma.

    "Mas para quê organizar esses dramas? Aliás, todos sabem disso. Por isso tudo, o que resta aos EUA e a todos os outros descontentes com que no mundo não há e nunca vai haver unanimidade é ficarem zangados em um cantinho na sombra. […] Eu prometi detectar uma lógica e o sinal racional que os EUA tentaram nos enviar com a sua saída da UNESCO. Não há nenhuma lógica, apenas delírio", enfatizou.

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    Tags:
    UNESCO, ONU, Rússia, Israel, EUA
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