09:20 16 Setembro 2019
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    Raul Castro (centro) sela acordo de paz entre o presidente Juan Manoel Santos (à esquerda) e o líder das FARCs, Timoleon Jimenez

    FARC mantêm guerrilha, agora na política

    © AFP 2019 / Luis Acosta
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    "A partir de 1º de setembro, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) darão início oficial a formação de um partido para atuar na via política da Colômbia. O grande desafio será como a nova bancada, de ideologia marxista após 50 anos de luta armada, vai sobreviver no novo cenário da América Latina."

    A análise é de Creomar de Souza, professor de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB) que, em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, traçou os possíveis cenários dessa nova agremiação política, que nasce em meio a muitas dúvidas. Uma, por exemplo, se o novo partido vai manter a sigla como agremiação e se os primeiros dez representantes que vão disputar as eleições para o Congresso, em março de 2018, manterão seus codinomes de guerra ou adotarão seus nomes de batismo.

    A constituição das FARCs, agora como braço político, antecede a viagem que o Papa Francisco fará à Colômbia de 6 a 10 de setembro justamente para consolidar o acordo de paz, no qual o Vaticano teve papel primordial nas negociações feitas com a intermediação de Cuba ainda à época da gestão do presidente americano Barack Obama. A visita do papa está sendo considerada muito importante nos meios oficiais, uma vez que o pontífice não visitará qualquer outro país no continente, partindo de Bogotá diretamente para Roma, no próximo dia 10.

    "É uma travessia difícil, mas importante para o próprio povo colombiano. O fato de que o principal instrumento de guerrilha e instabilidade no país em um passado recente desista da luta armada é algo que tem que ser levado em consideração. Esse fato mostra que as FARC em algum sentido querem se repensar, em um primeiro momento em termos de modus operandi e em segundo momento eles vão repensar talvez algumas das concepções de mundo que guiaram sua atuação nos últimos 50 anos, o que vai marcar ou não uma reconstrução do discurso: desempenho eleitoral e perspectivas de poder", diz Souza.

    Para o professor da UCB, a coligação das FARC com outros partidos vai desafiar o grupo a fazer política em outros termos que não os da concepção marxista que o fundamentou.

    "O desafio vai ser construir pontes e construir novos caminhos. De um lado há uma boa vontade do status quo colombiano, que propôs e aceitou o tratado de paz e de outro lado terá que haver uma boa vontade dos ex-guerrilheiros de assumirem que a política é um campo que se faz com a travessia difícil do diálogo. Temos que esperar o surgimento do programa dos candidatos e a gente vai conseguir medir isso melhor."

    A transformação das FARC em força política, na visão de Souza, pode ser um elemento importante que também atraia para a vida legislativa os integrantes de outro importante grupo armado na Colômbia, o Exército de Libertação Nacional (ELN), ainda negociando um acordo de paz com o governo do presidente Juan Manuel Santos.

    "O governo colombiano tem uma estratégia muito clara de construir uma negociação (com o ELN), que é vista por elementos conservadores como uma negociação desigual, por estabelecer anistia e permitir que o grupamento possa migrar para o campo político tradicional. Isso pode abrir caminho para que o ELN e que qualquer outro movimento guerrilheiro que ainda reste também possam fazer essa travessia", finaliza o professor.

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    Tags:
    luta armada, marxismo, indulto, acordo de paz, América Latina, parlamento, FARCs, Vaticano, Universidade Católica de Brasília (UCB), ELN, Creomar de Souza, Juan Manuel Santos, Papa Francisco, Barack Obama, Colômbia
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