18:46 23 Setembro 2017
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    Ex-Presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, Eduardo Cunha, chega a Curitiba, em 20 de outubro de 2016, acompanhado pela Polícia Federal

    'No Brasil, corrupção é tanto fenômeno impregnado na sociedade como arma de luta política'

    © AFP 2017/ Heuler Andrey
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    No meio da turbulência política e nova onda de investigações no Brasil, o editor-chefe da revista Latinskaya Amerika (América Latina, em russo) lançado pela Academia de Ciências da Rússia, Vladimir Travkin, partilhou à Sputnik sua visão em relação ao futuro do atual governo Temer.

    Na época em que o impeachment da presidente Dilma Roussef ainda se encontrava na fase de construção, muitos, tanto cientistas políticos como cidadãos comuns, afirmavam que o próprio Temer, então vice-presidente, poderia estar participando de esquemas de corrupção semelhantes. Agora, estas suspeitas ganham cada vez mais força.

    "Acredito que as acusações contra o presidente atual continuarão surgindo ainda por muito tempo. Há dois objetivos principais dessas acusações: primeiro, consolidar a opinião pública no país e no exterior de que houve uma luta justa contra os atos de corrupção e a ex-presidente, Dilma Rousseff, que se sujeitou ao impeachment, foi destituída de modo justo, tendo sido de modo justo substituída pelo atual presidente. Por outro lado, os opositores de Temer e das forças opositores ao governo de centro-esquerda vão continuar lutando por suas ideias, visando destituir Temer também", partilhou Travkin ao serviço russo da Rádio Sputnik.

    De acordo com o analista, a situação é "dificílima", já que se trata não só do presidente atual que foi "qualificado por Dilma como traidor" e "desmoronou a coalizão baseada no PT no poder".

    Ministro Luiz Edson Fachin, do STF.
    Fotos Públicas / SCO / STF / Nelson Jr..
    Levando em consideração que o mandato já está chegando ao seu fim, com as próximas presidenciais marcadas para o ano que vem, "é estimulada a realização de todas as opções possíveis para poder influenciar no resultado das eleições".

    "Praticamente a maioria absoluta dos observadores hoje em dia tenta acreditar que o presidente no poder não tem chances de ser eleito no próximo ano, ou seja, receber o mandato por via natural, através da votação geral. Porém, agora ele tenta estabilizar a situação, afirmando que estas acusações contra vários funcionários não devem desestabilizar o governo", explica o analista, adiantando que o presidente já perdeu vários ministros no seu gabinete.

    Não vale a pena enumerar todos os acusados de corrupção, mas a coisa importante é que estes funcionários destituídos são "ministros-chave do governo atual, governadores, deputados de vários níveis", o que faz com que a crise política assuma um caráter cada vez mais perigoso. Claro que uma parte das acusações será rechaçada, sublinha Travkin, mas por outro lado, podem surgir novos nomes.

    "Não se pode falar de qualquer tipo de estabilidade no Brasil hoje em dia, está dando sorte para ele", acrescentou.

    Neste contesto, surge uma pergunta justificada: será que é possível a convocação das eleições antecipadas, como consequência da perturbação cada vez maior no governo?

    "Teoricamente sim, é possível, mas imaginem só: quem se ocuparia destas eleições se o governo estará ocupado em tentar rebater todas estas acusações, sendo que alguns destes ministros-chave, sem dúvida, vai acabar na cadeia? É uma questão seríssima — as eleições presidenciais. Já resta pouco tempo. Na minha humilde opinião, a convocação das eleições antecipadas é muito pouco provável, já que se deve ser preparado para elas. Tanto mais que Lula tem bastante popularidade hoje em dia e é um dos candidatos", realçou o especialista.

    Ao discutir com Sputnik a imparcialidade das investigações em curso, Vladimir Travkin expressou que, provavelmente, alguma parte das acusações na verdade tem fundamento, mas em relação a muitos envolvidos, "há mais fatores políticos do que da justiça imparcial".

    "Por um lado, a corrupção se tornou um fenômeno impregnado em toda a sociedade, mas por outro — em uma arma muito conveniente de luta política", assinalou, afirmando que também não se pode esquecer a evidente "participação de terceiros" em todos os processos da crise presentes no país latino-americano hoje em dia.

    "A ideia é simples: os americanos querem restaurar sua hegemonia na América Latina. […] Agora se faz tudo para romper as tendências esquerdistas. Olhe só para o Brasil, maior país da região que serve como exemplo para todos os outros países", resumiu o analista, apresentando as situações na Argentina, Venezuela e Equador como uma ilustração desta tendência de "contaminação".

    "Friso que temos um candidato bem resoluto em Washington. Neste caso, a resolução pode ter um sentido negativo, tomando em conta os recentes acontecimentos no Oriente Médio e, Deus nos livre, aquilo que pode acontecer na Coreia do Norte", alertou.

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    Tags:
    justiça, investigação, corrupção, Operação Lava Jato, PT, Dilma Rousseff, Michel Temer, América Latina, EUA, Brasil
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