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    75º aniversário da vitória sobre nazismo
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    O ano das comemorações da vitória na Segunda Guerra Mundial, 1945, coincide, no Brasil, com a queda do regime autoritário imposto por Getúlio Vargas. Qual o impacto da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial para a queda do Estado Novo?

    Em 1945, o Brasil finaliza sua participação vitoriosa na Segunda Guerra Mundial, ao lado dos Aliados, e vive um golpe militar, que põe fim ao Estado Novo e retira Getúlio Vargas do poder.

    A participação do Brasil no conflito mundial gerou alguns benefícios ao país: em troca do uso norte-americano das bases aéreas de Natal, Recife e Belém, o Brasil recebeu tecnologia e crédito dos EUA para construir a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

    Além disso, a entrada do Brasil na guerra garantiu reequipamento inédito das Forças Armadas. A Força Aérea Brasileira (FAB), por exemplo, recebeu bolsas para formar seus pilotos e mais de 300 aviões de instrução dos EUA entre 1942 e 1944.

    Força Aérea Brasileira (FAB) durante a Segunda Guerra Mundial.
    © Foto / Domínio Público/ Arquivo Histórico do Exército Brasileiro
    Força Aérea Brasileira (FAB) durante a Segunda Guerra Mundial.

    Apesar desses aparentes benefícios obtidos pelo país, terminado o conflito, Getúlio é derrubado por um movimento militar. Livros de história "repetem quase como um senso comum" que, após ter lutado pela democracia na Europa, o Brasil não poderia manter um regime autoritário dentro de casa.

    Para o doutor em história social pela Universidade de São Paulo, Rodrigo Bonciani, essa tese é "simplificadora da realidade".

    "Há um descontentamento crescente de vários setores e forças sociais em relação à manutenção do regime do Estado Novo e do poder centralizado em Getúlio Vargas", disse Bonciani à Sputnik Brasil.

    "O fim do Estado Novo é mais do que a resolução de uma contradição aparente, ela depende da ação concreta de forças sociais que vão agir para a derrubada do regime", explicou.

    Participantes de desfile com retrato de Getúlio Vargas passam pela Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1942
    © AP Photo /
    Participantes de desfile com retrato de Getúlio Vargas passam pela Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1942

    "Setores empresariais, setores interessados na liberdade de expressão e os comunistas" não tinham interesse na "sustentação de um Getúlio todo poderoso" após 1945. As Forças Armadas do Brasil não eram exceção.

    "Dentro das Forças Armadas sempre houve oposição e resistência a Getúlio, e principalmente à continuidade de um governo personalista", explicou Bonciani.

    Mas Getúlio Vargas, "muito cauteloso", percebe o fortalecimento de grupos contrários ao seu regime e edita o Ato Adicional, em 28 de fevereiro de 1945, que prevê eleições gerais e permite a formação de partidos políticos. No entanto, a possibilidade de o próprio Vargas sair candidato e ganhar as eleições foi inaceitável para membros das Forças Armadas.

    Presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, e presidente do Brasil, Getúlio Vargas, durante inspeção das Forças Armadas brasileiras, em 1º de fevereiro de 1943
    © AP Photo / Exército dos EUA
    Presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, e presidente do Brasil, Getúlio Vargas, durante inspeção das Forças Armadas brasileiras, em 1º de fevereiro de 1943

    Em outubro de 1945, o então ministro da Guerra, general Góis Monteiro, mobiliza tropas no Rio de Janeiro e pede a deposição do presidente. Vargas assina um documento de renúncia e se retira para a sua cidade natal, em São Borja, no Rio Grande do Sul.

    Portanto, "a luta contra o nazifascismo põe em cheque a ditadura no país e permite a mobilização das oposições que efetivamente vão acabar com o regime", acredita Bonciani.

    Nada de novo no front

    Apesar da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial ter "fortalecido o papel das Forças Armadas", Bonciani lembra que intervenções militares como a que destituíram Getúlio Vargas "são uma constante na história republicana brasileira".

    "Diversas ações militares tiveram sucesso na história do Brasil: a proclamação da República, em 1889, foi feita a partir de um golpe militar. A Revolução de 1930 também foi um golpe militar, assim como a destituição de Getúlio no final do Estado Novo, em 1945", enumerou.

    Getúlio Vargas assina decreto nomeando seu gabinete de ministros, após assumir o poder, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1930
    © AP Photo /
    Getúlio Vargas assina decreto nomeando seu gabinete de ministros, após assumir o poder, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1930

    No entanto, "no fim da Segunda Guerra [Mundial], esse poder das Forças Armadas será dotado de novos significados [...] uma vez que membros do mais alto escalão militar irão fazer o alinhamento com a grande e nova potência do ocidente, que é os EUA", disse. 

    As Forças Armadas, aliadas dos EUA na Segunda Guerra Mundial, "recebem financiamento, treinamento e se aproximam dos interesses norte-americanos", disse, lembrando que "mesmo o embaixador dos EUA no Brasil mantinha oposição absoluta à continuidade de Getúlio" no poder.

    Presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, e presidente do Brasil, Getúlio Vargas, em carreata no Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1936
    © AP Photo /
    Presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, e presidente do Brasil, Getúlio Vargas, em carreata no Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1936

    Nas eleições de 1945, "os dois candidatos eram militares, o brigadeiro Eduardo Gomes, com apoio principalmente da União Democrática Nacional (UDN), e o marechal Eurico Gaspar Dutra, com apoio do Partido Social Democrático (PSD)", que sairia vitorioso.

    No entanto, a ida de Getúlio Vargas a São Borja não foi uma derrota, mas, sim, um recuo estratégico, como se diz em termos militares. Em 1950, Vargas se elege para mais um mandato que terminará de forma trágica, com seu suicídio em 1954.

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    Tags:
    Brasil, EUA, Estado Novo, Getúlio Vargas, Segunda Guerra Mundial
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