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O agronegócio brasileiro pode aproveitar 'vazio' deixado por Rússia e Ucrânia?

© Folhapress / Dirceu Portugal /FotoarenaProdutores rurais em Campo Mourão, no Paraná, em colheita de soja, no dia 15 de fevereiro de 2022.
Produtores rurais em Campo Mourão, no Paraná, em colheita de soja, no dia 15 de fevereiro de 2022. - Sputnik Brasil, 1920, 05.04.2022
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Brasil e Rússia têm similaridades que podem ser exploradas pelo país sul-americano, mas especialistas alertam sobre obstáculos logísticos e climáticos em meio ao aumento da demanda global por commodities.
As sanções econômicas do Ocidente contra a Rússia têm provocado um efeito cascata sobre diversos setores globais. Além do ramo energético, com bloqueios sobre o petróleo e o gás russos, um dos mais atingidos pelas medidas é o agronegócio.
A Rússia é grande produtora e fornecedora de alimentos, principalmente às nações da União Europeia. Com as restrições impostas a Moscou em virtude do conflito na Ucrânia, os países passaram a buscar alternativas.
O Brasil se declarou neutro no âmbito do conflito ucraniano, mas não pode se dar ao luxo de não aproveitar oportunidades econômicas que surjam.
Mas o país pode suprir eventuais demandas por commodities, como soja e milho? Se elevar suas exportações, o mercado interno corre o risco de ficar desabastecido? Qual é a melhor estratégia para impulsionar o agronegócio nacional sem prejudicar a população?
Segundo Marcos Barbieri, economista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), embora Rússia e Brasil tenham semelhanças na exportação de commodities, nem tudo pode ser suprido pelo Brasil.

"O Brasil é grande e importante fornecedor de alimentos, commodities e minerais. Apresentamos algumas similaridades em âmbito mundial. Entretanto, dada a posição geográfica, apenas uma parte do que o país produz pode ser contemplada", afirmou Barbieri à Sputnik Brasil.

© AP Photo / Andre PennerColheita de soja no Brasil.
Colheita de safra de soja no Brasil (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 05.04.2022
Colheita de soja no Brasil.
Márcio Sette Fortes, diretor técnico da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), aponta que o país dispõe de algumas vantagens para ocupar o vazio deixado por Rússia e Ucrânia como produtoras de commodities, mas também faz ressalvas.

"Como concorrente no mercado de milho, o Brasil tem que observar que houve quebra da segunda safra de 2021 e da primeira de 2022 devido à seca na região Sul. Isso contribuiu para elevar preços e produzir efeitos na cadeia de proteínas animais. Tivemos contração da produção", lembrou.

Segundo Fortes, diante da alta dos preços internacionais, haverá estímulo para aumentar a área de produção no país com o objetivo de atingir novos mercados.
Ele explica que é preciso avaliar cada caso. No mercado mundial de carne, o Brasil tem a oportunidade de impulsionar suas exportações de frango, podendo ampliar a participação em mercados deixados pela Ucrânia.
© Folhapress / FotoarenaMáquina agrícola aplica fungicida em plantação de trigo em propriedade rural em Campo Mourão, Paraná.
Máquina agrícola aplica fungicida em plantação de trigo em propriedade rural em Campo Mourão (PR) - Sputnik Brasil, 1920, 05.04.2022
Máquina agrícola aplica fungicida em plantação de trigo em propriedade rural em Campo Mourão, Paraná.
Com relação ao trigo, há a necessidade de elevar a produção para suprir uma carência interna, diante da redução do fornecimento, já que o país não é autossuficiente no segmento.

"Quanto ao açúcar, é preciso considerar que a mistura do etanol com a gasolina tende a ser paliativo para relativizar o aumento de preços. Isso pode levar usinas a serem orientadas a elevar a produção de etanol, o que reduz a disponibilidade do açúcar brasileiro para o mercado internacional", ressaltou Fortes.

Outra preocupação gira em torno da escassez de fertilizantes, já que nesse segmento o país importa cerca de 85% do que consome. Além disso, Rússia e Belarus respondem por 30,5% das exportações de fertilizantes potássicos, e o Brasil é o maior importador do produto e principal parceiro dos países.
Conforme noticiou o jornal O Estado de S. Paulo, o governo brasileiro mira alternativas em outros mercados, buscando acordos com Canadá e Irã.

"A falta de fertilizantes poderia gerar redução da produtividade no agronegócio, impactando nossa oferta. Para compensar, o aumento de área plantada seria a solução", indicou o diretor técnico da Sociedade Nacional de Agricultura.

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Mais inflação à vista?

O Brasil sentirá um "duplo impacto" na inflação, segundo o economista Marcos Barbieri, da Unicamp. Ele afirma que além do encarecimento dos produtos importados, os alimentos do mercado nacional serão "reprecificados" devido ao aumento da demanda mundial.

"Se tem demanda maior no mercado internacional, aumenta o preço. Se não houver nenhum controle interno, os produtos vão encarecer e os brasileiros passarão a consumir menos", alertou.

Márcio Fortes, da SNA, reforça que a alta da inflação no agronegócio já vem sendo marcada por fatores climáticos — recentemente com severas secas no sul do país e chuvas no Nordeste e no Sudeste, além de geadas em 2021 que afetaram lavouras.
Segundo ele, a alta dos preços pode chegar aos consumidores de forma direta ou indireta, pois a escassez também afeta a cadeia de proteínas animais que precisam de commodities, como soja e milho para rações.
Há seis meses a inflação do país está na casa dos 10%.
Em fevereiro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) atingiu 10,54% no acumulado de 12 meses, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2021, a inflação ficou em 10,06%.

"O conflito traz a socialização de perdas, na forma da importação da inflação", afirmou Fortes.

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