Brasil 'não tem nada a ver' com OTAN: especialista descarta 'posição privilegiada' diante do bloco

© AP Photo / Eraldo PeresO presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em frente a uma bandeira dos EUA durante entrevista coletiva com o conselheiro de segurança nacional dos EUA, Robert O'Brien, no Palácio do Itamaraty em Brasília, Brasil, 20 de outubro de 2020
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em frente a uma bandeira dos EUA durante entrevista coletiva com o conselheiro de segurança nacional dos EUA, Robert O'Brien, no Palácio do Itamaraty em Brasília, Brasil, 20 de outubro de 2020 - Sputnik Brasil, 1920, 10.02.2022
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Diante das tensões na Europa em face à crise geopolítica envolvendo Rússia e Ucrânia agravada pela intervenção dos EUA através da OTAN, o anúncio de uma viagem do presidente Jair Bolsonaro à Rússia seria um erro estratégico? Para entender esta e outras questões de política internacional, a Sputnik Brasil conversou com o professor Paulo Wrobel.
Desde a Segunda Guerra mundial, a comunidade internacional está em intensa movimentação geopolítica. O conflito marcou mudanças importantes na maneira como os países se relacionavam e determinou os fundamentos dessa dinâmica internacional.
Com a criação de diversos organismos internacionais que ambicionavam saídas diplomáticas para evitar o horror da guerra, como a Organização das Nações Unidas (ONU), o mundo se reorganizou, entretanto não excluiu os conflitos de seu cenário. O período conhecido como Guerra Fria (desde a Doutrina Truman, em 1947, até a dissolução da União Soviética, em 1991) determinou a forma do mundo como o conhecemos hoje.
O livro "A ascensão do 'resto'", de Alice H. Amsden, lembrado pelo professor de Relações Internacionais da Puc Rio de Janeiro, especialista em BRICS, Paulo Wrobel em conversa com a Sputnik Brasil, parece resumir bem o momento complexo que vivemos hoje.
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'Redescobrindo' as Américas

Em seu plano de ascensão global, a China tem contemplado parcerias diversas, especialmente com países cujas economias estejam experimentando períodos de instabilidade.
De forma pragmática, os recursos chineses financiam investimentos em troca de abastecer seu mercado interno de alimentos, insumos e, é claro, influência.
A recente adesão da Argentina à Nova Rota da Seda chinesa, um programa de investimento chinês, é um exemplo claro de sua estratégia comercial global.
"Implementado pela China em 2017, este cinturão, que pretende retomar a história chinesa, cada vez mais procura incluir o maior número de países – inclusive alguns da América Latina que já tem algum projeto com a China – fundamentalmente os países asiáticos, alguns países africanos e europeus", disse o professor Wrobel.
Para o professor, no entanto, a não inclusão do Brasil no projeto não quer dizer que o Brasil esteja descartado das relações de parceria que já existem entre os dois países desde 2010.
"O Brasil é um país grande e se distingue na América Latina pelo tamanho de seu território, de sua população, então não é propriamente incluído como membro oficial desse programa de investimento e influência chinesa, mas a presença chinesa no Brasil já tem 12 anos e é muito grande", pontuou.
Maior parceiro comercial do Brasil, a China, só no ano passado, absorveu cerca de um terço de toda a exportação brasileira, além de ser membro do BRICS (sigla em inglês para o grupo de países composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).
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O clássico Brasil vs. Argentina

Com o recente aceno feito pelo presidente argentino, Alberto Fernández, para Vladmir Putin sobre aderir ao BRICS e a atual situação político-econômica vivida pelo país vizinho, antigo rival no futebol, Wrobel não manifestou preocupações.
"O BRICS não é uma concertação internacional, não é um grupo que tenha objetivos comuns claros, então uma possível entrada argentina não significaria grande mudança. A Argentina já foi muito poderosa, economicamente relevante, politicamente, hoje não", afirmou.
A Argentina de Fernández enfrenta uma série de problemas políticos e econômicos. Com uma dívida recém-negociada com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o país detém uma taxa de inflação anual na casa de 50%, o que o deixa em uma situação muito vulnerável interna e externamente.
Para o professor, este "é um dos casos periódicos que a América Latina tem de crise econômica, talvez [a Argentina] seja a economia mais fragilizada da América Latina com exceção da Venezuela e, até certo ponto, de Cuba".
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'O Mercosul é um cadáver'

Fruto da reaproximação de Brasil e Argentina no início dos anos 1990, quando ambos os países haviam retomado seus governos civis, inspirados no sucesso de projetos de integração regional como a União Europeia (UE), o Mercosul acontece diante da adesão de Uruguai e Paraguai com a ambição de ser um projeto de zona de livre comércio e, quem sabe, um bloco político. Mas não foi o que aconteceu.
"Brasil e Argentina tinham um comércio bilateral ínfimo, praticamente inexistente, antes do Mercosul, então os primeiros anos do grupo foram muito importantes para criar essa dinâmica bilateral comercial e uma certa integração econômica de investimento", disse Wrobel.
Com as economias em diferentes estágios, após períodos de inflação e desorganização econômica, os países que integram o Mercosul também passaram, e ainda passam, por alguma instabilidade política.
"Atualmente, por exemplo, Brasil e Argentina estão em dois polos opostos politicamente. A Argentina é dirigida [novamente] pela ex-presidente, e atual vice, Cristina Kirchner e por Alberto Fernández, um presidente próximo ao peronismo antigo. Enquanto no Brasil temos um presidente completamente oposto a esses ideais."
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O professor destaca que atualmente os maiores aliados da Argentina são Venezuela e Cuba, enquanto os principais aliados do Brasil, na América do Sul, eram o Chile e o Peru, que com as recentes mudanças de orientação política deixaram de ser, restando basicamente Uruguai e Equador.
O bloco sul-americano vem perdendo gradativamente qualquer possibilidade de se sustentar enquanto bloco no momento, especialmente neste momento em que as relações comerciais entre seus principais líderes se encontram estagnadas. Segundo o professor, "não há como tirar o Mercosul desta fase terminal".
"O Mercosul foi deturpado. Ele foi um acordo de livre comércio ambicioso, fundamentalmente inspirado na UE, mas Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai não têm condição nenhuma, maturidade política ou estrutura econômica para entrar em um projeto como a UE. Nenhuma outra parte do mundo tem. Confesso que a melhor imagem para o Mercosul é a de um cadáver", afirmou Wrobel.
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B e R de BRICS

Brasil e Rússia são parceiros comerciais e isto é um fato. Desde a criação do BRICS houve uma aproximação de parte de suas agendas, especialmente na área de segurança. Logo, viagens entre os países têm sido uma prática e são normais dentro da dinâmica entre eles.
Vista como controversa por críticos brasileiros e norte-americanos, a ida do presidente Bolsonaro até Moscou parece acontecer em um timing bastante inoportuno, mas para Wrobel não significa nem uma afronta aos EUA, nem um risco para o Brasil.
"O presidente resolveu manter a visita a Moscou, embora o momento seja de instabilidade política, porque o Brasil está longe, está fora desse processo. Aqui nas Américas podemos acompanhar e nos solidarizar com um ou com outro, mas estamos fora, nossa dinâmica é diferente," explicou ele.
O orçamento do Brasil para Defesa, que embora venha crescendo nos últimos anos, ainda parece pequeno diante dos desafios que encontramos e, em grande parte, a visita de Bolsonaro tem relação com investimentos na área.
Para Wrobel, os desafios de defesa brasileiros se devem à falta de recursos, e ele explica que "somos um país com dez vizinhos, imensa fronteira terrestre, problemas seríssimos com o tráfico de drogas, temos problemas de segurança terríveis".
"Todos os nossos projetos mais ambiciosos de produção armamentista – domésticos ou de importação – são sempre muito polêmicos e muito difíceis, por falta de recursos e por não serem entendidos pela sociedade brasileira como prioridade, porque, embora tenhamos desafios, somos um país relativamente pacífico", observou.
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Brasil, OTAN e mundo

Em entrevista ao Valor Econômico, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, se manifestou a respeito de uma posição privilegiada que o Brasil tem diante da OTAN, que é "aliado preferencial extra-OTAN", um nome dado aos países não membros que têm, dentre outras coisas, acesso privilegiado na compra de equipamento militar americano.
Para Mourão, há chances dessa posição ser um entrave diante de alguma possibilidade de negociação com o Kremlin caso o país quisesse fazer algum negócio, hipótese negada por Wrobel.
"Essas denominações 'membro não pleno' ou 'membro não associado' é meramente simbólica, é 'papo'. O Brasil não tem nada a ver com a OTAN simplesmente por estar no Atlântico Sul. O que existe é uma certa padronização de armamentos que fazem com que o Brasil possa entrar em concorrência para vender material militar junto aos países membros", afirmou o professor, que concluiu dizendo que "fizemos um esforço muito grande para nos adequar às regras para fornecimento de material militar. Mas o Brasil é independente neste sentido".
O professor aproveitou para destacar que estamos vivendo um momento de redefinição internacional em que "as peças do tabuleiro internacional estão se movendo" diante dos desafios que se apresentam, desafios estes de grande complexidade.
Para ele, aqueles que ficaram de fora do centro das negociações globais agora surgem diante de um cenário completamente diferente do pós-Guerra Fria. A própria criação do BRICS em 2010, para o professor "é fruto disso. Essa expressão de que eu gosto, 'a ascensão do resto do mundo', é prova de que vivemos um momento diferente" para a política internacional.
Por pelo menos 500 anos o mundo esteve sob domínio da Europa, que foi sucedida pelos EUA, que não estão mais sozinhos como única potência mundial. Para o professor, o Brasil tem um certo privilégio por estar onde está.
"A complexidade do mundo hoje é imensa e entendo que a pandemia agravou tudo isso. Aqui na América do Sul estamos um pouco de fora deste processo, até por razões geográficas. Seremos a última parte do mundo a ser integrada nesse processo", concluiu.
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