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É possível ver nas eleições na Argentina um presidenciável 'muito próximo ao Brasil', diz professora

© REUTERS / MARIANA NEDELCUPresidente argentino, Alberto Fernández, discursa durante o Dia dos Direitos Humanos, Buenos Aires, 10 de dezembro de 2021
Presidente argentino, Alberto Fernández, discursa durante o Dia dos Direitos Humanos, Buenos Aires, 10 de dezembro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 03.02.2022
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Enquanto a Argentina está vivenciando atualmente a recessão da economia, a Sputnik Brasil discutiu com uma especialista se a recuperação é previsível e quais são as consequências políticas da crise.
Há 20 anos, a nação argentina viveu uma das suas piores crises econômicas na história do país. A população ainda lembra esses tempos, participando no final do ano passado em manifestações pacíficas para homenagear as vítimas desses momentos miseráveis.
Contudo, após duas décadas, a Argentina mergulhou novamente na crise econômica: atualmente o país registra uma inflação anual de mais de 50% e a desvalorização da moeda nacional, o que se reflete no poder de compra da população e gera desemprego e crescimento da pobreza. Por conta dessa recessão, o país está atravessando outra grande onda migratória, um fenômeno que boa parte da imprensa local vem chamando de "êxodo".
A Sputnik Brasil entrevistou Regiane Nitsch Bressan, especialista em integração da América Latina, professora de Integração Regional e Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e coordenadora do Observatório de Regionalismo, que avaliou a crise econômica atual na Argentina e compartilhou sua opinião a respeito de retomada da economia argentina.

Ecos do passado

A especialista acredita que a Argentina ainda não se recuperou daquela crise de 2001: com a retirada da paridade do peso argentino e do dólar americano o país entrou em uma crise econômica, e essa crise de fato "perdura até os dias atuais".
Desde o "corralito" no ano de 2001, quando se interrompeu a retirada dos depósitos em contas correntes dos argentinos, foi inibida a transferência de moeda para o exterior e a realização de câmbio por dólar, a Argentina não se recuperou mais. Até porque houve o congelamento de depósitos dos poupadores, como no Brasil no início dos anos 90.
Presidente argentino Alberto Ángel Fernández (à esquerda) e o presidente russo Vladimir Putin (à direita) - Sputnik Brasil, 1920, 03.02.2022
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Com isso, a economia argentina se estagnou, não foi possível realizar grandes investimentos no país e até hoje o peso, a moeda do país, permanece muito desvalorizado.
"Difícil dizer se essa crise atual é pior do que a crise de 2001, até porque eu vejo como uma consequência, algo cadente que o país ainda não se recuperou daquele momento."

Como nos anos 80

Avaliando os índices que apontam a fome, desemprego e pobreza no país, a professora relembra que nos anos 80 a América Latina vivencia uma crise social e econômica muito forte, quando a economia da região ficou totalmente estagnada e foram atingidos altos níveis de pobreza, violência e desigualdade.
Por essa razão, a região estava muito aberta para inserção no mercado global: quando o sistema de substituição de importações colocado pela CEPAL se estagnou, os países latino-americanos adentraram a onda de globalização e também acabaram endossando o Consenso de Washington com medidas econômicas liberalizantes, comentou Regiane Nitsch Bressan.
No começo deste século, houve um momento de prosperidade em relação à exportação de produtos primários. Assim, a Argentina, sendo um país fornecedor de matéria-prima e que tem "uma industrialização incipiente e bastante tímida", conseguiu se recuperar de alguma forma e obter ganhos com o aumento dos preços das commodities.
Porém, destaca a especialista, com um cenário internacional desfavorável, a Argentina novamente encontra-se numa situação de crise, e a pandemia acaba afetando esses termos de fome, desemprego e pobreza.

Fuga de mão de obra

Quanto à migração crescente da Argentina registrada ultimamente, a professora vê isso como um fato bem comum: claramente, uma situação econômica difícil gera o crescimento nos movimentos migratórios e, de acordo com ela, é um dos momentos quando essa onda migratória "fica mais acirrada" no país.
No contexto atual, os argentinos procuram países em que vão obter melhor condição de vida, migrando, pelos dados da professora, para Chile, Brasil, Uruguai, alguns tentando ainda entrar nos países desenvolvidos como Espanha, Itália e os Estados Unidos.
O problema é que há uma tendência de saída de pessoas jovens e qualificadas, o que obviamente significa um peso para o país, dado que são as pessoas que poderiam contribuir para o próprio desenvolvimento da nação.
"Infelizmente, isso é muito comum em países em desenvolvimento, isso também acontece no Brasil, acontece na Índia, Colômbia, em países que conseguem de alguma forma preparar uma mão de obra, mas em momentos de crise existe a chamada 'fuga de cérebros'", constata a interlocutora.

Dívidas antigas

A especialista lamenta que não há uma previsão de recuperação para o país. A Argentina acabou por assinar um acordo com o FMI que amortiza de alguma forma "a dívida fraudulenta". Fraudulenta, explica ela, porque é uma dívida que foi feita pelo ex-presidente Mauricio Macri, em relação ao FMI, para tentar amenizar a situação dura e crítica da economia, e que não foi um empréstimo que colaborasse diretamente para o desenvolvimento e industrialização do país.
© REUTERS / AGUSTIN MARCARIANProtestos contra negociações da Argentina com FMI, em Buenos Aires, 27 de janeiro de 2022
Protestos contra negociações da Argentina com FMI, em Buenos Aires, 27 de janeiro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 03.02.2022
Protestos contra negociações da Argentina com FMI, em Buenos Aires, 27 de janeiro de 2022
Esse tipo de crédito, violando inclusive as normas do próprio FMI, acabou por financiar de certa forma a fuga de capitais e não contribuiu para empreendimentos produtivos no país.
Atualmente, o governo de Alberto Fernández acaba de acordar que essa dívida jogue para 2025 a carga de US$ 45,5 bilhões (R$ 239,4 bilhões). Assim, essa dívida vai reaparecer em 2025 e o país talvez não tenha condições de reiniciar o pagamento, na opinião da especialista.
"É muito ruim para o país como um todo e para a sociedade", resumiu ela.

Reflexo de uma onda latino-americana?

Toda essa situação lamentável gera grande descontentamento da população, e nós estamos vendo na Argentina a emergência de lideranças que remetem a valores e símbolos difundidos pelos governos bastante conservadores, governos que rompem com democracia e instituições democráticas para atraírem uma parcela da população que está muito descontente, afirma a especialista.
© AP Photo / Natacha PisarenkoCandidato a deputado pela prefeitura de Buenos Aires Javier Milei na véspera das eleições legislativas na capital argentina, 13 de outubro de 2021
Candidato a deputado pela prefeitura de Buenos Aires Javier Milei na véspera das eleições legislativas na capital argentina, 13 de outubro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 03.02.2022
Candidato a deputado pela prefeitura de Buenos Aires Javier Milei na véspera das eleições legislativas na capital argentina, 13 de outubro de 2021
A Argentina está afetada por essa onda de conservadorismo, do ponto de vista dela, com a ascensão de Javier Milei, que evoca justamente esses valores ligados à família, a Deus e a crenças conservadoras.
"Então, é possível que nós tenhamos nas próximas eleições a emergência de uma figura presidencial muito próxima ao Brasil, dado que a população da Argentina está muito descontente a respeito da mudança de governo e de política ideológica que o país já viveu nessa última década."
O país tinha Macri, um governo mais à direita, e agora Fernández, ligado à família Kirchner à esquerda, e "nenhum deles, evidentemente, conseguiu resolver e sanar a situação econômica tão difícil na Argentina", concluiu.
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