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Por que o Brasil abre escritório na embaixada em Washington e não em Pequim? Analista responde

© AFP 2023 / MANDEL NGANPresidente do Brasil, Jair Bolsonaro, discursa durante uma discussão sobre relações EUA-Brasil na Câmara do Comércio americana em Washington, 18 de março de 2019
Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, discursa durante uma discussão sobre relações EUA-Brasil na Câmara do Comércio americana em Washington, 18 de março de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 02.02.2022
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Em decorrência da instalação de uma representação da Economia na Embaixada do Brasil nos EUA, a Sputnik Brasil teve uma entrevista com um cientista político para saber o que está por trás da implementação da entidade em Washington.
Em 26 de janeiro, o presidente Jair Bolsonaro decretou a criação de um escritório do Ministério da Economia na embaixada brasileira em Washington. O decreto foi também assinado pelo ministro Paulo Guedes e pelo embaixador Carlos Alberto Franco França.
Como esse passo caracteriza as relações entre os Estados Unidos e o Brasil? Poderá o novo escritório trazer investimentos para o país? Estes e muitos outros aspectos foram questionados pela Sputnik Brasil em entrevista com Pedro Costa Júnior, cientista político, professor de Relações Internacionais da FACAMP (Faculdades de Campinas), especialista em política externa dos EUA e autor do livro "Colapso ou Mito do Colapso?".

Descentralização da diplomacia

Primeiramente, Pedro Costa destaca que a iniciativa da criação do escritório vem do próprio Ministério da Economia, sendo uma tentativa "de certa maneira driblar o Itamaraty" e negociar diretamente com os Estados Unidos. Em termos mais gerais, a medida confirma um fenômeno da diplomacia decentralizada, nos termos do professor, que se tornou muito comum no país a partir dos anos 90 e que vai se tornar "cada vez mais inexorável".
Conforme ele explica, com a chamada onda de globalização, com mais frequência começam a ser construídas medidas diplomáticas de natureza mais "pulverizada", ligadas à para-diplomacia com organizações transnacionais, de setores privados ou públicos que não têm ligações diretamente ao Itamaraty ou ao governo federal e desenvolvem relações diretas com outras nações.
A pandemia também incentivou o processo de uma maneira forte, que se reflete, por exemplo, em negociações sobre as entregas de vacinas.

"Então, é uma medida que pode levantar uma certa polêmica porque o Itamaraty em seus bastidores não gostou da medida, que causa estranheza à diplomacia mais tradicional", pondera o analista.

Motivos para abertura

Teoreticamente, a ideia principal é que essa iniciativa governamental atraia investimentos para o Brasil. Contudo, do ponto de vista do professor, ainda é cedo demais para dizer se a nova estrutura será capaz de alcançar o objetivo estabelecido.
Na opinião de Pedro Costa, quase quatro anos de governo Bolsonaro deixaram claro que a transparência não é um ponto forte dele.
O documento oficial que justifica a abertura desse escritório, segundo o professor, está "pautado em uma série de medidas delirantes de Paulo Guedes que o Brasil já teria tomado e que o Brasil está muito longe de ter alcançado", como o combate à corrupção brutal, uma redução da burocratização do Estado e o aumento do investimento direto. Mas "é uma realidade paralela", afirmou.

Funcionamento da futura estrutura

Em teoria, o escritório será subordinado "administrativamente" à embaixada, mas tecnicamente será responsável o Ministério da Economia. O interlocutor vê nesta situação "uma espécie de geringonça brasileira", porque os funcionários estarão na embaixada em Washington, mas vão responder diretamente perante o ministro Paulo Guedes e seu ministério, passando, ao mesmo tempo, a dar satisfações ao Ministério das Relações Exteriores.
Ministro da Economia, Paulo Guedes, durante cerimônia de Lançamento de Autorizações Ferroviárias, no Palácio do Planalto, em 2 de setembro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 01.02.2022
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No que diz respeito ao chefe do escritório, o nome do secretário cotado é Carlos da Costa, "um dos homens de Paulo Guedes", que é funcionário do Ministério da Economia. No contexto do Brasil passando pela crise mais acentuada desde a redemocratização, sob gestão "de ineficácia incontestável" do atual ministro da Economia, o cientista entrevistado não espera muito da nova estrutura.
Do ponto de vista de ganhos e custos da medida, ele também acha preocupante o nível de eficácia desse gabinete. Pelos cálculos dele, o escritório vai "custar muito aos cofres brasileiros" porque o secretário vai ter o salário do mesmo nível de um ministro, cerca de 27 mil reais, e o subordinado dele vai ter o de vice-ministro, que é cerca de 25 mil reais ou um pouco mais.
Adicionalmente, em vista à perspectiva de crescimento do PIB do Brasil neste ano ser próxima a zero, segundo o Fundo Monetário Internacional, e considerando a falta de credibilidade internacional do Ministério da Economia do Brasil e da figura presidencial, "dificilmente ele vai ter sucesso em ser eficaz na atração de investimentos", resumiu.

Por que EUA e não China?

Entre múltiplos aspectos curiosos desse passo do governo Bolsonaro, Pedro Costa ressalta que há uma série de questões geopolíticas que transcendem as questões geoeconômicas da abertura do escritório.
O que deve ser uma reflexão central, opina ele, é por que o Brasil decide abrir o escritório mesmo nos Estados Unidos antes de abri-lo na China, o maior parceiro e cliente comercial brasileiro, enquanto os EUA estão no segundo lugar e longe da China. Chama também atenção o fato de Paulo Guedes ser um dos ministros que nunca visitou o Estado chinês.
© AP Photo / Bruna PradoManifestante com cartaz durante protesto contra o presidente Jair Bolsonaro em Rio de Janeiro, 2 de outubro de 2021
Manifestante com cartaz durante protesto contra o presidente Jair Bolsonaro em Rio de Janeiro, 2 de outubro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 02.02.2022
Manifestante com cartaz durante protesto contra o presidente Jair Bolsonaro em Rio de Janeiro, 2 de outubro de 2021
Também é curioso abrir esse gabinete no ano eleitoral e, ao mesmo tempo, em meio à disputa do 5G entre Washington e Pequim, acrescentou ele.
Há um interesse na contenção do avanço da China na região, sugere o professor uma das explicações da medida. É preciso ter o Brasil muito alinhado com os Estados Unidos porque, do ponto de vista geopolítico, a grande questão é que o Brasil representa metade da população, da economia e do território da América do Sul.

"A influência natural do país na América do Sul é gigantesca. Embora a China hoje seja a principal parceira do Brasil na região, e dos demais países sul-americanos, ainda a grande influência política e sobretudo cultural no Brasil e na região são os Estados Unidos. [Que inclui] o grande diálogo com elites locais, com os grupos de interesses dominantes. E a abertura desse escritório expressa isso", afirma, acrescentando que "nas relações internacionais, as coisas não acontecem por acaso".

Perspectivas do impacto econômico

Nas avaliações do professor, a implementação dessa nova estrutura terá finalmente pouco impacto na economia brasileira. Embora na fachada das motivações de abertura desse escritório haja atração de novos investimentos, "ele não vai ter essa força, nem essa eficácia e nem essa competência", pelo menos no primeiro ano, acredita.
"Não é condenável a abertura dele por si só, quer dizer, ele faz parte de um movimento de formar novos canais diplomáticos a partir de uma nova diplomacia."
Se tivesse muito sucesso, esse escritório poderia trazer investimento a um setor ligado ao mercado financeiro ou ao alto agronegócio, mas vai depender dos lobbies com que ele vai trabalhar.
É preciso olhar com bastante atenção para a atuação política que a estrutura vai ter, "mais uma vez concorrendo concomitante a troca da embaixadora aqui no Brasil por uma embaixadora muito experiente e próxima a John Kerry, o enviado especial para o clima do governo americano, e um giro para Joe Biden, que nunca teve esse ministério na história dos EUA", constata Pedro Costa.
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