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Por que Brasil está na vanguarda no sistema bancário em comparação com Europa? Entenda

© Folhapress / Adriana Toffetti/A7 PressCartões de crédito de diversos bancos e bandeiras
Cartões de crédito de diversos bancos e bandeiras - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
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Em decorrência do rápido crescimento das contas digitais no Brasil registrado nos últimos anos, a Sputnik explica os principais fatores contribuintes a esse processo, em comparação com o avanço no sistema bancário europeu.
Existe uma impressão de que a Europa é mais avançada por ser "primeiro mundo", mas se o assunto é Internet banking, os brasileiros que moram nessa região costumam se surpreender com a modernidade do Brasil no setor. No período entre 2018 e 2020, as contas exclusivamente digitais tiveram um crescimento de 73% no país.
Para compreender a que se deve este elevado crescimento das contas bancárias brasileiras e como se segue a digitalização bancária no país, a Sputnik Brasil entrevistou Carlos Goettenauer, dr. em Direito pela UNB (Universidade de Brasília), mestrando na London School of Economics, e pesquisador em regulação de sistema financeiro.

Três motivos principais para digitalização bancária

Segundo o pesquisador, o fato de que as contas digitais no Brasil cresceram no período referido em ritmo acelerado pode ser atribuído a três fatores principais. Primeiramente, à difusão dos aparelhos celulares no país no último tempo, que popularizou o acesso à Internet de maneira definitiva.
O sistema bancário brasileiro já há tempo tinha um volume muito grande de operações em meio eletrônico, no entanto, nos últimos anos, o que nós vimos é que essas operações migraram do uso de Internet banking para aparelhos celulares, ressalta o especialista. Esse processo é acompanhado também por uma convergência digital no uso de meios de pagamento nos aparelhos celulares: agora todos os aplicativos e serviços de pagamento funcionam no mesmo aparelho celular.

Outro motivo desse crescimento que não pode ser ignorado é o efeito da pandemia, "que acelerou ainda mais o uso de operações bancárias em meio eletrônico como um todo e não só no sistema financeiro".

Por fim, o terceiro fator, sendo um dos mais importantes, é que nos últimos cinco anos o Banco Central do Brasil vem alterando as normas relacionadas à abertura e à manutenção de tais contas, flexibilizando os requisitos e tornando-se mais receptivo à abertura de contas digitais, esclarece o doutorando.
© Folhapress / Fatopress / Edu AndradeEm Brasília, uma imagem da fachada do Banco Central em 18 de janeiro de 2021
Em Brasília, uma imagem da fachada do Banco Central em 18 de janeiro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
Em Brasília, uma imagem da fachada do Banco Central em 18 de janeiro de 2021

Brasil na vanguarda no uso de tecnologias digitais?

"O Brasil está na vanguarda no uso de meios digitais de pagamento e na realização de transações bancárias em meio eletrônico", afirma o doutorando.

Já no final dos anos 70 e no início dos 80, a reserva de mercado forçou os bancos a investirem nos setores de tecnologia. Na época, era praticamente impossível, conforme relembra Carlos Goettenauer, importar computadores, e isso fez com que os bancos investissem diretamente em tecnologia. Desde então, o processo de investimento em tecnologia foi gradual, mas sempre constante.
Mas cada país tem suas particularidades, de forma que seria possível indicar outros mercados em que há forte digitalização das operações bancárias. A China, certamente, também merece destaque, onde o uso de meios eletrônicos de pagamento é muito difundido. 95% da população chinesa, segundo os dados do especialista, operam com a plataforma de pagamentos Alibaba.
Um dos grandes desafios que o Brasil está superando é alcançar um nível de bancarização mais amplo na população e equilibrar essa difusão das ferramentas com o acesso ao crédito de forma democrática e mais segura. Os números mostram que o Brasil tem um pouco mais de 50% da população bancarizada, e ainda possui altas taxas de inadimplência e altas taxas de juros.
Isso afasta a maior parte da população do crédito, criando "um entrave ao desenvolvimento do país".

Sistema financeiro europeu vs. brasileiro

Vale lembrar que o mercado bancário europeu ainda é "muito heterogêneo e difuso", se compararmos os dois sistemas. Embora existam o Banco Central Europeu e a Autoridade Bancária Europeia (EBA, na sigla em inglês) que regulamentam a política monetária no continente, a supervisão das instituições bancárias é de competência das autoridades de cada país, aponta o especialista.
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Isso torna mais difícil modificações de amplo alcance em toda a União Europeia. Porém, isso não significa que não existam iniciativas que promovam mudanças bancárias dentro da UE. Por exemplo, a Segunda Diretriz de Serviços de Pagamento (PSD2), de 2015, foi inovadora ao propor a interoperabilidade entre os arranjos de pagamento, mas ela precisa ser internalizada pelos Estados-membros. Ainda mais, a Europa tem trabalhado para criar uma União Bancária, que colocaria todas as instituições da União Europeia sob supervisão de uma autoridade única.
"Se você conseguir fazer isso, a implementação de mudanças regulatórias torna-se muito mais fácil e muito mais abrangente com seu alcance a território inteiro de uma vez só."

O novo fenômeno PIX

De acordo com os dados do Banco Central brasileiro, foi registrado o avanço de um novo Sistema de Pagamentos Instantâneos no Brasil, o PIX (na sigla em inglês). Mas para os países europeus essa tecnologia é ainda algo raro, onde certos bancos cobram taxas para que as transferências sejam na hora.
Mesmo que a explicação para o fato de que o Brasil está superando a Europa na sua implementação não seja fácil, o sistema PIX, na opinião do doutorando, é "um caso emblemático sobre como a implementação de mudanças estruturais depende muitas vezes de forte incentivo estatal".
É certo que o sistema bancário é um setor econômico altamente regulado, e tudo que acontece nele é "um reflexo direto da iniciativa da autoridade reguladora", nas palavras de Carlos Goettenauer.
O Banco Central do Brasil buscou por alguns anos a criação pelos agentes de mercado de um sistema de pagamentos instantâneos. Mas à medida que as instituições financeiras tinham interesses divergentes, mesmo considerando que no Brasil há cinco grandes bancos, essa solução não tomava forma. O Banco Central decidiu então ele mesmo implementar esse sistema de pagamentos, utilizando seu poder de autoridade reguladora para forçar as instituições a se integrarem ao PIX.
A diferença fundamental nesse cenário, assim, é que "no Brasil a gente tem uma autoridade central muito forte", ao contrário do caso europeu.

A que se deve o desuso do cheque no Brasil?

Em um mundo de criptomoedas, ainda é possível ver em alguns países, como na França, por exemplo, as pessoas pagando com cheque, uma cena espantosa para os brasileiros. Conforme o entrevistado, "cada sociedade usa os instrumentos de pagamento que são mais convenientes para ela". Então, não pode ser visto como um atraso propriamente dito.
Porém, a persistência do cheque pode indicar uma falta de iniciativa de implementação de meios de pagamentos eletrônicos tanto por parte dos agentes de mercado quanto do regulador.
No caso do Brasil, o cheque caiu em desuso principalmente a partir de 2010 devido a uma combinação de fatores. Ele foi substituído pelo cartão de crédito, de débito e outros meios de pagamentos instantâneos, que se tornaram mais seguros para o cliente e para os estabelecimentos comerciais e normalmente oferecidos sem custo para os usuários.
© AP Photo / John LocherPublicidade da rede 5G desenvolvida pela empresa Qualcomm dos EUA
Publicidade da rede 5G desenvolvida pela empresa Qualcomm dos EUA - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
Publicidade da rede 5G desenvolvida pela empresa Qualcomm dos EUA
Assim, entre os motivos-chave desta transferência podem ser mencionadas maior confiança do público nos meios digitais e maior disponibilidade, inclusive com relação ao custo.
No tocante às possíveis mudanças que o 5G pode trazer ao sistema bancário europeu, essas chegarão inquestionavelmente, acredita Carlos Goettenauer, mas é difícil dizer se em breve. Enquanto a UE e EBA têm feito empenhos nesse sentido, a pandemia da COVID-19 deu sua contribuição. Então, agora não é possível antecipar quando a tecnologia 5G trará transformações ao setor e justamente qual será o impacto.

Tendências que merecem nossa atenção

No Brasil o tema que vale a pena ser acompanhado é o Open Banking, que, segundo o doutorando, vai mudar a forma com que os clientes se relacionam com os bancos no geral. O sistema permite que você como cliente consiga encaminhar livremente seus dados financeiros de um banco para outro.
Globalmente, um tema que também merece atenção são as criptomoedas emitidas por bancos centrais, tais versões estatais das criptomoedas, assunto que cada vez mais ganha interesse do público. E mais um assunto que já está no cotidiano das pessoas e que se torna mais relevante são os bancos 100% digitais, alguns em modelo de plataforma.
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