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Por que Brasil teria 'mais ônus do que bônus' entrando na Nova Rota da Seda chinesa? Entenda

© AP Photo / Nicolas AsfouriPresidente chinês, Xi Jinping, durante banquete de boas-vindas para os líderes visitantes presentes no Fórum da Nova Rota da Seda em Pequim, 29 de abril de 2019
Presidente chinês, Xi Jinping, durante banquete de boas-vindas para os líderes visitantes presentes no Fórum da Nova Rota da Seda em Pequim, 29 de abril de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 17.11.2021
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A inciativa chinesa da chamada Nova Rota da Seda foi anunciada em 2013 e ainda permanece um ponto de interrogação entre o Brasil e a China. A Sputnik explica se existe realmente necessidade da adesão brasileira ao projeto.
O projeto conhecido como Rota da Seda Marítima do Século XXI foi firmado pelo presidente chinês Xi Jinping no ano de 2013, oferecendo investimentos a mais de 140 países, incluindo 19 Estados latino-americanos e do Caribe. Porém, desde o governo Dilma, esse projeto não entrou na agenda das relações sino-brasileiras.
Em vista disso, a Sputnik Brasil entrevistou Roberto Dumas, professor de economia chinesa no Insper, Instituto de Ensino e Pesquisa de São Paulo, para entender melhor se a perspectiva da adesão brasileira à Nova Rota da Seda da China seria promissora.

Estratégia do sharp power

A ideia do projeto surgiu na China depois da crise de 2008-2010 na Europa e visava "amalgamar" as relações comerciais entre vários países e a China, facilitar o comércio entre as nações, prejudicado por essa crise, através do desenvolvimento e melhoramento da infraestrutura.
Na sequência da crise faltou dinheiro, o déficit fiscal e a dívida pública em muitos países aumentaram, então os chineses decidiram fazer empréstimos e doações ou até mesmo investimentos em vários países. E para quê?
Conforme explica Roberto Dumas, o projeto é muito mais do que uma coisa econômica. Pelo lado geopolítico, por meio da Nova Rota a China está tentando exercer o chamado sharp power.
Enquanto o soft power é representado pelo Instituto Confúcio, o hard power não está disponível para a China, uma vez que os EUA têm presença militar na Ásia, incluindo na Coreia do Sul, no Japão, nas Filipinas e na Austrália, e continuam vendendo armas para lá, mas a China não pode obviamente colocar bases militares nem na América Latina nem na Europa.
Por isso, esclarece o professor, a China descobriu um meio-termo: melhorar a zona de influência investindo nos países ou emprestando recursos aos países para, de certa maneira, se tiverem que votar a favor ou contra o país na ONU, já existir uma predisposição a favor da China. É uma maneira de incitar a "subserviência dos países em relação à China", nas suas palavras.
"Pelo lado econômico, [o projeto] é maravilhoso. Achar que não é também uma maneira de exercer a influência da China seria uma ingenuidade."
No caso bastante improvável de uma guerra entre China e Taiwan, ou entre China e Japão, é bem possível que a China pegue no telefone, converse com um dos pontos de onde estão sendo feitos esses investimentos, e peça para algum desses países que evite que seja usado o espaço aéreo ou espaço marítimo pelas forças aliadas norte-americanas, ilustrou o economista.

'Não é hora de se meter' para o Brasil

No contexto das relações sino-brasileiras e da intensificação dos laços econômicos entre os países, o especialista não vê nenhuma necessidade da entrada do Brasil no acordo da Rota da Seda, ou memorandum of understanding (MoU, na sigla em inglês), como se chama. Segundo ele, ambas as economias já são absolutamente complementares, "as portas estão todas abertas", com chineses investindo pesadamente em infraestrutura brasileira.
Já que no relacionamento de investimento nada vai mudar, na opinião do analista, os investimentos continuam vindo, a entrada do Brasil no acordo seria uma provocação geopolítica desnecessária aos norte-americanos.
O Brasil tem investimentos chineses em telecomunicações, em carros, em energia hidrelétrica, energia eólica, em bancos, elenca o especialista, mas a adesão possível do país ao projeto seria um recado de certa maneira complicado para os EUA.
"Para quê assinar uma coisa onde eventualmente a postura do Brasil tem que ser a mais neutra possível nessa briga geopolítica entre China e Estados Unidos?", pergunta Roberto Dumas, qualificando esta também de "briga de cachorro grande", e acrescenta que não é hora de tomar posições para o Brasil.
"Que retorno adicional vou ter, em comparação com o risco? Nada."
Quanto à importância das telecomunicações na relação Brasil-China, no contexto do caso atual da tecnologia 5G que ganha avanço no Brasil, o professor insiste que "os países não têm amigos, têm interesse" nessa briga entre a China e os EUA.
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Além disso, ele aponta que a gigante Huawei já está no Brasil há 20-22 anos. "Quem tem que dizer se existe essa possibilidade de ela ser um 'cavalo de Troia' para espionar não é o presidente, é o Ministério das Comunicações. Todo o mundo espiona todo o mundo. Mas será que trazer o 5G, depois de eles estarem aqui há 20 anos, seria verdadeiramente um divisor de água e que finalmente vamos ter teleinformações?"

Não é um tratado de livre comércio nem alfandegário

Alguns analistas apontam que a articulação da Nova Rota da Seda da China ganhará peso simbólico nos próximos anos no Brasil, em especial pelo enfraquecimento do Mercosul. No entanto, o professor não vê essa relação. Na opinião dele, o projeto é muito mais do lado do sharp power, de querer "aumentar a zona de influência chinesa através de conquistar colegas usando dinheiro".
Para o economista são coisas distintas, não é um acordo de livre comércio nem de diminuição das tarifas. Simplesmente vai trazer ou investimento ou financiamento para melhorar a infraestrutura dos parceiros.
Então, reitera ele sua ideia, não precisa assinar o acordo só "para suscitar raiva e ranger de dentes de outro lado", falando dos EUA. Do ponto de vista diplomático, não há necessidade disso, concluiu.
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