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Justificativas dadas pelo ministro Guedes explicam alta da inflação no Brasil?

© AFP 2021 / Evaristo SaMinistro da Economia do Brasil, Paulo Guedes durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília
Ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília  - Sputnik Brasil, 1920, 15.10.2021
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A Sputnik Brasil conversou com o cientista político e professor da ESPM-SP Paulo Niccoli Ramirez para compreender as justificativas dadas pelo ministro da Economia Paulo Guedes sobre a alta da inflação e as possíveis medidas de contenção.
Na terça-feira (12), o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que a alta dos preços é algo generalizado em todo o mundo, declarando que a subida dos preços dos alimentos e energia é "culpada" por 50% da inflação.
Para compreender as justificativas de Paulo Guedes, bem como as perspectivas relacionadas à inflação, possíveis consequências na corrida eleitoral e medidas que o país pode utilizar para conter a inflação, a Sputnik Brasil conversou com o cientista político e professor da ESPM-SP Paulo Niccoli Ramirez.
De acordo com o professor, o argumento utilizado por Guedes sobre a alimentação seria válido se o Brasil fosse um país que precisasse de importações para abastecer sua população em termos de alimentação, contudo, o Brasil é, por exemplo, autossuficiente em carne bovina, aves, bem como na produção de cereais.
"Ainda que faltassem produtos no mercado, e caso fossem necessárias as importações, a elevação dos preços no Brasil deveria ser menor do que em comparação ao resto do mundo", explica.
Isso mostra que o mercado brasileiro de produção tem os valores muito voláteis de acordo com os preços de exportações, ou seja, que são taxados pelo mercado internacional.
"É um erro esse tipo de afirmação do Paulo Guedes, pois nós aplicamos políticas de variação de preços, mesmo de energia e alimentos, que seguem uma organização baseada em países que são importadores. Na verdade, o Brasil é produtor. Então, isso mostra algumas incoerências, e muitas vezes falta de conhecimento de que a realidade dos fatos é que os valores no Brasil são estipulados de acordo com interesses comerciais e não com a necessidade de abastecer a população", explica.
Paulo Niccoli Ramirez também ressalta que o Brasil é autossuficiente na produção de petróleo, mas por uma opção a Petrobras não alcança esse patamar, ou seja, é uma opção política, importando combustível, e o Brasil, mesmo tendo uma produção interna considerável de combustível, acaba aplicando políticas que são de países que não possuem produção petrolífera, fazendo com que o combustível brasileiro fique exposto às variações e oscilações do mercado internacional.

Brasil vai acompanhar previsão de inflação alta até o fim de 2021?

Segundo Paulo Niccoli Ramirez, por conta da situação pós-pandemia, quando a economia começa a se equilibrar, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) a altos índices, a inflação também cresce devido ao aumento do consumo.
Contudo, isso não acontece no Brasil, onde há um crescimento vertical da inflação, que foi o maior desde a invenção do Plano Real, mas ao mesmo tempo que a inflação aumenta de forma vertical o PIB não cresce.
"A previsão de crescimento do PIB do Brasil para 2022 está em 1,9%, ou seja, muito pouco em consideração ao crescimento da inflação", ressaltou.

Dados do Censo poderiam prejudicar a corrida eleitoral de 2022?

Anteriormente, o governo brasileiro alegou corte nos gastos e que não haveria recursos suficientes para realizar o Censo, algo que custaria em torno de entre R$ 2 e 4 bilhões.
"É um argumento contraditório à medida que a gente observa que o próprio governo distribuiu cargos e recursos para seus apoiadores dentro do parlamento e que superam muito mais o valor do Censo", ressaltou.
De acordo com o professor, havia um grande interesse de Bolsonaro em não realizar o Censo durante o seu governo, porque haveria dois modelos econômicos distintos seguidos pelo Brasil, um deles do governo Lula, que investia em projetos sociais, período em que a miséria foi consideravelmente reduzida, e do governo Temer e Bolsonaro, que cortam os gastos sociais, com um financiamento menor na educação, na saúde, além da piora na alimentação e alta da inflação.
"Os dados [do Censo] que seriam apresentados, seriam infinitamente piores do que aqueles dos últimos Censos. E o resultado desta história seria um grande prejuízo à própria imagem de Bolsonaro", enfatizou.
Paulo Niccoli Ramirez observa que houve cortes no orçamento do Censo, e muitas das questões que deveriam ser feitas foram descartadas do Censo para economizar, "dados que poderiam revelar problemas em acesso à educação, aos portadores de necessidades especiais, saúde pública, aos meios de transporte".
"O questionário teria de ser reduzido para economizar recursos, e é óbvio que quando você reduz a quantidade de questões e dados, você também acaba produzindo uma fraqueza por parte das autoridades públicas na percepção de onde estão os problemas da sociedade e onde investir recursos para resolver estes problemas", explicou.

Venda de ações da Petrobras

Comentando a declaração do ministro Guedes, onde ele defendeu a venda de ações da Petrobras para combater a pobreza, Paulo Niccoli Ramirez afirmou que "na prática significa uma postura neoliberal".
O professor recordou que o ministro Guedes quer adotar a política de privatizações, e que ele já havia prometido privatizar tudo que fosse possível, como os Correios, o Banco do Brasil e, atualmente, a Petrobras.
"Não podemos esquecer que esse tipo de postura resolveria o problema do Brasil momentaneamente, e seria mais vantajoso a longo prazo que a Petrobras mantivesse anonimamente o sistema atual ou o anterior, quando era totalmente estatal, quando os recursos eram obtidos a partir da retirada de petróleo para os cofres públicos, e a partir dos cofres públicos atender os interesses da sociedade", observou.
Para o professor, Paulo Guedes dá uma justificativa temporária e provisória, especialmente porque no Brasil as privatizações são feitas a custos muito baixos para o mercado, bem como a venda de ações.
"Isso vai ilustrando o interesse de Paulo Guedes em atender os interesses do mercado, e não necessariamente da população brasileira", enfatiza.

Auxílio Brasil pode solucionar problema da inflação?

O governo Bolsonaro deve lançar em novembro o Auxílio Brasil, um programa social substituto da Bolsa Família e o aumentar de R$ 190 para R$ 300 mensais.
Contudo, para o professor, devido à inflação a medida é uma troca de "seis por meia dúzia" do ponto de vista da capacidade de consumo da população.
"Numericamente isso chama atenção do eleitorado, ou seja, pular de R$ 190 para R$ 300, e pode ser uma tentativa de o Bolsonaro atrair a população mais carente para seu eleitorado como apoio político, mas tudo vai depender do que vai acontecer no próximo ano, nos próximos meses, em relação à inflação", declara.
Paulo Niccoli Ramirez ressalta que é fundamental que o governo Bolsonaro tenha como uma de suas políticas o controle da inflação, pois isso piora as condições de consumo da população mais carente.

Aprovação do texto-base do ICMS para tentar reduzir preço do combustível

A Câmara dos Deputados aprovou, na quarta-feira (13), o texto-base do projeto de lei complementar PLP 11/2020, que institui uma nova metodologia para a cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços pelos estados e Distrito Federal.
Ao ampliar o período de referência, os defensores da medida afirmam que seria possível reduzir a volatilidade nos preços cobrados nos postos.
Por sua vez, Paulo Niccoli Ramirez afirma que a grande estratégia de Bolsonaro em relação ao aumento do combustível é "colocar a culpa nos governadores", exatamente para a cobrança do ICMS, "que permite uma espécie de concorrência fiscal dentro do Brasil", com cada estado cobrando um valor específico, contudo, há um projeto na Câmara para padronizar o valor do ICMS.
"O Bolsonaro acaba colocando a culpa nesse imposto cobrado pelos governadores, quando na verdade o imposto é uma porcentagem sobre o valor da produção, que é política de governo [...] Mesmo que o imposto seja padronizado em todos os estados, cedo ou tarde o valor do combustível vai continuar aumentando [...] o preço do combustível no Brasil está sujeito às variações do mercado internacional", ressalta.

Caso Pandora Papers

Depois que o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos divulgou, no último domingo (3), o relatório Pandora Papers sobre alegado envolvimento de alguns líderes mundiais, funcionários públicos e artistas em esquemas de offshore, inclusive o ministro da Economia e o presidente do Banco Central do Brasil, o procurador-geral da República, Augusto Aras, falou que não se pode fazer investigações com base em notícias.
Porém, logo depois Aras acabou abrindo, na segunda-feira (4), uma investigação preliminar sobre os investimentos no exterior dessas figuras. Paulo Guedes é proprietário de uma empresa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas que em 2015 contava com US$ 9,55 milhões – mais de R$ 52 milhões no câmbio de hoje. Contudo, o ministro Guedes afirma "não ter feito nada de errado".
Para Paulo Niccoli Ramirez, é óbvio que o ministro Guedes se desresponsabilize, contudo, ao mesmo tempo ele teve um lucro considerável com a desvalorização do preço do real, mostrando que essa offshore tem interesses no processo de aumento dos combustíveis e na desvalorização do real.
"É um efeito em cadeia, em que o Paulo Guedes, representante dos investidores, tem interesse. Um investidor ganha muito mais com a desvalorização da moeda", observou.
Apesar de o governo tentar reduzir a taxa de juros, em um cenário de crise e baixo crescimento do país "reduzir a taxa de juros é a porta aberta para o aumento da inflação", pois o investidor vai ganhar de duas formas, ou com a taxa de juros elevada ou com uma inflação elevada.
"Ganhou muito com isso o Paulo Guedes, por mais que ele diga que não e que não tenha nada a ver com isso, houve um implemento de pelo menos quase R$ 30 milhões na conta dele, simplesmente porque a moeda se desvalorizou, e isso precisa ser justificado", concluiu.
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