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'A arrogância do Partido Socialista no poder é abalada com a derrota em Lisboa', avalia especialista

© AP Photo / Rebecca BlackwellCarlos Moedas, do Partido Social Democrata (PSD) de Portugal, eleito novo prefeito de Lisboa
Carlos Moedas, do Partido Social Democrata (PSD) de Portugal, eleito novo prefeito de Lisboa - Sputnik Brasil, 1920, 28.09.2021
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O Partido Socialista português, do premiê António Costa, manteve a hegemonia nas eleições autárquicas no último domingo (26), mas saiu enfraquecido pela derrota em importantes cidades, principalmente Lisboa, mas também em Coimbra e no Funchal. Em entrevista à Sputnik Brasil, especialista explica o porquê.
O PS conquistou 149 dos 308 municípios portugueses, 34 a menos do que nas autárquicas de 2017. Já o Partido Social Democrata (PSD), que frustrou os planos de reeleição do socialista Fernando Medina em Lisboa, vai presidir 114 autarquias, 16 a mais do que nas últimas eleições. A diferença entre os dois partidos caiu, portanto, de 63 para 35. A contagem total dos votos impressos terminou apenas na tarde da segunda-feira (28).
"Se sinto frustração, claro que sim, é evidente que sim, isso é indiscutível", disse António Costa a jornalistas após a divulgação dos resultados na madrugada desta segunda-feira (27). 
A mudança na prefeitura de Lisboa, ganha por Carlos Moedas (do PSD, em aliança com vários outros partidos de direita), acontece após 14 anos de governos socialistas. Desde 2007, quando o socialista António Costa tomou o poder, a retomada da capital pelo PSD dá sinais de um possível enfraquecimento do primeiro-ministro, na avaliação de José Palmeira, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade do Minho.
"A arrogância do partido no poder é abalada com este resultado, e o seu escrutínio será maior. Por exemplo, a manutenção de ministros polêmicos, como o da Administração Interna, será mais difícil de sustentar, e uma remodelação ministerial poderá estar agora mais próxima", prevê Palmeira, em entrevista à Sputnik Brasil.
O especialista refere-se ao ministro Eduardo Cabrita, que já teve a cabeça pedida pelo PSD em algumas ocasiões e chegou a ser "fritado", de forma velada mas publicamente, pelo presidente Marcelo Rebelo de Sousa quando veio à tona a morte do ucraniano Igor Homenyuk, torturado por agentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) no Aeroporto de Lisboa.
Há pouco mais de três meses, Cabrita se meteu em outra polêmica envolvendo uma morte, dessa vez de um trabalhador atropelado pelo seu carro oficial em uma rodovia portuguesa. A imprensa local aposta que ele será um dos cinco ministros exonerados, abrindo espaço para Medina assumir uma pasta no governo de Costa, que apoiou como nunca a sua campanha em Lisboa. Até a derrota, o prefeito da capital era cotado para ser candidato à sucessão do premiê.
Apesar de Costa negar, a reforma ministerial deve acontecer após a aprovação do Orçamento de Estado para 2022 pelo Conselho de Ministros e a entrega do texto à Assembleia da República, prevista para 11 de outubro. A vitória do ex-comissário europeu Carlos Moedas na capital foi apertada, com 34,25%, contra 33,3% de Medina, uma diferença de 2294 votos apenas. A pequena margem ainda confere algum capital político ao socialista. 
© AFP 2021 / PATRICIA DE MELO MOREIRAMarcelo de Sousa Rebelo e António Costa, respectivamente, presidente e primeiro-ministro de Portugal
Marcelo de Sousa Rebelo e António Costa, respectivamente, presidente e primeiro-ministro de Portugal - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
Marcelo de Sousa Rebelo e António Costa, respectivamente, presidente e primeiro-ministro de Portugal
Por outro lado, o Partido Comunista Português (PCP) sai enfraquecido das eleições, com uma queda de 24 para 19 câmaras, na Coligação Democrática Unitária (CDU) com o Partido Ecologista Os Verdes (PEV), aparecendo na terceira posição. Sem prefeituras, o partido Chega, da direita radical, apresentou crescimento moderado, elegendo 19 vereadores nas suas primeiras autárquicas. No entanto, o deputado André Ventura, fundador e presidente do partido, amargou derrota na Câmara Municipal de Moura.
Dessa forma, os resultados não confirmaram o Chega como a terceira força política de Portugal, como aconteceu nas eleições presidenciais, em que Ventura ficou em terceiro lugar. Ainda assim, o Chega ficou à frente do Bloco de Esquerda (BE), com apenas quatro vereadores eleitos, oito a menos do que 2017.
Confira a íntegra da entrevista com o José Palmeira abaixo: 
Sputnik: Apesar de manter o maior número de câmaras, pode-se dizer que o PS teve um balanço negativo devido às derrotas em Lisboa, Coimbra e Funchal, principalmente?
José Palmeira: É verdade. Apesar de continuar a ser o partido com maior número de presidências de Câmara, o PS interrompeu um ciclo de crescimento e perdeu autarquias emblemáticas, como as que refere, com destaque para a capital. Este dado é tanto mais significativo quanto é certo que o chefe do governo e líder do PS se envolveu, de uma forma nunca vista para um primeiro-ministro em exercício, na campanha eleitoral, 'chantageando' o eleitorado com um conjunto de promessas de investimento nos concelhos por onde passou.
Se a isto acrescentarmos a vantagem que têm os candidatos incumbentes (majoritariamente do PS) e o fato de a pandemia ter reforçado a proximidade entre os autarcas e os seus munícipes, melhor se tem a noção do significado das perdas do PS neste contexto.
S: Medina atribuiu a responsabilidade da derrota somente a ele próprio. Mas qual a parcela de responsabilidade que António Costa tem nessa derrota?
JP: É difícil medir as responsabilidades de cada um nessa derrota. Uma coisa é certa, a influência do governo no voto dos eleitores em eleições autárquicas é maior nos grandes centros urbanos e sobretudo na capital, que é onde está sediado o poder político nacional. Mas uma dúvida persistirá sempre. Será que o envolvimento de António Costa na campanha prejudicou o PS a nível local? Ou, se não o tivesse feito, as perdas do partido seriam ainda maiores? 
© AP Photo / Armando FrancaFernando Medina, entre a ministra da Saúde, Marta Temido, e o ministro da Defesa, João Cravinho
Fernando Medina, entre a ministra da Saúde, Marta Temido, e o ministro da Defesa, João Cravinho - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
Fernando Medina, entre a ministra da Saúde, Marta Temido, e o ministro da Defesa, João Cravinho
JP: O impacto é sobretudo psicológico, o que não é de somenos. A arrogância do partido no poder é abalada com este resultado, e o seu escrutínio será maior. Por exemplo, a manutenção de ministros polêmicos, como o da Administração Interna, será mais difícil de sustentar, e uma remodelação ministerial poderá estar agora mais próxima.
S: O vazamento de dados de ativistas estrangeiros para representações diplomáticas de seus países teve algum peso na derrota de Medina? Por quê?
JP: É difícil de avaliar. A decisão de voto dos eleitores entra sempre em linha de conta com várias premissas, e essa pode ter sido uma delas. Mas é difícil determinar quão influente foi no desfecho eleitoral em Lisboa. Uma coisa é certa: não o favoreceu.
S: Quais outros motivos ajudam a explicar a derrota do PS em Lisboa após 14 anos?
JP: Há sempre várias razões e não se evidencia uma ou outra como determinante. Por outro lado, o fato de o PSD ter apostado num candidato com um currículo político relevante e com um programa alternativo ao incumbente, bem detalhado, permitiu aos eleitores estabelecer uma comparação e, majoritariamente, apostar na mudança.
S: Por outro lado, pode-se dizer que o Chega é um dos vencedores das autárquicas, saindo fortalecido e consolidado?
JP: Não. O Chega não alcançou o objetivo de ser a terceira força política nas autarquias e confirmou que é um partido unipessoal, em torno do seu líder. Conseguiu alguns eleitos graças ao seu estatuto de partido de protesto, mas, dada a elevada taxa de abstenção [46%], parece que, mais do que ser capaz de mobilizar abstencionistas, tem ido buscar votos a descontentes do sistema, seja à direita (PSD/CDS) seja à esquerda (PCP/BE).
S: Qual o peso da derrota de André Ventura em Moura para o seu projeto político?
JP: Não é significativo. André Ventura alimenta-se da criação de expectativas que muitas vezes saem frustradas, mas não tira conclusões disso, nem pode, pois não há alternativa à sua pessoa na liderança do partido. 
© Foto / Divulgação/Universidade do MinhoJosé Palmeira, professor de Relações Internacionais da Universidade do Minho
José Palmeira, professor de Relações Internacionais da Universidade do Minho - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
José Palmeira, professor de Relações Internacionais da Universidade do Minho
S: O PCP corre o risco de sumir do mapa eleitoral?
JP: As mudanças sociológicas nos municípios de tradicional implantação do PCP, a perda de influência sindical do partido e o apoio que tem dado aos governos do PS no momento da aprovação do Orçamento de Estado corroem a sua base de apoio. Há, por isso, fatores conjunturais (sustentação do governo do PS) e estruturais (eleitorado envelhecido) que o seu líder, Jerónimo de Sousa, tem sido visto como o mais capaz de estancar. Pode, no entanto, já não ser assim, e talvez tenha chegado o momento da renovação, apresentando-se João Ferreira como principal candidato, até pelo bom resultado que obteve em Lisboa.
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