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Economista: superávit é animador, mas pandemia e lentidão das reformas podem atrapalhar o Brasil

© Folhapress / Bruno SantosFotos de um dos 55 terminais de carga do Porto de Santos, no litoral de São Paulo.
Fotos de um dos 55 terminais de carga do Porto de Santos, no litoral de São Paulo. - Sputnik Brasil, 1920, 28.05.2021
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Em entrevista à Sputnik, economista considera animador superávit registrado pelo Brasil em abril, mas ressalta que o mesmo é majoritariamente influenciado por fatores externos e que o país precisa se empenhar mais no combate à pandemia e na implementação de reformas para poder deslanchar.

Em balanço divulgado nesta quinta-feira (26), o Banco Central informou que o Brasil registrou um superávit em suas transações correntes de US$ 5,663 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões) em abril. A autoridade monetária, por sua vez, estimava um superávit US$ 5,7 bilhões (cerca de R$ 30,114 bilhões).

Segundo Fernando Rocha, chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central do Brasil, o superávit de quase 5,7 bilhões de dólares das transações em conta corrente registrado em abril foi o maior para qualquer mês de toda a série histórica da instituição, que teve início em 1995.

Além disso, no mesmo mês de 2020, o saldo da conta corrente foi positivo em 199 milhões de dólares (cerca de R$ 1 bilhão). Já no acumulado de 12 meses, a diferença entre o que país gastou e o que recebeu nas transações internacionais relativas a comércio, rendas e transferências unilaterais alcançou um saldo negativo de US$ 12,389 bilhões (cerca de R$ 65,5 bilhões), o equivalente a 0,84% do Produto Interno Bruto estimado pela autoridade monetária. 

Em março, o déficit foi equivalente a 1,23% do PIB e o Banco Central calcula um superávit de US$ 2 bilhões (R$ 10,5 bilhões) para este ano de 2021.  

Em entrevista à Sputnik Brasil, o economista Eduardo Mekitarian, professor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, afirma que o dado relativo ao superávit registrado em abril é "bastante animador", dado que o desempenho em 2020 foi "irrisório", de US$ 199 milhões, quando o mundo todo sofria com a pandemia.

Na opinião de Mekitarian, os resultados mostram que o setor externo da economia vai muito bem, enquanto no setor interno a situação segue bastante complicada. Para o economista, a alavancagem econômica de alguns países, como China, Europa e Estados Unidos, que são países que têm um relacionamento comercial e econômico significativo com o Brasil, "tem sido benéfica e continuará sendo benéfica" para o país.

Segundo o professor da FAAP, essa alavancagem de alguns países se reflete nos resultados da balança comercial brasileira, que somou um total de US$ 26,6 bilhões (R$ 140,5 bilhões), um aumento de 50,7% em relação a 2020.

"O crescimento econômico desses países, o elevadíssimo aumento das commodities brasileiras exportáveis para os outros países, principalmente a China, que tem se recuperado de uma forma mais intensa [...] Isso certamente levou o Brasil a ter esse superávit comercial", avalia Mekitarian.

Outro resultado divulgado pelo Banco Central foi de que o déficit em conta corrente acumulado em 12 meses, de US$ 12,4 bilhões (R$ 65,5 bilhões), foi o menor desde março de 2008, quando atingiu a marca de 10,8 bilhões de dólares (R$ 57 bilhões). Além disso, o chefe do Departamento de Estatísticas da autoridade monetária assinalou que, se a projeção de superávit de 3,6 bilhões de dólares (R$ 19 bilhões) feita pelo Banco Central para maio se confirmar, o déficit acumulado em 12 meses cairá para 8,3 bilhões de dólares (R$ 44 bilhões).

Para Eduardo Mekitarian, a balança comercial brasileira apresentou um crescimento extraordinário, devido à "demanda internacional pelas commodities brasileiras", como soja, milho e minério de ferro, que tiveram grandes elevações de preço.  Além disso, o economista aponta que a desvalorização cambial do real também tem ajudado a trazer "um o resultado em dólares para o Brasil bastante elevado".

Outro fator importante apontado pelo professor da FAAP diz respeito às importações, que também tiveram uma alta expressiva. Para o economista, isso é um bom sinal para a economia brasileira porque as "importações de bens de capital vão direto para o setor produtivo", e estas vêm, de uma certa forma, sendo gradualmente elevadas.

"Substituição de máquinas, equipamentos, inovações tecnológicas, isso pode se traduzir, em um futuro próximo, em algo que venha a trazer maior produtividade para a economia brasileira, uma grande alavancagem para a indústria do país e, consequentemente, para a geração de divisas externas", avalia.

Contudo, o economista ressalta que há uma conjunção de fatores relativos à estabilidade econômica do Brasil que não se enxergam neste momento. Com inflação em alta, taxa de juros em alta, e reformas que não saem, o país ainda se mostra muito desarticulado internamente e com muitos de seus setores bastante atingidos pela pandemia de COVID-19. 

Além disso, o professor da FAAP destaca o tratamento dado pelo país ao meio ambiente, com relativo descaso em relação às demandas internacionais de combate ao desmatamento, o que tem prejudicado a chegada de mais recursos do exterior, já que muitos países estão deixando de investir no Brasil por conta das questões ambientais.

Em suma, o professor avalia que "a questão política, a questão ambiental e a questão da saúde têm feito com que o investimento direto no Brasil diminuísse em relação a anos anteriores" e que o crescimento econômico do país, que é estimado pelo Banco Central em entre 3,5% e 4%, "depende do combate à COVID-19 e da restauração da economia brasileira".

"Nós temos tido políticas econômicas equivocadas no Brasil ao longo de seis, oito anos, que têm levado a uma queda constantemente do PIB. Para recuperar a economia brasileira, [é necessário] uma política econômica ajustada e que [o governo] faça a imediata implementação dessa política, para que o país consiga subir", opina Mekitarian, que considera que o combate à pandemia e as reformas precisam ser efetuadas como o fator preponderante para que a economia brasileira deslanche no ano de 2022.

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