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Proibição de alguns partidos políticos no Desfile de 25 de Abril gera polêmica em Portugal; entenda

© AFP 2021 / Patricia de Melo MoreiraA criança apanha cravos, símbolo da Revolução portuguesa, em Lisboa, Portugal, 25 de abril de 2014
A criança apanha cravos, símbolo da Revolução portuguesa, em Lisboa, Portugal, 25 de abril de 2014  - Sputnik Brasil, 1920, 22.04.2021
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A proibição de alguns partidos políticos no Desfile de 25 de Abril tem gerado polêmica em Portugal. A maior manifestação pela democracia no país, que celebra a Revolução dos Cravos, volta a acontecer neste domingo (25), em Lisboa, após não ter ocorrido em 2020 em função da pandemia de COVID-19.

A Associação 25 de Abril (A25A), que organiza o desfile, confirmou que a Direção Geral de Saúde (DGS) autorizou a manifestação, desde que seguidas as medidas sanitárias. Isso serviu como motivo para que Vasco Lourenço, presidente e um dos fundadores da A25A, vetasse a participação de alguns partidos, como a Iniciativa Liberal (IL) e o Volt Portugal.  

Em um e-mail enviado a um dos partidos, ao qual Sputnik Brasil teve acesso, Lourenço justifica que, tendo em conta a situação de excepcionalidade e de limitações relacionadas com a saúde pública, tem que restringir a participação no desfile, que decorrerá na Avenida da Liberdade, às organizações que constituem a comissão promotora, para poder dar "uma responsável satisfação às exigências de controle e de proteção dos participantes, definidas pelas competentes entidades oficiais".

Entre os partidos autorizados a participar estão o Partido Comunista de Portugal (PCP), o Partido Socialista (PS), o Partido Ecologista Os Verdes (PEV), o Bloco de Esquerda (BE) e o LIVRE. Em entrevista à Sputnik Brasil, Vasco Lourenço confirmou que partiu da organização o limite de mil participantes no desfile e o veto à participação de partidos como a IL e o Volt. 

"Essa limitação quem impôs a si foi a própria organização. O normal é fazer uma grande manifestação, mas este ano não é possível. Decidimos fazer um desfile simbólico. Quem nunca quis lá estar pode comemorar o 25 de Abril onde quer que seja. A IL e o Volt, que surgiu mesmo agora, que façam as comemorações onde quiserem, desde que se entendam com as autoridades. No mesmo local e à mesma hora, não me parece possível", diz Lourenço.

Em comunicado divulgado, a IL mantém o objetivo de desfilar no dia 25 de Abril na Avenida da Liberdade com ponto de encontro na Rotunda do Marquês de Pombal, às 15h00 (11h00, no horário de Brasília), mesmo horário do desfile organizado pela A25A. No texto, o partido argumenta que as celebrações não são exclusivas dos partidos de esquerda, nem de organizações satélites, "porque a liberdade não tem donos". Após a polêmica, Lourenço subiu o tom.

"Acho que é chicana política pretender acusar quem sempre se preocupou com a liberdade para todos. É tão estúpido que nem merecia resposta. Os partidos aproveitam essas coisas para tentar outros objetivos. Eu não dou para isso. É incompreensível, depois da demonstração que os militares deram de que não se deve discriminar ninguém", afirma à Sputnik Brasil.

No entanto, o coronel Rodrigo Sousa e Castro, um dos Capitães de Abril, movimento que organizou a operação militar de 25 de Abril de 1974, discordou de Lourenço, um de seus companheiros na Revolução dos Cravos. Para Sousa e Castro, a exclusão da IL vai contra os valores da revolução, de um espírito inclusivo da liberdade contra a ditadura.

"A comissão promotora, se fosse uma comissão liberal no sentido de aceitar a participação de todos os que querem comemorar o 25 de Abril, pelo visto não tinha excluído a Iniciativa Liberal. Eu discordo completamente desse critério. Acho até incrível que a Associação 25 de Abril aceite participar em decisões discriminatórias desse tipo", disse Sousa e Castro à TSF.
© Sputnik / Caroline RibeiroPor causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa
Proibição de alguns partidos políticos no Desfile de 25 de Abril gera polêmica em Portugal; entenda - Sputnik Brasil, 1920, 22.04.2021
Por causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa

'LIVRE procede de forma miserável', diz presidente da A25A

Questionado pela Sputnik Brasil sobre a declaração de seu companheiro de armas, o hoje tenente-coronel da reserva Vasco Lourenço, que estava preso nos Açores em 25 de abril de 1974 e, posteriormente, tornou-se porta-voz do Conselho da Revolução e governador militar de Lisboa, arrefece ao falar de Sousa e Castro.

"O Sousa e Castro não percebeu que não é a manifestação. É um desfile organizado. Não somos os únicos detentores do 25 de Abril. Aplaudimos que o façam, pois é sinal que os valores do 25 de Abril continuam, e forças que são mais contestatórias do que apoiantes queiram participar. Mas é um ato bem organizado para tomar nota das pessoas que estão lá e serem contactadas para se houver um surto [de COVID-19]", explica.

A celeuma fez com que o partido LIVRE decidisse ceder quatro de seus lugares no desfile à Iniciativa Liberal e ao Volt, dois para cada partido. O anúncio foi feito pelo perfil do LIVRE no Twitter. 

Indagado pela Sputnik Brasil sobre o convite feito pelo LIVRE à IL e ao Volt, o presidente da A25A volta à artilharia pesada.

"O partido LIVRE está na comissão promotora, mas não comunicou isso. É mais uma chicana inadmissível. Está a proceder de uma maneira absolutamente miserável. O LIVRE está querendo dizer que são mais democratas que os outros. Não têm autoridade moral para fazer isso", dispara.

Informado sobre a declaração de Lourenço à Sputnik Brasil, Pedro Mendonça, porta-voz do LIVRE, adota um discurso diplomático e pacificador. Segundo ele, o partido não comunicou à A25A porque não recebeu respostas da IL nem do Volt. De acordo com ele, o objetivo do tweet era desmascarar uma armadilha criada pela IL.

"Em momento nenhum nos sentimos mais democráticos do que a A25A. Foi uma forma simples de resolver um problema e desmascarar, porque se a IL fosse participar da manifestação, tinha aceitado esse convite. Tentamos que o 25 de Abril não ficasse focado em um artifício comunicacional e um ambiente fantasioso criado pela IL para virar notícia. O LIVRE contribuiu para mostrar essa dupla face", afirma Mendonça à Sputnik Brasil.

Ele acrescenta que, como órgão organizador, o partido tem direito a dez bilhetes para o desfile. Mendonça revela ainda que vai mandar um e-mail para Lourenço a fim de desfazer o mal-entendido.

"Temos pena que Vasco Lourenço, a quem admiramos, tenha lido nossa ação assim. Mas considero perfeitamente natural que ele tenha percebido o tweet dessa forma. Temos um orgulho imenso de estar na comissão promotora do desfile. A decisão da A25A não foi contra os princípios [da revolução], mas necessária em um ano excepcional com pandemia", justifica.

Lourenço 'tem que olhar para dentro da sua casa', reage quadro da IL 

Já Rodrigo Saraiva, chefe de gabinete parlamentar da Iniciativa Liberal, confirma à Sputnik Brasil que o partido comunicou à Câmara Municipal de Lisboa que vai fazer um desfile no mesmo dia e no mesmo horário na Avenida da Liberdade, com presença de 150 a 200 pessoas. Confrontado com a declaração de Lourenço de se tratar de uma chicana política, ele reage dizendo que a IL participa das celebrações de 25 de Abril desde sua fundação, em 2018.

"[Lourenço] tem que olhar melhor para dentro da sua casa do que para a casa dos outros. Este ano, fomos surpreendidos pela A25A [dizendo] que não seria possível [nossa participação]. Acham-se donos e não têm que autorizar. O nosso desfile está marcado para as 15h00, no mesmo lugar, pois é o que aconteceu nas últimas quatro décadas. Também vamos celebrar, mas não vamos entrar ao mesmo tempo. Não há liberdade sem responsabilidade", prega.
© Foto / Reprodução/ILMilitantes da Iniciativa Liberam participam de manifestação
Proibição de alguns partidos políticos no Desfile de 25 de Abril gera polêmica em Portugal; entenda - Sputnik Brasil, 1920, 22.04.2021
Militantes da Iniciativa Liberam participam de manifestação

Saraiva nega ter tomado conhecimento do convite público feito pelo LIVRE e diz que o único partido que fez contato foi o Volt, que faria parte do mesmo desfile. Por sua vez, Tiago de Matos Gomes, presidente do Volt Portugal, confirmou o contato de um integrante da comissão política, mas diz que a única decisão que está tomada é a de que o partido estará presente na Avenida da Liberdade às 15h00. Sobre o convite do LIVRE, ele retribui a "gentileza". 

"Agradecemos muito a simpatia e o espírito democrático do LIVRE, mas o Volt Portugal quer participar no Desfile do 25 de Abril com voz própria. E não integrado dentro de outro partido. Estamos a estudar a melhor forma de o fazer, respeitando as regras sanitárias por causa da pandemia, com distância de segurança e máscaras", assegura. 

Ele não quis comentar as declarações de Vasco Lourenço à Sputnik Brasil por respeito ao militar e ao que representa na História de Portugal. No entanto, não se abstém de tecer comentários sobre a decisão de exclusão da IL e do Volt.

"Profundamente contrária aos valores do 25 de Abril. A Revolução dos Cravos foi feita para implantar a democracia em Portugal, com partidos de vários quadrantes e para dar poder e voz ao povo. Excluir partidos da grande festa da democracia, realizada na Avenida da Liberdade, é o oposto do espírito do 25 de Abril", avalia.

Doutor em Ciência Política e professor de Políticas Públicas da Universidade do Minho, Pedro Camões considera que o assunto tomou proporções maiores do que deveria, mas reconhece que há uma importância simbólica muito grande que mostra uma competição partidária muito polarizada. De acordo com ele, com a polêmica, quem perde é A25A. 

"A decisão relativamente inexplicável é uma forma de a A25A excluir ou limitar o acesso dos dois partidos novos, que entraram agora em um sistema que, durante 30 anos, teve muita estabilidade e imutabilidade, com quatro ou cinco principais que se habituaram a ser os únicos. Não foi uma coisa sem querer, porque, se fosse, teria sido corrigida imediatamente. Foi um tiro no pé. A IL vai ganhar com isso, com um discurso de vitimização diante da intolerância do sistema, que não quer que haja mudanças", opina.
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