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'Vacina não é a solução nesse momento para se afrouxar medidas de prevenção', diz especialista

© Folhapress / Veetmano Prem /FotoarenaImagem registrada na Av. conde da Boa vista, centro do Recife, mostra aglomeração de pessoas em meio à pandemia da COVID-19.
Imagem registrada na Av. conde da Boa vista, centro do Recife, mostra aglomeração de pessoas em meio à pandemia da COVID-19. - Sputnik Brasil
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Quase um ano após o primeiro caso de COVID-19 no Brasil, o país iniciou a vacinação da população. Será que o início da campanha de imunização é suficiente para se afrouxar as regras de isolamento social?

Qual seria o percentual da população que precisaria ser vacinada para se garantir a segurança mínima contra a doença? Há uma previsão para se chegar a esse percentual no país?

Para responder a essas e outras perguntas a Sputnik Brasil conversou com Guilherme Werneck, médico epidemiologista, professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Ele avaliou que, em primeiro lugar, a transmissão da COVID-19 no Brasil permanece alta e, em segundo lugar, a vacinação não vai conseguir cobrir parcelas substantivas da população de forma rápida.

"Nesse momento, nós devemos estar muito atentos para outras medidas de controle da transmissão. Além de tentar estimular ao máximo a vacinação, é preciso que as pessoas reconheçam que a vacina nesse momento não é uma solução total para nosso problema", explicou o especialista.

Ele acredita que até o final do ano o país pode conseguir atingir uma cobertura de vacinas mais alta, o que junto com as medidas de prevenção de transmissão do vírus pode levar a um panorama epidemiológico melhor, que permita uma flexibilização das medidas de restrição.

Percentual mínimo de vacinados 

Para Werneck, um número mínimo de vacinados contra COVID-19 ideal para que a pandemia fosse controlada estaria na faixa dos 70%, isso falando de uma vacina com 100% de eficácia de imunização. Acontece que há aspectos que dificultam o cálculo desse percentual.

"Primeiro, que as vacinas não têm 100% de eficácia, elas são vacinas que têm em torno de 70% de eficácia. Segundo que essa eficácia da vacina não é uma imunidade completa contra a infecção, mas é 70% de proteção para formas graves, ou seja, as pessoas, ou algumas pessoas vacinadas, continuarão podendo ser infectadas, mas não vão desenvolver formas graves da doença, mas como infectadas elas poderão transmitir para outras pessoas", explicou o epidemiologista.

No momento, segundo ele, a meta de vacinação no Brasil deveria ser de 95% da população elegível, para que o imunizante possa oferecer proteção direta, e para que este alto grau de cobertura vacinal possa ser capaz de contribuir para uma redução da força de transmissão da doença.

© REUTERS / Pedro NunesCampanha de vacinação contra COVID-19
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Campanha de vacinação contra COVID-19

Qual seria o prazo para se alcançar um percentual ideal de vacinados?

Devido às dificuldades vivenciadas pelo país para a obtenção das vacinas para imunizar uma parcela substancial da população, o especialista acredita que é difícil falar em uma previsão de quando vai se conseguir chegar a uma cobertura acima de 90% ou 95% dos brasileiros.

"Esse início é muito frustrante para o país, mas eu tenho uma expectativa de que no final de fevereiro ou março as coisas consigam andar de forma mais acelerada, e na medida que Butantan e Fiocruz consigam elas próprias produzir o ingrediente farmacêutico ativo então essa dependência da chegada dos insumos internacionais já vai cair. Então nós teremos mais certeza sobre o tempo necessário para finalizar o processo de vacinação da população brasileira", declarou Werneck.

​O especialista acredita que somente para o final do ano que se conseguirá alcançar a cobertura vacinal desejada no país.

Passaporte de imunidade

O epidemiologista avaliou que a ideia de um passaporte de imunidade — que surgiu ainda no início da pandemia — não encontrou um grande respaldo e ainda hoje fica difícil imaginar o fato de que a pessoa ter anticorpos poderia garantir que ela esteja completamente imune, que não oferece risco de aquisição ou transmissão da infecção.

"Primeiro, os testes para identificação de anticorpos têm as suas falhas, então não necessariamente a presença de anticorpos reflete o que é a realidade. Segundo, a defesa do organismo não se baseia só em anticorpos, mas depende inclusive da quantidade ou níveis de anticorpos que estão disponíveis. A defesa depende também do que se chama de imunidade celular, que não se consegue avaliar por meio destes testes que estão aí disponíveis", explicou o especialista.

Em terceiro lugar, Werneck disse que não se sabe a duração dessa imunidade, ou seja, até que ponto ela é duradoura, e até que ponto esses testes são capazes de identificar a imunidade que possa impedir a infecção por coronavírus.

© Sputnik / Aleksei Maishev / Abrir o banco de imagensTeste de COVID-19 no Aeroporto Vnukovo, Rússia
'Vacina não é a solução nesse momento para se afrouxar medidas de prevenção', diz especialista  - Sputnik Brasil
Teste de COVID-19 no Aeroporto Vnukovo, Rússia
"Nem todos os anticorpos têm uma efetividade, só uma parcela deles, que são os anticorpos neutralizantes e que são capazes de fato de agir para promover a imunidade", disse.

O epidemiologista se diz muito cético sobre o uso de passaportes de imunidade, mas acredita que pode ser necessário, ou exigido, um certificado de vacinação por parte de empresas aéreas ou governos para se entrar em certos países.

"É ainda uma coisa muito precoce para se pensar, mas talvez seja um ponto que mereça uma discussão um pouco mais adiante, na medida em que outras vacinas apareçam, e a certificação dessas vacinas se torne alguma coisa mais amplamente atingida em diferentes países do mundo", finalizou Werneck.
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