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'Bolsonaro só semeia insegurança e violência', diz candidata à presidência de Portugal

© Sputnik / Lauro NetoAna Gomes, candidata à presidência de Portugal
Ana Gomes, candidata à presidência de Portugal - Sputnik Brasil
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A campanha para presidente de Portugal entra em sua reta final nesta semana. A votação será no domingo (24). Candidato à reeleição, Marcelo Rebelo de Sousa (apoiado por PPD/PSD e CDS-PP) é favorito para vencer ainda no 1º turno, com 66,7% das intenções de votos, segundo a última pesquisa divulgada.

No segundo lugar, estão tecnicamente empatados o deputado André Ventura, do partido de extrema direita Chega, e Ana Gomes, apoiada pelos partidos LIVRE e PAN, com 11% e 10,8% dos votos, respectivamente. Na sequência, aparece Marisa Matias (Bloco de Esquerda), com 4%. João Ferreira (PCP), com 3,2%, e Tiago Mayan Gonçalves (IL), com 2,3%, completam as projeções da pesquisa encomendada por TVI/Observador. 

Sputnik Brasil entrevistou Ana Gomes durante evento organizado pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (AIEP), em um hotel em Lisboa, nesta segunda-feira (19). A ex-eurodeputada socialista, viúva de António Franco, embaixador de Portugal no Brasil entre 2001 e 2004, vê com preocupação o crescimento da extrema direita em seu país e no mundo. 

Questionada por Sputnik Brasil se vê semelhanças entre seu opositor André Ventura e o presidente Jair Bolsonaro, a jurista disse que ambos alimentam um discurso divisionista e anticientífico, que "quer estimular a desunião entre os cidadãos e que só semeia insegurança e violência". 

"Preocupa-me muito a questão que estão a sofrer todos no Brasil, designadamente, em consequência da terrível gestão da pandemia, que é o resultado da atitude do presidente Bolsonaro e do desacerto com as autoridades a todos os níveis por parte do seu governo. O povo brasileiro está a pagar caro", avalia Ana Gomes.

A diplomata, que foi chefe de missão e embaixadora de Portugal na Indonésia entre 2000 e 2003, destacou-se por ajudar a negociar a independência do Timor-Leste. Segundo ela, o propósito de Ventura, que conta com o apoio da francesa Marine Le Pen e do italiano Matteo Salvini, é destruir o projeto europeu e a Constituição portuguesa, saindo da Organização das Nações Unidas (ONU). A candidata chama atenção para o fato de a invasão ao Capitólio por apoiadores de Donald Trump não ter sido um ato isolado.

"Não podemos ser ingênuos e não ver uma marca e uma estratégia por parte de uma central de extrema direita que tem financiadores nos EUA e importantes instrumentos no Brasil através de certos grupos religiosos, com o propósito de destruir a liberdade e a democracia em vários continentes. Em Portugal, durante muito tempo se alimentou a ilusão de que não chegam cá esses tipos de fenômenos. Mas chegaram e há uma ligação. Quem financia esse partido da ultradireita [Chega] são forças ligadas à ditadura, aos maiores esquemas de corrupção e de desvios de recursos do Estado", acusa.

Ana Gomes também criticou Marcelo Rebelo de Sousa por, segundo ela, minimizar o perigo e dizer que a extrema direita é apenas mais uma corrente de opinião e que é preciso fazer o combate às ideias. De acordo com a diplomata, mais do que isso, é necessário aplicar a Constituição portuguesa, que proíbe organizações racistas e quaisquer fundações que ponham em causa a democracia política. 

Nesta terça-feira (19), a candidata admitiu a possibilidade de suspender a campanha nas ruas diante do agravamento da segunda onda da pandemia de COVID-19. João Ferreira também avalia a hipótese. Com uma campanha atípica de apenas duas semanas, em que os candidatos vão às ruas praticamente vazias em função do lockdown, os debates pela TV e pelo rádio têm sido a principal forma de aparecer para os eleitores.

© Sputnik / Caroline RibeiroO deputado português André Ventura, único eleito pelo estreante partido Chega
'Bolsonaro só semeia insegurança e violência', diz candidata à presidência de Portugal - Sputnik Brasil
O deputado português André Ventura, único eleito pelo estreante partido Chega

André Ventura não compareceu ao último debate radiofônico entre os sete candidatos presidenciais, nesta segunda-feira (18). Na noite anterior, realizou um jantar-comício com mais de 160 pessoas, promovendo aglomeração em um restaurante em Braga, no norte de Portugal, mesmo com os pareceres negativos da  Proteção Civil e do delegado de saúde responsável pela região. Jornalistas foram hostilizados durante o evento. A Guarda Nacional Republicana identificou o dono do restaurante e vai enviar as informações ao Ministério Público para apurar eventuais ilegalidades.

Usando batom vermelho, Chico Buarque grava vídeo em apoio a Marisa Matias

Já Marisa Matias realizou um comício virtual, na noite de segunda, com a participação da escritora espanhola Pilar Del Rio, presidente da Fundação José Saramago, e de Chico Buarque. Usando batom vermelho nos lábios, o cantor brasileiro gravou um vídeo em apoio a Marisa. A hashtag #VermelhoemBelém, em referência ao palácio presidencial, viralizou nas redes sociais depois que Ventura disse que a candidata do Bloco de Esquerda "não está muito bem em termos de imagem, com aquele batom muito vermelho, como se fosse uma coisa de brincar". 

​Outros brasileiros, como Guilherme Boulos, ex-candidato à Presidência do Brasil e à Prefeitura de São Paulo, e o ex-deputado federal Jean Wyllys escreveram em solidariedade a Marisa. A defesa à eurodeputada bloquista ganhou eco em outros países também. Em Luxemburgo, a ministra do Interior, Tania Bofferding, questionou: "Por que razão ainda temos de falar sobre igualdade de gênero e estereótipos? Porque, mesmo hoje, uma política é criticada pela cor dos seus lábios em vez das ideias que ela expressa utilizando esses lábios." 

Na Espanha, a ministra da Igualdade, escreveu em sua conta no Twitter: "'Maquia-te como uma boneca, falas como uma criança, és uma histérica.' O que te incomoda realmente é que as mulheres ocupem o espaço público sem pedir autorização. Em frente, Marisa Matias. Que viva a luta das mulheres." Em Portugal, a própria Ana Gomes gravou um vídeo passando batom vermelho em defesa de sua concorrente e das mulheres.

Para a diplomata, apesar de Portugal ser um país formado, em sua maioria, por mulheres que gerem suas casas e empresas com grande eficácia, as leis de paridade de gênero não são cumpridas, e há um fosso salarial entre os dois gêneros, além de elevado índice de violência doméstica. Segundo ela, é preciso uma mulher na presidência para vigiar e exigir o respeito às leis. Identificada com os ciganos, ela conta com o voto em massa da comunidade, que tem cerca de 50 mil residentes no país, e é alvo de discriminação.

Questionada sobre por que os brasileiros que têm igualdade de direitos políticos em Portugal deveriam também votar nela, Ana Gomes reconhece que a comunidade brasileira também é vítima de xenofobia em terras lusitanas. Ela cita o caso das denúncias de maus-tratos feitas por brasileiras contra agentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) no Aeroporto de Lisboa, além da cobrança de mensalidades mais caras para brasileiros em universidades portuguesas.

"Não se pode continuar a submetê-los a práticas sinistras como aquelas que vemos no SEF. Não podemos continuar com políticas discriminatórias em relação aos nossos cidadãos brasileiros nas universidades, onde várias vezes pagam propinas [mensalidades] exorbitantes. Isso não é minimamente aceitável, porque é do nosso interesse acolher os brasileiros, integrá-los e aproveitar seus talentos, sua criatividade, a vitalidade e o rejuvenescimento que eles trazem à nossa sociedade, que tão carenciada está de combater o declínio demográfico", afirma Ana Gomes à Sputnik Brasil. 

A candidata também disse que, se eleita, não iria à posse de Bolsonaro em uma eventual reeleição do presidente do Brasil em 2022, diferentemente de Rebelo de Sousa, que compareceu a Brasília quando Bolsonaro assumiu o primeiro mandato, em 2019. Ana Gomes elogiou ainda o voto eletrônico, como um bom exemplo que vem do Brasil e que Portugal deveria ter seguido há muito tempo. 

© AFP 2022 / JOSE MANUEL RIBEIROEleições legislativas em Portugal
'Bolsonaro só semeia insegurança e violência', diz candidata à presidência de Portugal - Sputnik Brasil
Eleições legislativas em Portugal

Mais de 246 mil eleitores inscritos para votar antecipadamente

Apesar das medidas rígidas de confinamento em função da pandemia de COVID-19, no próximo domingo será permitida a circulação para as pessoas votarem manualmente. No último domingo (17), dos 246.880 eleitores inscritos para o voto antecipado, cerca de 83% compareceram às urnas, de acordo com dados provisórios do Ministério da Administração Interna (MAI). Como as seções eleitorais estavam concentradas em poucos lugares, houve longas filas. 

Mesmo quem estava inscrito e não compareceu à votação antecipada, terá uma nova oportunidade no dia 24. Outras 12.906 pessoas, entre idosos em asilos e pessoas em confinamento obrigatório por estarem infectadas com o coronavírus SARS-CoV-2, vão poder votar sem sair de casa. Nestas terça e quarta (19 e 20 de janeiro), equipes eleitorais vão providenciar os votos em domicílio àqueles que se inscreveram sob essas condições, de acordo com informações do MAI.  

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