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Como as recentes crises do governo modificaram a aprovação de Bolsonaro?

© REUTERS / Ueslei MarcelinoPresidente do Brasil, Jair Bolsonaro, participa de carreata a favor da intervenção militar e contra a quarentena, em Brasília, 19 de abril de 2020
Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, participa de carreata a favor da intervenção militar e contra a quarentena, em Brasília, 19 de abril de 2020 - Sputnik Brasil
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Diante da saída de Sergio Moro do governo e a divulgação de novas pesquisas de aprovação, Sputnik Brasil analisa a oscilação da popularidade do presidente Jair Bolsonaro diante das mais recentes crises políticas do país, bem como suas articulações políticas para sustentar o governo.

Uma pesquisa do Ibope de janeiro de 2019 mostrou que o presidente Jair Bolsonaro iniciou o seu governo com uma avaliação de "ótimo ou bom" de 49%, enquanto apenas 11% dos entrevistados responderam que seu governo era "ruim ou péssimo".

De lá pra cá, oito ministros saíram do governo, culminando na mais grave crise enfrentada por Bolsonaro com a demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça e da Segurança Pública na última sexta-feira (24). 

Acirramento da polaridade e base estável

A mais recente pesquisa do instituto Datafolha, publicada na última segunda-feira (27), dias após a demissão de Sergio Moro, mostrou que 45% são a favor da abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, 48% rejeitam a medida e 6% não souberam opinar.

O apoio em relação a um eventual pedido de renúncia também cresceu diante da mais recente crise do governo. De acordo com o Datafolha, 46% dos entrevistados apoiam um pedido de renúncia do presidente, enquanto 50% rejeitam a ideia. Na mesma pesquisa realizada entre os dias 1º e 3 de abril, esses números eram de 37% e 59%, respectivamente.

​A avaliação geral de Bolsonaro, no entanto, revelou ser mais estável em comparação com última pesquisa feita em dezembro de 2019. O presidente foi avaliado como bom ou ótimo por 33%, regular por 26% e ruim ou péssimo por 38%. Em dezembro, estes números eram de 30%, 32% e 36%.

O cientista Político e professor da UERJ, Geraldo Tadeu Monteiro, em entrevista à Sputnik Brasil, destacou que o maior efeito da demissão de Sergio Moro foi a diminuição da indiferença em relação ao governo. 

"A última pesquisa do Datafolha mostrou que ainda há uma sustentação, e na verdade houve uma polarização das posições. As pessoas que acham o governo ruim ou péssimo cresceram, foi de 33 para 38%, e aqueles que acham o governo ótimo ou bom foram de 30 para 33%, então houve uma diminuição daqueles que consideram o governo regular. Cada vez menos pessoas ficam indiferentes ao governo Bolsonaro", analisou o especialista.

Efeitos da demissão de Sergio Moro

Na manhã de sexta-feira (24), Sergio Moro pediu demissão do cargo após a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, que, segundo o ex-juiz, mostrava uma interferência do presidente na Polícia Federal.

O discurso de Bolsonaro após a demissão de Moro foi marcado pela acusação de que o ex-ministro afirmou que a troca de Valeixo poderia ocorrer somente em troca de um assento no STF. O pronunciamento do presidente foi acompanhado por panelaços em diversas capitais do país.

O cientista Político Geraldo Tadeu Monteiro observou que a saída de um ministro popular como o Sergio Moro gerou uma turbulência em parte da base de apoio do presidente. De acordo com ele, Sergio Moro havia adquirido uma "aura de paladino da Justiça, de incorruptível, e era o garantidor da continuidade do projeto lavajatista".

"Com certeza a perda do ex-ministro Sergio Moro na base de sustentação do presidente Bolsonaro é de natureza a criar uma dissidência maior. Sem dúvida Sergio Moro tem capital político próprio, construído ao longo de sua atividade como juiz da Operação Lava Jato, que simbolizou o combate à corrupção", argumentou.

Já o cientista político Paulo Baía, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou à Sputnik Brasil que, apesar de sua popularidade, o ex-ministro enfrenta resistência no Congresso Nacional.

"Sergio Moro tem um enorme prestígio junto à sociedade, junto ao poder judiciário, junto ao Ministério Público e junto às polícias, mas ele sofre resistências, ressentimentos e rejeições muito grandes no parlamento, tanto na Câmara dos Deputados, quanto no Senado", observou.

Na troca de acusações entre Sergio Moro e Jair Bolsonaro, após a demissão do ex-ministro, a resistência que Moro enfrenta no Congresso Nacional abre uma margem de negociação para o presidente aumentar sua base de apoio no parlamento. 

Aceno de Bolsonaro ao 'centrão'

Com uma dificuldade de construir uma base no Congresso Nacional durante o governo, nas últimas semanas o presidente Jair Bolsonaro acenou para uma aproximação com o chamado centrão (bloco da Câmara que reúne legendas como PP, PL, Republicanos, PSD e PTB), com a possibilidade de indicações do bloco para cargos em ministérios.

A articulação do presidente com o centrão é vista como uma forma do presidente Bolsonaro se blindar no Congresso, caso as acusações feitas pelo ex-ministro Sergio Moro sobre uma suposta interferência do presidente na Polícia Federal, resultem em um eventual processo de impeachment.

​Vale lembrar que, formado por cerca de 200 dos 513 deputados da Câmara, o centrão buscou minar os projetos de Sergio Moro enquanto este assumia o comando do Ministério da Justiça, tendo em vista que o ex-juiz foi responsável por diversas operações que levaram siglas do centrão a julgamento no âmbito da Operação Lava Jato.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), por sua vez, afirmou na última terça-feira (28) que o diálogo de Bolsonaro com integrantes do centrão pode resultar na formação de uma "base do governo" na Câmara.

"No parlamento é natural que haja base [do governo], oposição e independentes. Não muda nada a minha relação com o governo, com nenhum partido, continua a mesma. Só que agora, de fato, uma parte, de forma objetiva, pode ser parte de uma base do governo", disse Maia.

Base sólida sustenta o governo?

O especialista em Ciência Política e professor do Instituto Mauá de Tecnologia, Rodrigo Fernando Gallo, disse à Sputnik Brasil que a aproximação de Bolsonaro com o centrão deve levar em consideração que o discurso criado até aqui pelo presidente é de "forte oposição àquilo que ele mesmo tem chamado de política tradicional ou velha política".

"Para não se indispor com sua base eleitoral, que o elegeu com essa ideia de combate à velha política, Bolsonaro precisa mostrar que os acordos com os partidos do centro talvez sejam essenciais para que ele não perca a governabilidade. Do contrário, essa aproximação pode ruir sua base, que já sofreu um abalo parcial com a saída de Sérgio Moro do governo", avaliou Rodrigo Gallo.

De acordo com ele, a aproximação tem uma importância fundamental, porque apesar de ter um eleitorado fiel que corresponde a um terço dos eleitores, o processo de impeachment no Brasil tem base legislativa.

"Isso significa que se o presidente não contar com o apoio da maioria dos parlamentares, além de ter dificuldades para governar ele também pode ser alvo de um processo de impedimento - mesmo contando com alguma base popular", destacou.

"A base popular é importante. Como impeachment é processo legislativo, os parlamentares certamente vão olhar para as pesquisas de opinião pública para saber o tamanho do eleitorado que rejeita o processo - porque esses deputados e senadores vão ter que pedir votos num futuro próximo. Então ter uma base estável pode ajudar a afastar o processo de impeachment", completou o especialista.

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