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'Segunda-Feira Negra': veriam Brasil e resto do mundo repetição da crise de 2008?

© REUTERS / Aly SongTemperatura corporal sendo medida dentro do edifício da Bolsa de Xangai, quando o país é atingido por um novo surto de coronavírus, em Xangai, China, 28 de fevereiro de 2020
Temperatura corporal sendo medida dentro do edifício da Bolsa de Xangai, quando o país é atingido por um novo surto de coronavírus, em Xangai, China, 28 de fevereiro de 2020 - Sputnik Brasil
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O dia 9 de março foi considerado uma "Segunda-Feira Negra" para as bolsas mundiais, que registraram quedas acentuadas devido ao colapso dos preços do petróleo, somado à propagação do coronavírus, o que levou o mercado financeiro global a mergulhar em seu pior momento desde a crise econômica de 2008.

A Sputnik Brasil explica a raiz do problema, como esses fatores de risco atrapalham a economia a nível nacional e internacional e suas perspectivas de recuperação.

O mundo deve preparar-se para uma nova crise financeira, que pode ser mais significativa do que a anterior, segundo vários especialistas, como Jesse Colombo, o economista que previu o colapso de 2008. Agora o especialista aponta para a existência das chamadas "bolhas" nos mercados imobiliários europeus e acionistas americanos, que podem explodir a qualquer momento. Colombo acredita que o surto de coronavírus poderia ser o "gatilho" para uma nova crise, e que esta pode ser ainda pior do que a que ele previu em 2008, porque, segundo seus dados, a dívida total em diferentes segmentos aumentou em quase cem trilhões de dólares.

Coronavírus e guerra de preços do petróleo

Desde o início da semana, os mercados bolsistas e petrolíferos mundiais têm experimentado uma volatilidade notável em meio à queda dos preços do petróleo e dos riscos em torno do coronavírus. Em 9 de março, os índices de ações caíram em média de 7 a 8%, e no dia seguinte as bolsas americanas fecharam com um aumento de 5%, enquanto os mercados europeus mostraram um declínio.

O coronavírus continua sendo um grande risco, pois as medidas de quarentena têm um impacto negativo em muitas áreas da economia, incluindo o transporte e a produção. Uma recente tensão no mercado petrolífero, após o desentendimento na aliança da OPEP+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados), veio acrescentar-se a isto.

Os preços mundiais do petróleo caíram quase um terço na segunda-feira, após a notícia de que na reunião da OPEP+ na sexta-feira (6) não conseguiu se chegar a um acordo sobre a alteração dos parâmetros do mesmo ou sobre sua prorrogação. Depois disso, as taxas do dólar e do euro no leilão global aumentaram.

A forte queda no preço do petróleo foi atribuída à decisão da Arábia Saudita (o maior exportador de petróleo do mundo) de aumentar substancialmente sua produção e começar a oferecer nos mercados valores baixos do petróleo bruto.

O professor do Ibmec-SP, economista Alexandre Cabral, em entrevista à Sputnik Brasil, culpou a guerra de preços lançada pela Arábia Saudita por essa instabilidade, que agravou ainda mais a economia mundial que já vinha sofrendo em decorrência do surto do novo coronavírus.

© REUTERS / Andrew KellyNegociadores trabalham no andar da Bolsa de Nova York (NYSE), nos EUA, em 10 de março de 2020
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Negociadores trabalham no andar da Bolsa de Nova York (NYSE), nos EUA, em 10 de março de 2020

Na opinião do doutor em geopolítica Philippe Sébille-Lopez, todos os países terão pontos de vista diferentes em relação à crise do petróleo.

"No que diz respeito à crise do petróleo, cada país terá sua própria visão das suas causas. Trump acusa a Arábia Saudita e a Rússia pela crise atual e podemos dizer que esta é uma das razões. Mas se voltarmos um pouco atrás no tempo, outra razão é precisamente o aumento da produção de óleo de xisto nos EUA. Tudo depende do ângulo a partir do qual se olha para as coisas", declarou ele à Sputnik França.

"A Arábia Saudita está respondendo à recusa da Rússia, e a Rússia se recusa precisamente porque, desde há vários anos, cada vez que a produção de petróleo de xisto dos EUA aumenta, a OPEP mais a Rússia e uma dezena de outros países reduzem suas quotas de produção", complementou o especialista em energia.

Impacto nos mercados financeiros globais

Esta situação em torno do petróleo levou à acentuada queda nas principais bolsas por todo o mundo. A queda acentuada levou inclusive o mercado a um circuit breaker americano, mecanismo usado para "paralisar" as negociações quando a bolsa cai mais de 10%.

As bolsas voltaram a cair depois que a OMS declarou o surto como sendo pandemia, e os EUA proibiram todos os voos europeus.

As ações europeias abriram acentuadamente em queda nesta quinta-feira (12), após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter anunciado a suspensão por 30 dias de viagens a partir da Europa por causa da pandemia de coronavírus. Os principais índices operam com baixa de mais de 5%.

As bolsas asiáticas também fecharam em queda, com o índice Hang Seng da Bolsa de Hong Kong registrando queda de 3,66% pouco antes do fechamento.

Perda de confiança do consumidor e do investidor, desaceleração da demanda global, aumento da dívida e ansiedade generalizada do mercado são apenas alguns dos problemas que embaçam o horizonte econômico global.

Como crise afetou o Brasil

O mercado brasileiro, acompanhando as tendências do cenário internacional, vem sendo fortemente prejudicado à medida que o surto do novo vírus se propaga nas atividades econômicas.

A declaração da OMS de classificar o surto de coronavírus como pandemia também afetou o mercado financeiro brasileiro e paralisou as negociações. Esse foi o segundo circuit breaker da semana, com a bolsa caindo 12%, mas fechando em queda de 7%.

Além do coronavírus, o mercado segue preocupado com o preço em queda do petróleo. A Petrobras fechou o dia com recuo de 11,71% em suas ações, segundo os dados do principal índice da bolsa de valores brasileira, a B3.

Se o surto desse temido vírus realmente continuar subindo de patamar, há temores de que seu efeito sobre a economia mundial seja desastroso. Nesse contexto, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil poderia apresentar uma taxa de crescimento de apenas 1% em 2020 — hoje, a projeção oficial do governo é de 2,10%.

© REUTERS / Dado RuvicTubo de ensaio rotulado positivo para teste de coronavírus na frente de notas de dólar americano
'Segunda-Feira Negra': veriam Brasil e resto do mundo repetição da crise de 2008? - Sputnik Brasil
Tubo de ensaio rotulado positivo para teste de coronavírus na frente de notas de dólar americano

"A grande notícia, agora, voltou a ser o coronavírus. A Organização Mundial da Saúde decretou aí uma pandemia e, então, os mercados ficaram com muito mais medo, por conta disso", declarou em entrevista à Sputnik Brasil o especialista Caio Fernandez, diretor da consultoria de investimentos Invest.

Também para o economista Alexandre Cabral, a economia mundial já vinha sofrendo em decorrência do surto do novo coronavírus, que reduziu as atividades econômicas em várias partes do mundo, mas que agora a situação só se agravou com este novo problema. "Não é só a briga entre Arábia Saudita e Rússia. Outros países, em paralelo, também vão sentir essa pancadaria."

"A Petrobras também tem outra preocupação importante, que é o câmbio. Tem muita coisa que ela importa em dólares. Com o dólar disparando, várias importações dela vão ficar bem caras. O custo operacional vai ficar bem caro", opinou Cabral à Sputnik Brasil.

Devido ao nível da queda nos valores do barril de petróleo, as ações da Petrobras foram as que mais sentiram o caos, perdendo R$ 91,12 bilhões em valor de mercado na "Segunda-Feira Negra", representando a maior queda em 34 anos. Já a Vale viu seus papéis caírem 15,20% e perdeu R$ 34,77 bilhões em valor de mercado, segundo a revista IstoÉ.

Os bancos seguiram a lista das empresas que mais sofreram com as quedas nas bolsas. O Bradesco perdeu R$ 18,3 bilhões, seguido por Itaú Unibanco com R$ 15,9 bilhões, Banco do Brasil (R$ 13,3 bilhões) e Santander (R$ 12,7 bilhões).

Entre as 285 empresas listadas na B3 a perda total foi de R$ 431 bilhões, acumulando saldo negativo que ultrapassa R$ 1 trilhão somente neste ano.

Previsões de recuperação

No momento, segundo analistas, é difícil dizer o que poderia melhorar o ambiente nos mercados e interromper os prejuízos.

A economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gita Gopinath, afirmou que será necessária uma resposta internacional coordenada para conter os danos econômicos da epidemia de coronavírus, envolvendo medidas de políticas monetária e fiscal.

Para o estrategista da INVX Global, Eduardo Velho, tanto o surto de coronavírus quanto o choque do petróleo serão resolvidos. No segundo caso, ele aposta na disposição da Rússia de negociar.

"A perspectiva de curtíssimo prazo ainda é de uma piora adicional. Mas uma ação coordenada dos bancos centrais, em política monetária e cambial, limita isso", comentou Eduardo, citado pela BBC.

"A COVID-19, uma emergência de saúde mundial, interrompeu a atividade econômica na China e pode colocar em perigo a recuperação mundial", advertiu anteriormente a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva.

A duração e a profundidade da crise dependerão da extensão do vírus, do tempo necessário para encontrar uma vacina, do nível de ansiedade na população e do impacto das medidas tomadas para controlar a epidemia nas economias, segundo o relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio, Investimento e Desenvolvimento (UNCTAD).

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