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Indústria do Brasil perde relevância e tende a sair da 'elite' mundial, diz economista

© Folhapress / Daniel Marenco/FolhapressLinha de produção da MAN Caminhões, em Resende, no Rio de Janeiro, em 17 de julho de 2012.
Linha de produção da MAN Caminhões, em Resende, no Rio de Janeiro, em 17 de julho de 2012. - Sputnik Brasil
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A indústria brasileira está encolhendo e perdendo participação no cenário global. Para analisar o assunto a Sputnik Brasil entrevistou Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI).

Cagnin é autor de um estudo que aponta que o Brasil poderá deixar o ranking dos 10 países mais industrializados - lista elaborada pela Organização para o Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas (UNIDO), agência da Organização das Nações Unidas (ONU).

"Especificamente, ele [o estudo] vai ganhando bastante relevância dado o ambiente hostil ao desenvolvimento, ao crescimento industrial do Brasil", aponta o economista em entrevista à Sputnik Brasil.

Cagnin acrescenta que as dificuldades para a indústria brasileira têm aumentado desde 2014.

Segundo o economista, há uma possibilidades real de o Brasil deixar de figurar entre as economias mais industrializadas do mundo.

"Se mantivermos a trajetória que temos mostrado na última década, por exemplo, é possível que a gente saia desse rol, da elite, do batalhão de elite da indústria mundial", afirma.

Os motivos, segundo Cagnin, são variados. Entre eles, o baixo desempenho da economia brasileira e o avanço de outras economias ao mesmo tempo.

Cagnin cita o exemplo da Indonésia, que deve ultrapassar o Brasil em breve no desempenho da indústria e faz parte de um grupo de países do leste asiático que tem mostrado bons resultados nesse setor.

O recuo da indústria brasileira

O economista Rafael Cagnin afirma que a indústria no Brasil vem tendo um duplo movimento de perda de pressão.

"Internamente, que é aquilo que a gente chama em economia de desindustrialização, ou seja, a indústria vem perdendo participação no PIB brasileiro, isso de forma bastante acentuada e de forma muito mais rápida do que outros países", diz.

A outra face dessa, diz Cagnin, é a perda de participação dentro do panorama internacional da indústria, o que se dá de duas formas.

"Um, por perda muito precoce de peso dos setores industriais na estrutura produtiva brasileira [...]. E um outro fator que muitos setores industriais importantes para a indústria de manufatura contemporânea têm uma participação muito pequena no Brasil. O Brasil não conseguiu desenvolver alguns ramos da fronteira tecnológica internamente", aponta.

Cagnin destaca que o Brasil tem pouca incidência em tecnologias de ponta e tem um parque industrial atrasado em relação a concorrentes como de países do leste asiático.

Falta de continuidade e competição desleal

O economista explica que um dos fatores que construíram esse cenário está nas políticas de investimento em Ciência e Tecnologia no Brasil, que "são descontinuadas muito rapidamente".

"A gente não tem essa tradição de grandes projetos na área que durem décadas, por exemplo. A gente já conseguiu fazer isso concretamente, por exemplo, na indústria do petróleo no Brasil com a Petrobras [...], mesmo em aviação quando a Embraer ainda era uma empresa estatal, por exemplo, a gente desenvolveu durante anos uma competência na área", aponta.

Cagnin acrescenta ainda outros exemplos, como no caso dos combustíveis, com o desenvolvimento do Etanol.

"Então veja, a gente já conseguiu fazer políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação mais consistentes, mais estáveis e com resultados mais satisfatórios", afirma.

O economista explica que essa capacidade foi sendo perdida a partir da década de 1980, quando começa o declínio da indústria brasileira.

Essa trajetória decadente também pode ser atribuída a outros fatores, como o regime macroeconômico com taxas de câmbio voláteis e juros altos.

"Isso dispõe o sistema industrial a uma concorrência quase desleal frente aos similares estrangeiros. A gente tem um conjunto de disposições que prejudicam a nossa competitividade, como por exemplo a a tributária brasileira", diz.

Prognóstico negativo

A situação da indústria brasileira, que acumula queda de 1,7% em 2019, não é das melhores, segundo o economista, que ressalta que não houve recuperação do triênio negativo de 2014, 2015 e 2016.

Em comparação, a atividade industrial brasileira caiu 15% desde 2014, enquanto cresceu 10% no resto do mundo.

Segundo Cagnin, além dos fatores apresentados - falta de políticas de longo prazo, estrutura econômica pouco competitiva e recuperação lenta - é grave também a comparação com o cenário internacional.

"É um problema ainda mais grave o fato de que no restante do mundo o setor industrial vem passando por transformações tecnológicas das mais importantes", aponta, referindo-se à chamada "indústria 4.0", sinônimo de inovação mundo afora.

"No ambiente que a economia brasileira está hoje - baixíssimo crescimento - a indústria que tem interrompida essa recuperação em 2019 tem menos chances de acompanhar esse movimento de profunda transformação que está ocorrendo no resto do mundo", explica.

Para Cagnin, mantida a direção atual, a indústria brasileira tende a consolidar sua perda de relevância diante do resto dos países.

"E se não acompanhar, o que a gente vai ver é um agravamento dessa trajetória de queda de participação da indústria no total mundial, e aí sacramentando cada vez mais a expulsão do Brasil desse batalhão de elite da indústria mundial", conclui.

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