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O que o 'separatismo' do Sul do Brasil tem a ver com a independência da Catalunha?

© AP Photo / Emilio MorenattiAs bandeiras estreladas que simbolizam independência da Catalunha durante os protestos de setembro de 2014, Barcelona, Espanha
As bandeiras estreladas que simbolizam independência da Catalunha durante os protestos de setembro de 2014, Barcelona, Espanha - Sputnik Brasil
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Em meio à pressão exercida pela tentativa de independência da Catalunha, na Espanha, vem ganhando força, no Brasil, um sentimento separatista na região Sul do país. Mas o que há de semelhante entre os dois movimentos? É possível que o Brasil tenha que lidar, em breve, com um cenário parecido com o espanhol?

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No último domingo, 1 de outubro, a comunidade autônoma da Catalunha, região historicamente descontente por fazer fazer parte da Espanha, realizou um referendo no qual mais de 90% dos participantes votaram a favor da emancipação. A consulta, que despertou a fúria do poder central espanhol, foi resultado de um processo iniciado quando da vitória da coligação Juntos pelo Sim nas eleições de 2015, que tiveram a causa independentista como principal fator de mobilização. 

Embora não haja um consenso entre os historiadores sobre a condição da Catalunha como um Estado independente em algum momento da história, é de conhecimento geral que, antes de 1714, ano que marcou o final da Guerra da Sucessão Espanhola, a região gozava de uma autonomia muito grande, em vários níveis, em relação ao governo espanhol, que acabou sendo perdida com a confirmação de Filipe V como rei. Mais tarde, já no século XIX, os catalães passam a experimentar um forte sentimento nacionalista, marcado por uma língua própria, cultura própria e pelo desenvolvimento industrial, que faria da região um motor econômico da Espanha.

Nos anos 1930, a Catalunha conquista novamente uma autonomia política que é logo suprimida pela subida ao poder do general Francisco Franco, responsável por uma ditadura que duraria quatro décadas, com todo o poder concentrado em Madri. A democratização do país, nos anos 1970, devolveu a autonomia à região, mas a reivindicação independentista não foi muito expressiva, até 2006, quando as autoridades catalãs adotaram um novo estatuto para a comunidade, definindo a Catalunha como nação. De lá pra cá, o desejo de separação ganhou força principalmente após a crise econômica que atingiu a Espanha, gerando ainda mais revolta entre os catalães por conta do déficit orçamentário, estimado em 16 bilhões de euros. 

E o Sul com isso?

Motivados pelo referendo catalão, representantes do movimento O Sul é o Meu País marcaram para o próximo final de semana a realização de uma consulta popular sobre a possível emancipação dos três estados da região do resto do Brasil, com o objetivo de criar uma nova pátria, formada por Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. 

De acordo com seus organizadores, a medida tem caráter pacífico e democrático, embora não tenha valor legal, já que não tem aprovação do Congresso Nacional. Ao contrário do que muitos afirmam, segundo Celso Deucher, um dos fundadores do movimento, a história emancipatória do Sul do Brasil teria tido início muito antes do que se imagina, muito antes até da consolidação das atuais fronteiras do país. Para ele, a reivindicação de hoje dos sulistas seria uma espécie de nova versão de uma luta inaugurada em meados do século XVI, no Guaíra, e fortalecida mais tarde nas revoluções Farroupilha e Federalista. 

Ao contrário da Catalunha, os sulistas brasileiros se afirmam, culturalmente, numa diversidade que, segundo eles, seria característica da região, onde, se não fosse o Estado brasileiro, poderiam falar fluentemente o guarani e seus dialetos, o espanhol, o italiano, o polonês, o alemão e o japonês, além do próprio português. 

"Um povo unido pela sua diversidade étnica e cultural. Por isso nosso orgulho de lutarmos juntos moldando nossa unidade pela nossa diversidade", diz Deucher, descrevendo os ativistas do Sul como "herdeiros de uma tradição de resistência a opressão do poder central, hoje encastelado em Brasília". 

Se não há uma unidade cultural ou linguística envolvida no desejo de emancipação, o que mais motiva os militantes do O Sul é o Meu País?

Em recente entrevista, Celso Deucher utilizou o argumento econômico, fiscal, o mesmo que desencadeou a atual insatisfação popular na Catalunha, para justificar a separação dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. De acordo com ele, sob a liderança de Brasília, a região sofre com o preconceito fiscal e a perda de recursos, sendo relegada a um nível de quase "inexistência" no país, apesar dos seus quase 30 milhões de habitantes e de sua renda per capita maior. 

Em resumo, a lógica sulista de emancipação é a de que uma região que, ao contrário da Catalunha, não possui uma unidade cultural e linguística nem experimentou autonomias políticas e administrativas oficialmente reconhecidas pelo Estado brasileiro tem o direito de cogitar a independência com base em um sentimento de discriminação fiscal e na ideia de que suas diversidades culturais formariam uma unidade que afastaria significativamente o Sul do resto do Brasil. 

Tenha a ver ou não com a situação da Catalunha, o movimento de emancipação do Sul do Brasil realizará o seu plebiscito no próximo sábado, 7, das 8h às 20h, em diferentes cidades dos três estados. Os locais de votação podem ser conferidos no endereço plebisul.sullivre.org.

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