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Especialista: Trump age como se Venezuela fosse republiqueta de bananas

© AFP 2021 / Jim Watson e Federico ParraNicolás Maduro pede interferência do Papa junto a Trump para evitar uma invasão da Venezuela
Nicolás Maduro pede interferência do Papa junto a Trump para evitar uma invasão da Venezuela - Sputnik Brasil
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"Donald Trump age com a Venezuela como se ela fosse uma republiqueta de bananas, quintal dos Estados Unidos. Isso faz com que as reações de Nicolás Maduro sejam sempre fortes e intensas." A avaliação é do professor de Relações Internacionais Guilherme Casarões, da Fundação Getúlio Vargas (SP), diante das recentes declarações do líder venezuelano.

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Na segunda-feira, 18, véspera da instalação da 72ª Assembleia Geral da ONU, Donald Trump ofereceu jantar aos presidentes de Brasil (Michel Temer), Colômbia (Juan Manuel Santos), Panamá (Juan Carlos Varela) e à vice-presidente da Argentina (Gabriela Michetti). Durante a recepção, Trump não poupou críticas a Nicolás Maduro e ao seu governo. Na terça-feira, 19, Trump aumentou o tom das críticas ao discursar na Assembleia Geral. Além de dizer que destruirá "totalmente" a Coreia do Norte caso o líder Kim Jong-un ataque território dos Estados Unidos ou de aliados, Trump tornou a criticar Maduro, afirmando que ele impôs uma "ditadura socialista" à Venezuela, e enfatizou a possibilidade de intervir no país. Diante disso, Maduro classificou as palavras do presidente americano como ameaça à soberania, à paz e à integridade da Venezuela, se voltando contra também os líderes latino-americanos que participaram do encontro com Trump, por entender que eles deveriam ter reagido com veemência à fala do presidente dos Estados Unidos.    

Diante de todos esses fatos, a Sputnik Brasil pediu ao Professor Guilherme Casarões para analisar essa situação e a postura de Nicolás Maduro em relação aos demais países das Américas:

"Maduro vem levantando o tom contra os seus vizinhos, contra os países do Hemisfério [Sul] já há algum tempo. É uma reação característica de um líder que está perdendo o controle dos caminhos da política no país. A retórica, quanto mais inflamada ela é, maior é a percepção talvez de que ele está, realmente, precisando jogar com essa coisa da ameaça externa para poder, enfim, controlar sua população e conter os ânimos dentro do país, construindo essa imagem do inimigo externo", opina o professor.

De acordo com Casarões, a ameaça à soberania no caso da Venezuela tem uma função retórica muito forte e, de fato, há uma movimentação, não só por parte de Donald Trump, como também por parte de alguns líderes latino-americanos, de buscar uma solução que passe pelo uso da força e pela imposição da democracia, o que ele considera "uma coisa complicadíssima (se for pensar pela experiência internacional de ontem e de hoje)".

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"Então, eu acho que o Maduro tem problemas estruturais na liderança do país e na condução da política local. Mas, em algum sentido, a maneira como está se discutindo, à luz do dia, a questão venezuelana, por parte das lideranças latino-americanas e dos Estados Unidos, abre aí uma possibilidade para o Maduro continuar se considerando uma vítima do imperialismo, de uma conspiração hemisférica para tirá-lo do poder. E isso o fortalece."

Na entrevista exclusiva concedida à Sputnik Brasil, Guilherme Casarões disse que o erro de Trump é tratar a Venezuela como republiqueta de bananas:

"O problema é que desde que ele [Trump] chegou ao poder, e mesmo antes, quando já fazia comentários sobre isso, demonstra que ele tem uma leitura sobre a Venezuela como se [ela] fosse uma republiqueta de bananas, quintal dos Estados Unidos, e que poderia ser objeto, inclusive, de intervenção militar caso necessário fosse para manter a ordem e, vamos dizer, para manter normal o fluxo de petróleo da Venezuela para os Estados Unidos", disse o especialista. "Então, essa retórica de Trump [de intervenção na Venezuela] realmente não ajuda. Eu, pessoalmente, tenho a leitura de que a gente está diante, no caso venezuelano, de um regime absolutamente tensionado, um regime fragilizado. O Maduro não é um Chávez. A maneira da condução da política venezuelana realmente degringolou nos últimos quatro anos, desde a morte de Hugo Chávez, em 5 de março de 2013, e o que a gente observa de fato, diante da incapacidade de se estabelecer um pacto nacional ou de um mecanismo mínimo de governança na Venezuela, é que estamos vendo um regime que tem muito pouco a perder daqui para a frente."

Para Casarões, qualquer declaração que soe como ameaça à integridade venezuelana ou que possa colocar em risco a sobrevivência do governo Maduro vai ser confrontada de maneira veemente.

"Quanto mais esse regime não tiver nada a perder, mais explosiva vai ser a postura do presidente Maduro e mais instabilidade a Venezuela vai trazer para a ordem regional, o que é um problema para todo o mundo, um problema inclusive para o Brasil."

Sobre o Brasil, o professor disse lamentar o fato de o governo brasileiro estar perdendo a oportunidade para, diante de sua grandeza continental, afirmar uma postura conciliatória. Na opinião do especialista, o governo brasileiro deveria demonstrar capacidade de superação diante das barreiras ideológicas venezuelanas e acenar com a possibilidade (ou pelo menos com a tentativa) de estabelecer um diálogo, de modo a acalmar as tensões e minimizar as possibilidades de confronto real entre Estados Unidos e Venezuela.

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