Solidão de Washington: por que a Europa recusa apoiar os EUA

© AFP 2022 / FILES DAVID FURSTOs soldados do exército dos EUA da 101ª Divisão Aerotransportada
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O presidente estadunidense, Donald Trump, interrompeu suas férias, que começaram no dia 4 de agosto (e que deveriam durar até 21 de agosto), e está voltando a Washington, prometendo se focar nos "problemas urgentes do comércio e assuntos militares".

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Como será no caso do comércio, ainda não está claro, mas quanto aos assuntos militares, eles estão sendo resolvidos mesmo sem Trump. A mídia comunica que centenas de unidades de veículos blindados estão sendo carregadas em navios de desembarque na costa oriental e ocidental, dois grupos de porta-aviões se estão dirigindo em direção ao litoral coreano, o Japão prometeu derrubar os mísseis norte-coreanos, caso eles sobrevoem seu território, e as Forças Armadas sul-coreanas iniciaram seu posicionamento perto da fronteira com a Coreia do Norte.

O cheiro a uma guerra está claramente presente no ar. Uma guerra no formato necessário para os EUA. Pyongyang é um inimigo "cômodo". Ele certamente possui armas nucleares e ninguém poderá provar que Washington está mentindo, como já aconteceu nos casos do Iraque, Síria ou Líbia. Ele tem um exército grande, que obviamente é capaz de opor uma resistência significativa ao agressor, mas a Marinha da Coreia do Norte não é capaz de realizar operações longe de seu litoral, por conseguinte, não pode representar uma ameaça às vias de comunicação estratégicas dos EUA.

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Isso é o mais importante. Provavelmente, os norte-coreanos vão disparar mísseis nucleares contra os grupos de porta-aviões norte-americanos, talvez estes possam até fazer desaparecer a Coreia do Sul da face da terra. Os japoneses podem ser afetados também, mas desde 1945 que os norte-americanos os ensinam a lidar com ataques nucleares de forma filosófica. Mesmo que algum míssil norte-coreano atinja Guam, os estadunidenses se acostumaram a sacrificar Pearl Harbor em nome de objetivos políticos superiores.

Depois, já se pode com prazer e conforto bombardear o território da Coreia do Norte, mandando os aliados combaterem e morrerem no terreno.

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Tudo seria bem elaborado, mas aí é que está o busílis. A China revelou suas cartas e comunicou que, caso a Coreia do Norte realize um golpe preventivo contra os EUA, Pequim não vai defendê-la, mas se Washington tentar atacar primeiro, a China vai interferir e vai apoiar os norte-coreanos. Não é agradável. Os chineses, além de possuírem um arsenal nuclear suficiente para destruir todo a costa ocidental, são também capazes de usar sua Marinha para fechar as rotas comerciais do oceano Pacífico para o Índico. É o bastante para paralisar completamente o comércio mundial.

Além do mais, por trás da China está a Rússia, Washington não pode ter certeza quanto à reação de Moscou. Ela pode apelar ao comedimento, a um cessar-fogo, observar os EUA sangrando na luta contra a China, e depois pode interferir e acabar de matar, mas também pode não interferir, caso ache as vitimas por parte de Washington suficientes para minimizar sua influência geopolítica num mundo pós-guerra. A China não é a Coreia do Norte, não tem como os EUA a destruírem.

Claro que também há a opção de atacar todos de uma vez, incluindo Moscou. Mas os EUA não vão aguentar. Um país que ficou paralisado por duas semanas depois do furacão Katrina, que destruiu parcialmente uma cidade norte-americana não muito grande, não poderia sobreviver a um ataque nuclear com dezenas de milhões de vítimas e ao colapso de toda a infraestrutura industrial e de transporte.

Porém, as preparações militares de Washington passaram dos limites, e agora qualquer incidente pode desempenhar um papel fatídico.

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A fim de garantir o afastamento da Rússia desse conflito, os EUA desejariam a envolver numa crise no "teatro de operações" europeu. Mas para fazer isso, uma crise à escala ucraniana não é suficiente, bem como a juntar a uma potencial crise báltica. É necessária uma confrontação completa da Rússia contra a OTAN, à beira do conflito militar, mas sem atravessar a "linha vermelha". Neste caso, a Rússia precisaria diminuir sua atividade no Oriente, o que daria a Washington a esperança de que a China também agiria com mais cuidado. Então, Washington receberia uma oportunidade para realizar um ataque contra a Coreia do Norte sem risco de uma guerra em grande escala.

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Mas os aliados dos EUA na Europa não têm vontade de arriscar. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, no meio da crise norte-coreana afirmou que a política estadunidense tem sido completamente irresponsável, ela não corresponde aos valores ocidentais universais, e até não há como entender quem toma decisões em Washington. Vale ressaltar que, ainda antes de ele ter feito essa declaração, a OTAN se afastou claramente da crise norte-coreana. Os aliados dos EUA na Europa afirmaram que a Coreia do Norte não faz parte da esfera de responsabilidade da OTAN, e estes não vão apoiar os estadunidenses nesse assunto.

Assim, por enquanto Washington está perdendo. A OTAN e a UE (com a liderança da Alemanha dentro dela) não desejam empolar a crise europeia só para aliviar a agressão norte-americana no Extremo Oriente. Além do mais, Berlim já se afastou da crise ucraniana, apesar de nos EUA já ter começado uma campanha de responsabilização de Kiev pela possível fuga de tecnologias nucleares para a Coreia do Norte. A Europa nem reagiu às afirmações do Irã sobre o aumento do financiamento do seu programa nuclear e sobre a possível saída do acordo nuclear.

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Vale ressaltar que umas semanas atrás os EUA introduziram sanções contra a Rússia, Irã e Coreia do Norte através de uma lei aprovada pelo Congresso e assinada por Trump. A Europa, que antigamente seguia na esteira da política externa estadunidense, ignorou completamente não apenas a tentativa dos EUA de reforçarem o confronto de um Ocidente consolidado com a Rússia. Ela também continuou em silêncio quanto ao assunto iraniano e claramente se recusou a ajudar os EUA na organização da agressão contra a Coreia do Norte.

É a primeira vez, durante todo o tempo do pós-guerra, que o mundo Ocidental ficou tão claramente dividido quanto à questão da guerra e da paz. É provável que desta vez os EUA também possam quebrar a resistência europeia. Mas não tem como recuperar o tempo e as forças a gastar com isso e Washington deve decidir rapidamente como agir nesta situação.

E esta decisão deve ser tomada em solidão, sem os aliados europeus, que fugiram do potencial campo de batalha e os EUA não têm tempo para os recuperar.

Rostislav Ischenko para a Sputnik

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