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Especialistas: Espionagem dos EUA sobre o Brasil foi parte da Guerra Fria

© AFP 2022 / HOFidel Castro e Lula
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A CIA (Agência Central de Inteligência americana) liberou um conjunto de informações com mais de 11.100 documentos revelando o teor da espionagem dos Estados Unidos sobre o Brasil entre os anos de 1940 e de 1990. Especialistas constataram que os documentos fazem parte de um arquivo com mais de 13 milhões de páginas.

O conjunto de documentos reunidos pela CIA enfatiza questões como o regime militar, instaurado no Brasil com a deposição do Presidente João Goulart, analisa a fundo o comportamento de Luiz Inácio Lula da Silva e seu relacionamento com Fidel Castro e minimiza casos de tortura cometidos por militares contra militantes de esquerda, inclusive padres que foram presos por organismos civis e militares.

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Para o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, todo este procedimento dos Estados Unidos em relação ao Brasil guarda íntima relação com a Guerra Fria – o clima de guerra latente que se instalou entre os Estados Unidos e a então União Soviética após a Segunda Guerra Mundial:

"Eu creio que a revelação desses dados mostra o que, de alguma maneira, todos nós já imaginávamos", diz o professor da FGV. "Existe, de fato, um sistema de acompanhamento e de espionagem do Governo norte-americano sobre países ao redor do mundo, e sobre o Brasil em particular."

Cláudio Couto observa que, na realidade, pelo que aparece nesses documentos, "o que nós vemos é que tudo aquilo que era espionado fazia sentido no contexto da Guerra Fria. Por exemplo: a aproximação de Lula e do PT com Cuba (Fidel Castro); a questão da repressão durante a ditadura militar; a simpatia pelo Governo Médici; e as perspectivas de duração do regime autoritário".

"Tudo isso", conclui o Professor Cláudio Couto, "fazia muito sentido naquele contexto de Guerra Fria, em que o alinhamento do Governo Militar brasileiro, ou mesmo antes disso, [o alinhamento] dos Governos brasileiros anteriores com os interesses norte-americanos era algo evidentemente importante para eles. Por isso, espionavam tudo aquilo que fazia sentido para essa questão."

Por sua vez, o historiador João Cláudio Pitillo, pesquisador do Núcleo das Américas na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), acentua que "o Brasil foi e é tratado pelos Estados Unidos como uma grande colônia", e que isso revela a "fragilidade do Estado brasileiro diante dos interesses norte-americanos."

Para Pitillo, embora os documentos só confirmem o que muitos no país já sabiam (a constante espionagem dos Estados Unidos sobre o Brasil), historicamente os documentos têm valor, pois atestam a veracidade de fatos que até então vinham sendo tratados como suposições.  

Particularmente sobre Lula e seu relacionamento com Cuba e Fidel Castro, João Cláudio Pitillo questiona:

"Se nós formos pegar a documentação que fala do Lula, de suas andanças e dos seus contatos internacionais, eu lhe pergunto: qual o interesse de monitorar isso? Para que se monitora isso? É óbvio que isso tem uma ação contundente, uma ação repressiva. É claro que os órgãos de segurança norte-americanos são onipotentes, onipresentes e oniscientes. E a fragilidade do Estado nacional brasileiro é que permite este tipo de ação. Eu não tenho dúvida nenhuma de que essa espionagem feita contra o então militante Lula tem a conivência direta do Estado brasileiro. Ainda mais naquele momento em que vivíamos uma ditadura voraz."  

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, que tornou públicas essas revelações, "em julho de 1986 a CIA produziu um relatório secreto, no qual tratou, em seis páginas, dos esforços do PT para deixar de ser um mero partido de operários para formar uma base de militância maior e conquistar eleitores mais jovens, além de ampliar contatos no exterior. Segundo a CIA, o líder do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, estava intensificando tratativas com o ditador de Cuba, Fidel Castro, de quem o petista seria franco admirador".

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