'ONU não deve ser sucursal da diplomacia americana'

© Joseph Eid/AFPAssad ONU
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Em uma longa entrevista à Rádio e Televisão Portuguesa (RTP), o presidente sírio, Bashar Assad, disse compartilhar a visão humanitária da ONU em relação à Síria, mas apelou para que o secretário-geral eleito, o português António Guterres, não transforme a Organização em "uma sucursal da diplomacia americana".

Assad reconhece que o país precisa do socorro de outros países, mas que isso vai além da entrega de bens para satisfazer as necessidades básicas do povo. Segundo o presidente sírio, não se pode falar em ajuda humanitária e apoiar o terrorismo ao mesmo tempo, por isso prevê que o novo secretário-geral terá dificuldades em coordenar os esforços de paz na região enquanto diversos países continuarem a apoiar os grupos terroristas na Síria. Na visão do dirigente, o apoio militar dado por Moscou ao exército sírio é baseado em valores como a soberania nacional e o respeito por outros povos e culturas. 

Indagado sobre o papel da Turquia no conflito, Assad acusou o presidente turco Recep Erdogan de ser "um megalômano, que vive na era otomana e de infiltrar terroristas na Síria". Já com relação ao presidente eleito Donald Trump, disse não ter muitas expectativas, uma vez que "diferentes lobbies vão influenciar qualquer presidente". Ainda assim, manifestou esperança de que os EUA sejam "imparciais, não interfiram em outros países e deixem de apoiar grupos terroristas".

Em entrevista à Sputnik Brasil, Ricardo Cabral, professor de Relações Internacionais, especialista em terrorismo global e membro da Escola de Guerra Naval, diz que António Guterres foi um excelente embaixador e soube cuidar da questão dos refugiados à frente da Acnur (agência da ONU).

"Devemos colocar o secretário-geral no seu devido lugar: ele é um elo entre a Assembléia Geral e as demandas da casa e do Conselho de Segurança. Cabe a ele levar essas demandas e conciliá-las com os interesses das grandes potências. Acho que ele vai fazer um trabalho positivo, mas devemos dar um tempo para ele e ver até onde pode ir, principalmente com a chegada da nova administração americana, já que lidar com Putin, Merkel e outros grandes atores ele já o faz há alguns anos."

Cabral diz que o diálogo com a grande quantidade de grupos rebeldes na Síria é um trabalho extremamente difícil, a começar pela definição do que são os chamados "rebeldes moderados", na medida em que o que pode ser moderado para os Estados Unidos pode não ser para o governo sírio. 

Presidente sírio Bashar Assad - Sputnik Brasil
Assad: Daesh começou a perder terreno apenas após o início da operação russa na Síria

"Esses grupos muitas vezes são de fachada. Existe um elemento forte que é uma guerra por procuração na Síria. Basta dizer que um dos grupos que combate o Estado Islâmico é a Al-Qaeda e o outro grupo, uma dissidência da própria Al-Qaeda, é a Frente de Conquista do Levante. Acredito também que a questão da ajuda humanitária muitas vezes serve como pausa para descanso desses grupos milicianos e recebimento de novos suprimentos e combatentes", diz, ressaltando ser importante haver um acordo entre os principais atores do conflito para que a população seja retirada, e nisso, segundo ele, Bashar Assad tem sido bastante intransigente.

Com relação aos discursos feitos por Donald Trump, quando ainda candidato, de que os EUA deveriam ter como prioridade a união com Rússia e Síria para maior enfrentamento do Daesh, e não como feito até agora, de tentar depor o presidente sírio a qualquer preço, Cabral diz que concorda com a posição do republicano, embora discorde dele em várias outras posições.

"Neste momento, o principal item de segurança no mundo é acabar com o terrorismo. O terror do Estado Islâmico em especial provoca mortes e destruição em larga escala e está se difundindo não só pelo Oriente Médio como por outras áreas do globo. Acabar com o Estado Islâmico tem que ser a prioridade. A permanência de Assad passa a ser secundária, pode ser vista num segundo momento. Eu (se fosse governo americano) trabalharia junto com Putin e Assad, sendo pragmático, e lá na frente a gente resolve de outra maneira. Para o terrorismo islâmico, a luta é contra 'os grandes satãs', que são os EUA, a Rússia e o Ocidente de modo geral", diz Cabral, observando que mesmo entre os países árabes há aqueles que financiam esses grupos, "como a Arábia Saudita e o Qatar".

A Sputnik Brasil também procurou a representação da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) no Brasil, que informou que não se pronunciaria sobre a entrevista porque, "para manter sua independência", tem por praxe não comentar entrevistas de cunho político.

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