Em memória de Letelier: como os EUA ajudaram a matar rival de Pinochet

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Quarenta anos atrás uma bomba explodiu no centro de Washington, o alvo do ataque era Orlando Letelier, diplomata chileno e ministro da Administração do ex-presidente Salvador Allende. O atentado foi sancionado pelo general Augusto Pinochet, que posteriormente chegou ao poder em um golpe de estado organizado pela CIA.

Victor Figueroa Clark, historiador chileno e autor do livro "Salvador Allende: Revolucionário Democrata", se juntou à Rádio Sputnik Internacional para falar sobre os acontecimentos daquele tempo.

De acordo com Clark, Letelier foi assassinado porque ele era uma voz extremamente eficaz contra Pinochet, tanto em Washington, como na ONU. Alguns meses antes de morrer, Letelier foi uma figura chave na votação para aprovar uma emenda que limitava o auxílio dos EUA ao regime de Pinochet.

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Clark explicou que Letelier era também uma ameaça política. O diplomata tinha contatos nas elites políticas, e na hora de sua morte ele era a única pessoa que poderia liderar uma oposição organizada contra Pinochet.

Fazer explodir um carro no meio da capital dos EUA é o oposto da clandestinidade. De acordo com Clark, Pinochet ousou executar um assassinato público porque estava recebendo sinais mistos dos EUA.

"Tal como com outros regimes de direita e extremistas naquela época e, a partir de então, as instituições norte-americanas, têm dado sinais confusos sobre direitos humanos — o Departamento de Estado podia ter dado uma 'luz vermelha'… enquanto a CIA pode ter dado uma 'luz verde'", disse Clark.

"Pinochet e a Junta se sentiam como se estivessem em uma cruzada global contra o mal, tal como eles o achavam: contra o comunismo ou marxismo. Eles pensavam que estavam representando os melhores interesses dos Estados Unidos e do mundo livre e que, portanto, seriam compreendidos e perdoados."

Letelier é uma das mais famosas vítimas da Operação Condor, uma rede de caça aos comunistas orquestrada através de um esforço conjunto dos serviços de inteligência dos regimes ditatoriais da América Latina, em conjunto com os Estados Unidos, para compartilhar informações de inteligência sobre organizações de esquerda e seus líderes.

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Em 2001, o ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, foi declarado suspeito e réu em um processo relativo à Operação Condor e relacionado com os assassinatos. Depois da visita a um investigador, Kissinger deixou imediatamente a França e se recusou a viajar para o Brasil.

"Os EUA foram fundamentais na criação desses serviços de inteligência," disse Clark.

"[O assassinato de Letelier] foi fruto da política de longo prazo que visava trabalhar com os serviços de inteligência e governos a fim de reprimir os grupos de esquerda em toda a América Latina", frisou o historiador.

O atentado foi realizado pelo cidadão norte-americano, Michael Vernon Townley, um assassino profissional e funcionário da polícia secreta do Chile. Mais tarde, ele confessou e foi condenado pelo assassinato de Letelier a 62 meses de prisão. Hoje em dia ele provavelmente estará nos Estados Unidos num programa federal de proteção de testemunhas.

"O caso de Townley não é incomum", diz Clark. "Este é um dos problemas que os Estados Unidos têm com outros países do mundo que não será resolvido pela revelação de documentos classificados há mais de 40 anos."

"Se ocultar os autores desses crimes, então não há verdadeira justiça e os problemas diplomáticos vão continuar," afirmou Victor Figueroa Clark.

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