Portugal e EUA negociam criação de base espacial nos Açores

© AFP 2022 / JOSE ANTONIO RODRIGUESBase aérea das Lajes, Açores, Portugal
Base aérea das Lajes, Açores, Portugal - Sputnik Brasil
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A Base Aérea das Lajes, localizada na Ilha Terceira, poderá sediar a partir do próximo ano um centro internacional de investigação que, entre outras coisas, servirá como local de lançamento de pequenos satélites em parceria com os Estados Unidos.

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A possibilidade foi discutida recentemente em reunião em Nova York e, nos últimos dias, na capital açoriana Ponta Delgada e em Lisboa.

Lajes conta, desde os anos 70, com forte presença de militares norte-americanos e a criação do centro seria uma forma de reduzir o impacto da retirada de boa parte desses efetivos anunciada no ano passado. No entanto, o anúncio feito em ano de eleições legislativas nas ilhas gera desconfiança nos partidos de oposição que veem o fato como uma tentativa de compensação após os impactos negativos da diminuição das tropas norte-americanas.

De acordo com o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, Manuel Heitor, as ilhas oferecem oportunidades únicas para sediar uma base de lançamento de satélites que vai auxiliar na investigação de questões relacionadas às mudanças climáticas. A localização privilegiada das ilhas portuguesas é o principal atrativo para os pesquisadores internacionais. As negociações para criação do centro de investigação estão em estágio avançado, de acordo com fontes da Sputnik, e a instalação da infraestrutura pode começar já no ano que vem. 

Uma das grandes pendências está relacionada às eleições presidenciais norte-americanas deste ano. O futuro centro já tem até nome: se chamará Azores International Research Center (AIR Center), mas sua criação ainda depende de negociações com o governo dos Estados Unidos. O avanço do projeto está diretamente relacionado com a disputa eleitoral. Pesquisadores envolvidos citam que uma vitória da democrata Hillary Clinton seria o melhor cenário para a evolução da ideia, enquanto que uma eventual consagração de Donald Trump semeia dúvidas quanto ao futuro das negociações.

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O próprio ministro português da Ciência é cauteloso ao comentar o assunto. Embora a criação do centro de investigação pareça já ser algo decidido, ainda há dúvidas sobre como ele será administrado. A criação do AIR Center começou no mês passado com um encontro em Nova York, foi discutido mais a fundo recentemente em Ponta Delgada e em Lisboa e deve ser pauta de um encontro em Bruxelas no próximo dia 19 de setembro, quando a proposta será apresentada à Comissão Europeia. Manuel Heitor afirma que o projeto vai arrancar em 2017.

Segundo adiantaram fontes do Governo português, fazem parte das negociações para criação do AIR Center, além do Ministério da Ciência e do governo regional dos Açores, a agência especial norte-americana (NASA), a agência de meteorologia e oceanos dos EUA (NOAA), universidades portuguesas e americanas e empresas.

Presença norte-americana

A Base Aérea de Lajes possui uma área de cerca de 10 quilômetros quadrados, sendo que boa parte das estruturas existentes estão hoje desativadas. Criada no contexto da Segunda Guerra Mundial e objeto de desejo norte-americano durante a Guerra Fria, a base é administrada pela Força Aérea Portuguesa e conta com a presença de militares dos Estados Unidos desde o final da década de 70 devido à sua localização. Lajes é um ponto estratégico de fácil acesso à Europa, à África e ao Oriente Médio. 

​Em 2015, o governo dos Estados Unidos anunciou a retirada de 500 efetivos da base, o que gerou um grande desconforto nas autoridades locais. Os militares norte-americanos que lá estavam (ainda restam pouco mais de uma centena) movimentam a economia da ilha e a retirada foi vista à época pelo Governo Regional dos Açores como negativa. 

Jogo eleitoral

Como a retirada de boa parte dos militares norte-americanos da ilha teve uma repercussão muito negativa em 2015, o anúncio dos estudos para a criação deste centro de pesquisa é visto com desconfiança pelos partidos de oposição. O atual Governo Regional dos Açores é comandando pelo Partido Socialista (PS) do primeiro-ministro António Costa, mas em outubro deste ano os açorianos vão às urnas para as eleições gerais legislativas. Por isso, opositores à direita e à esquerda do PS veem o anúncio do AIR Center como uma barganha eleitoral.

"Encaramos este anúncio, como mais um palpite, sem qualquer consequência, a não ser mera propaganda eleitoral", disse à Sputnik a deputada regional Zuraida Soares, do Bloco de Esquerda. Ela não esconde sua desconfiança no Governo Regional, o qual vê incapaz de ter "opinião assertiva sobre o futuro desta infraestrutura". "Temos assistido, a cada semana que passa, aos mais diversos palpites sobre a futura instalação desta infraestrutura", argumenta. 

"Como é sabido, o Bloco de Esquerda tem defendido a saída das tropas americanas da base e a consequente reconversão desta infraestrutura para fins civis e comerciais. Estamos disponíveis para analisar qualquer iniciativa, nesta área, que se mostre sólida, pensada e credível. Não estamos disponíveis para meros anúncios eleitorais", critica a deputada esquerdista.

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Desconfiança similar também foi expressa pelo deputado regional Paulo Ribeiro, do PSD, principal partido da direita portuguesa, em entrevista à Sputnik. "O presente anúncio de uma possível instalação de um centro de lançamento espacial nas Lajes é bem-vindo, como são bem-vindas todas as iniciativas que potenciem o desenvolvimento dos Açores e contribuam para a criação de emprego e de riqueza na Região. Tememos, contudo, é que esta não passe de mais uma iniciativa em período pré-eleitoral sem consequências práticas. Até porque, desta iniciativa, a Administração Norte-Americana não tem conhecimento sendo que, por isso, as razões para a desconfiança sejam mais que legítimas", afirma Ribeiro.

De acordo com o deputado do PSD, o seu partido concorda com a importância "geoestratégica" da Base das Lajes e, por isso, defende a busca de uma utilização alternativa ou complementar que garanta e potencie o desenvolvimento económico da ilha Terceira e dos Açores. "É de notar que, com a redução do efetivo militar norte-americano nas Lajes, foram evidenciadas as fragilidades da economia desta ilha que passados 20 anos de governação socialista se mantém e manteve à sombra da boa-vontade, da iniciativa e do investimento de terceiros sem que medidas pró-ativas tenham sido implementadas pela Administração Regional", critica.

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