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Especialista atribui crise à histórica cultura de corrupção existente no país

ENTREVISTA COM ANTONIO CELSO PEREIRA
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A crise política no Brasil continua repercutindo no exterior. Nesta quarta-feira, 4, falando durante a 46ª Conferência das Américas, realizada no Departamento de Estado, em Washington, a secretária de Comércio do EUA, Penny Pritzker, afirmou que a crise no Brasil é um exemplo "do que a corrupção pode fazer a um país".

A secretária americana previu ainda que será necessário tempo para que o Brasil supere os efeitos desestabilizadores do pedido de impeachment da presidente Dilma. Desde o início da crise política, o governo Obama se mostra cauteloso em emitir avaliações sobre os desdobramentos do pedido de impeachment da presidente, afirmando sua crença na maturidade das instituições do país. A secretária de Comércio, porém, não deixou de fazer uma comparação do momento atual brasileiro com as mudanças políticas na Argentinas, e afirmou que o país vizinho "avançou muito rapidamente para dar a volta em sua economia".

"(A Argentina) Tem o potencial de desempenhar uma papel de liderança (no continente), particularmente em um momento no qual muitos de seus vizinhos têm muitos problemas", disse a secretária

No Brasil, alguns especialistas concordam em parte com as afirmações da secretária de Comércio americana. O presidente da Sociedade Brasileira de Direito Internacional, Antonio Celso Alves Pereira, diz que todo a crise político-econômica vivida hoje pelo Brasil é fruto da cultura de corrupção que existe no país há muito tempo.

"Todo o processo está impregnado da cultura da corrupção, do tratamento irresponsável da coisa pública, e tudo mais que vem acontecendo no Brasil não só de agora, mas de há muito tempo. Nos últimos anos, a coisa tomou um rumo radical, e a corrupção atingiu níveis jamais atingidos no Brasil. Estamos agora pagando o custo dessa cultura de corrupção e do agravamento da situação política em decorrência da inaptidão do governo federal nesse segundo mandato da presidente Dilma. A situação é muito grave porque a corrupção é o grande mal do nosso país, um país rico, que era — e acredito que seja mais — a oitava economia do mundo, um pais rico em recursos naturais. Chegamos a uma situação vexaminosa e correndo o risco de perder a liderança na América Latina para a Argentina que estava numa situação muito pior que a nossa, mas que está com um governo caminhando na direção certa, ao que tudo indica."

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Alves Pereira lamenta que a corrupção tenha crescido a ponto de ter se tornado um verdadeiro sistema.

"É uma coisa lamentável que acontece também em outros países da América Latina, mas não na extensão do que está acontecendo aqui por causa dos números daqui. Veja a questão das empreiteiras, não só no superfaturamento de obras, mas também fazendo corrupção para não pagar os impostos, uma operação atrás da outra da Polícia Federal, que está fazendo um trabalho belíssimo."

Segundo ele, a solução passa pela mudança de mentalidade da população e a criação de uma cultura de que a coisa pública tem dono, que é o povo, e não os grupos que estão no poder. 

"A votação do pedido de impeachment na Câmara é uma amostra disso: as pessoas votavam falando em suas famílias, em seus interesses pessoais, não em nome da nação, na sociedade. Estavam votando pelo filho, pelo neto, pelo filho que vai nascer. Aquilo foi um dos maiores vexames da história política do Brasil, um atestado de como os políticos encaram a questão pública. O Parlamento é representação pessoal, da família deles, não é da nação. Assim também é com os cofres públicos. O cara pode chegar lá meter a mão é dizer isso é meu, é nosso. Eu fui eleito e eu posso meter a mão."

Alves Pereira defende que o povo vá para as ruas e cobre punição exemplar em todas as esferas.

"Sejam quais sejam os políticos, de oposição, de situação, para que as coisas comecem a mudar, porque não dá para continuar desse jeito. A secretária (Penny Pritzker) só não tem razão quando afirma que, por causa do impeachment, vai demorar muito a recuperação. Não é por causa do impeachment, é por causa de todo o passado."

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