Mães e Avós da Praça de Maio acusam: ‘Macri não tem tempo para os direitos humanos’

© REUTERS / Ginnette Riquelme Estela de Carlotto, presidente da organização argentina de defesa dos direitos humanos Abuelas de Plaza de Mayo (Avós da Praça de Maio)
Estela de Carlotto, presidente da organização argentina de defesa dos direitos humanos Abuelas de Plaza de Mayo (Avós da Praça de Maio) - Sputnik Brasil
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As presidentes das organizações Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, e Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, manifestam sua revolta pelo fato de que o novo Governo da Argentina “não tem preocupação com os direitos humanos”. Elas falaram com exclusividade à Sputnik Brasil.

Estela de Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, ressalta que sua organização tem “uma longa história de 38 anos de luta como consequência de uma ditadura cívico-militar que sequestrou 30 mil pessoas, entre elas, nossos filhos e nossos netinhos nascidos durante o cativeiro de suas mães”.

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Ao falar sobre a pouca ou nenhuma atenção que o novo Governo de Mauricio Macri dá à sua organização, ela lembra que a Argentina vive uma democracia desde 1983 e “em todos os Governos nós fomos recebidas pelos presidentes e perguntamos que atitudes teriam com o tema dos direitos humanos e de uma história que não está esclarecida totalmente” – a questão das vítimas da ditadura. “Todos nos receberam e nos deram respostas, alguns mais que outros, e portanto também solicitamos uma audiência ao atual Presidente Mauricio Macri.”

“A resposta, dada por um representante do presidente, foi de que Macri não poderia nos receber por falta de tempo, por ter outros compromissos. Não nos deu outra data nem remarcou para mais adiante, a não ser que aceitássemos ser recebidas por outra autoridade do Governo, que preside a Casa Civil. Diante dessa realidade, aceitamos o encontro para tratar dos temas emergentes que temos na maioria dos organismos de direitos humanos da República Argentina. Ele vai nos receber nos próximos dias e vamos dialogar, levando nossas necessidades. Mas também queremos saber – e essa é uma pergunta para o presidente – qual o seu programa, seu projeto de gestão de Governo no tema dos direitos humanos, e todas as suas questões, porque o que está acontecendo agora é muito preocupante, as medidas que o Governo está tomando são muito, muito preocupantes.”

​A presidente da organização Avós da Praça de Maio pensa que há mudanças muito relevantes na política de direitos humanos, ao se comparar o Governo Macri com os Governos dos Kirchner:

“Eu diria que há uma mudança de 180 graus, porque todos os Governos anteriores nos receberam, e os que mais deram respostas favoráveis, nos ajudaram economicamente, nos escutaram, nos consultaram, sobretudo dando respostas às nossas demandas, foram os Governos de Néstor e de Cristina Kirchner. Os 12 anos em que governaram foram, para nós, uma possibilidade de realizar muitíssimos avanços, do que é, na verdade, a memória e a justiça.”

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Sobre o comportamento do atual Governo, de Mauricio Macri, Estela de Carlotto diz que “a chegada desta linha política de Macri e de sua gente está num ponto muito preocupante, porque, ao invés de nos chamar, ele foi ofensivo já antes de ser presidente, durante sua campanha, ao dizer que nós, dos direitos humanos, somos uma ‘armação’, e isto é muito ofensivo para nós que sempre deixamos muito claro como e quando devemos fazer nossas coisas".

"Além disso, no tema dos direitos humanos sociais, há as demissões maciças de trabalhadores, a detenção, neste momento, como presa política, de uma militante do norte de nosso país [a ativista Milagro Sala], da Província de Jujuy, que por se manifestar num protesto foi detida e está encarcerada”, acrescentou.

© AP Photo / Victor R. CaivanoUma manifestação em Buenos Aires a favor da ativista Milagro Sala, em 18 de janeiro de 2016
Uma manifestação em Buenos Aires a favor da ativista Milagro Sala, em 18 de janeiro de 2016 - Sputnik Brasil
Uma manifestação em Buenos Aires a favor da ativista Milagro Sala, em 18 de janeiro de 2016

Já a presidente da Organização Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, nega ter pedido uma entrevista com Mauricio Macri. Ela destaca a importância de sua organização – que tem uma rádio, uma revista e uma universidade [Universidad Popular Madres de Plaza de Mayo] – e desenvolve “um trabalho político muito importante”.

“Não pedimos entrevista a Macri porque, antes de ele ser presidente, nós o consideramos nosso inimigo. Um homem que esteve muito perto das Forças Armadas, um homem que esteve de acordo com o sequestro, morte e desaparecimento de nossos filhos. Portanto, o tratamos como inimigo.”

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A Senhora Bonafini diz ainda que sua organização diverge “de outros organismos que aceitaram a reparação econômica”.

“Nunca cobramos pela morte dos nossos filhos”, diz a presidente das Mães da Praça de Maio. “Nós consideramos que a vida não tem preço, a vida não pode valer dinheiro, e a um grande capitalista a única coisa que importa é dinheiro. Temos um enfrentamento muito grande com o Governo, e por isso me acusam de ser violenta.”

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Hebe de Bonafini destaca ainda o fato de que jornalistas estão sendo demitidos, e que estão ficando sem trabalho “milhares de trabalhadores de todos os lugares, e nem sabemos qual o critério”.

“Nós, as Mães, defendemos todos. Não defendemos apenas nossos filhos. As Mães defendem todos por igual. Para nós, todos os desaparecidos merecem o mesmo respeito e o mesmo trabalho. Estamos num momento muito difícil, em que querem tirar tudo o que temos. Eles têm os juízes e os maiores meios de comunicação à sua disposição.”

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