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Tiro pela culatra: Temer se queima ainda mais após vazamento de carta a Dilma

© Sputnik / Aleksei Nikolsky / Abrir o banco de imagensMichel Temer (foto de arquivo)
Michel Temer (foto de arquivo) - Sputnik Brasil
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A carta enviada pelo vice-presidente Michel Temer à presidenta Dilma Rousseff e divulgada ontem à noite (7) pela Globonews provocou uma onda de memes nas redes sociais e uma enxurrada de críticas à atuação ressentida do presidente nacional do PMDB, que, de acordo com diversos analistas, está apenas tentando avançar o golpe contra a líder eleita.

​“Temer alegou que a carta tinha teor pessoal. Dificilmente se pode acreditar que foi o governo, e não seu próprio grupo, o responsável pelo seu vazamento à imprensa. A alegação beira o ridículo. Ela claramente foi escrita com o intuito de justificar sua atuação pelo impeachment. Do ponto de vista político, fica claro que o vice-presidente atuará em consonância com Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e setores da oposição para promover a deposição da presidenta. Os motivos alegados, entretanto, são vergonhosos, mesquinhos e pouco críveis. Pode ser que a repercussão seja muito negativa e prejudique a posição de condutor de uma saída mediada que Temer procurava construir”, disse Leonardo Barbosa, doutorando do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre o Congresso (Necon), em entrevista à Sputnik.

Outras vozes da sociedade civil brasileira também se levantaram em peso contra o impeachment de Dilma após a repercussão da carta.

“A ‘carta’ de Temer ‘a Dilma’ (…) é praticamente uma declaração de guerra, encharcada de ressentimento. Indica que o vice estaria mesmo a conspirar contra a titular, de olhos grandes sobre sua cadeira. Revela a estatura moral do remetente e, mais uma vez, o caldo antiético de toda a tentativa de impedimento em curso”, opinou Adriano Pilatti, professor de Direito Constitucional da PUC-Rio e um dos nomes mais importantes por trás da Constituinte de 1988. 

Para o editor da revista Fórum, Renato Rovai, a carta “destrói Temer politicamente”. 

“Sua biografia está marcada daqui para diante como a de um político vaidoso, egoísta e de certa forma sem limites. Dilma pode cair, mas Temer não sairá maior deste processo. Ele caiu hoje”, escreveu o jornalista e professor em seu blog no Portal Fórum.

​Além disso, muitos políticos da oposição de esquerda ao PT também saíram em defesa da presidenta. 

O deputado Jean Wyllys, do PSOL, declarou que a carta foi escrita claramente para ser tornada pública, ao contrário do que disse Temer a respeito do caráter supostamente “confidencial e pessoal” do documento vazado à imprensa.

“A carta não tem nada de pessoal e confidencial; muito pelo contrário, é ‘bombástica’ no estilo, conteúdo e formato, exatamente como aquelas em geral abertas para a imprensa. Leiam e percebam a construção do texto, claramente feita para exposição e consumo midiático. A destinatária da carta nunca foi a Dilma, mas a redação dos jornais! O nome disso é cinismo!”, escreveu o deputado em sua página no Facebook, acrescentando que, na verdade, a carta tem como objetivo “deixar bem claro que Temer está disposto a assumir a Presidência”.

O golpe da carta (temos algo a Temer?)#CartaDoTemerA carta que "vazou" para a imprensa teria sido escrita,…

Posted by Jean Wyllys on Monday, December 7, 2015

Em entrevista ao programa ‘Mariana Godoy Entrevista’, Ciro Gomes, pré-candidato do PDT à Presidência da República em 2018, declarou por sua vez que Temer é o “capitão do golpe”.

“Vai não, porque se ele for, quem vai entrar com um pedido de impeachment no primeiro dia sou eu”, disse Ciro, depois que a entrevistadora lhe perguntou se Temer, de fato, poderia vir a ser presidente. 

O ex-ministro disse ainda que já está com cópias em mãos dos decretos de pedaladas fiscais que o próprio Temer assinou como interino da Presidência da República. “Só para você ver a molecagem, como é que funciona no Brasil”, afirmou Ciro, explicando que as pedaladas fiscais – justificativa usada pela oposição para “fundamentar” o pedido de impeachment – não constituem crime de responsabilidade, apesar de serem problemáticas.

Tabaré Vázquez e Dilma Rousseff em 21 de maio de 2015, no Planalto. - Sputnik Brasil
Uruguai repudia impeachment de Dilma: Crise pode ter forte impacto no Brasil e na AL
De fato, uma reportagem do Estadão apurou sete decretos de pedaladas fiscais com assinatura de Michel Temer, os quais teriam aberto um crédito suplementar de R$ 10,8 bilhões. Segundo artigo do jornalista Luis Nassif para o GGN, “tudo indica que o levantamento do Estadão foi o estopim para que ele [Temer] soltasse a carta aberta, um gesto de desespero para se livrar de ser impedido juntamente com a presidente, no mesmo pedido e pelos mesmos motivos”.

Para Barbosa, cujo tema de pesquisa é a evolução dos conflitos políticos no sistema partidário brasileiro contemporâneo como chave para entender a polarização entre PT e PSDB, a avaliação de Nassif é interessante.

“A carta foi também uma tentativa de se isolar do governo, afinal ele [Temer] assinou decretos do mesmo tipo que estão sendo usados para pedir o impeachment de Dilma. É uma tentativa de dizer que ele não participou”, disse o cientista político à Sputnik, acrescentando que, de qualquer maneira, o caso “continua sendo patético”.

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