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Ações da Rússia na Síria dão início a um novo padrão da geopolítica mundial

© AP Photo / Muzaffar Salman, FileMulher síria beija um poster do presidente russo Vladimir Putin durante uma manifestação pró-governo sírio em frente à embaixada russa em Damasco
Mulher síria beija um poster do presidente russo Vladimir Putin durante uma manifestação pró-governo sírio em frente à embaixada russa em Damasco - Sputnik Brasil
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A Rússia vai à guerra. Começa assim a primeira intervenção dos novos centros de poder global em uma zona de caos previamente induzido por equivocadas ações ocidentais. Fica estabelecido um padrão que provavelmente marcará a geopolítica mundial pelos próximos anos.

Mas diferentemente daquilo que ocorreu 30 anos atrás no Afeganistão, os maiores riscos para a Rússia na Síria estão ligados não a uma possível derrota, mas às imensas responsabilidades que adviriam de uma grande vitória.

A Rússia não entra na Síria apenas para manter seu aliado Assad no poder ou para provocar o Ocidente. A intervenção na Síria é apenas a primeira de uma série de intervenções que os novos centros de poder não poderão evitar nos próximos anos. E a causa é tão simples quanto preocupante: EUA, Europa e Japão simplesmente já não conseguem manter um mínimo de estabilidade geopolítica para além de suas fronteiras. As áreas nas quais eles intervêm diplomática ou militarmente simplesmente se tornam Estados falidos. A razão aqui é a insistência em repetir modelos econômicos e políticos que foram bem-sucedidos no passado, mas que já não funcionam no mundo de hoje. Ironicamente, essa era a estratégia da União Soviética durante sua decadência e que a levou ao colapso.

É bastante provável que antes de intervir na Síria a Rússia tenha de alguma forma discutido o assunto com a China, com o Irã, com Israel e com a Turquia, entre outros. Na verdade, os esforços diplomáticos da Rússia junto à Turquia e à Arábia Saudita foram públicos. A sensação de surpresa deriva menos de uma suposta precipitação intempestiva russa que dos hábitos mentais de um público ocidental acostumado ao princípio hollywoodiano que tem guiado as intervenções ocidentais: a realidade não importa, o que importa é apenas a aparência de sucesso. Os resultados desastrosos simplesmente não são mencionados ou são violentamente negados.

A intervenção, para o Kremlin, é uma forma de se desenhar a linha de combate ao radicalismo islâmico não no Cáucaso, mas no distante Oriente Médio. É também uma forma de garantir uma nova linha de defesa dos interesses dos países não alinhados ao sistema vigente contra as políticas do Ocidente, países esses cujo bloco geopolítico aos poucos se torna mais nítido. É uma maneira de tornar ainda mais claro o quanto a política de sanções da Europa é insensata. E é um modo de tornar evidente, a todos os atores políticos no Oriente Médio e além, quão pouco confiável é hoje o apoio ocidental. Mas, acima de tudo, é uma necessidade internacional, pois a incapacidade geopolítica de EUA e União Europeia em relação ao turbulento Oriente Médio já é óbvia.

Além disso, os riscos são baixos do ponto de vista de Moscou. Sim, ataques terroristas a cidades russas são uma possibilidade. Mas a opinião pública russa entende a necessidade de combater os extremistas a despeito dessa possibilidade. Como muitos cidadãos russos integram o Estado Islâmico, esperar até que eles retornem à Rússia seria a estratégia realmente equivocada. O esforço militar russo é restrito e limita-se a garantir a segurança de suas bases, a bombardear alvos do Estado Islâmico, da Al-Qaeda e de outros grupos. Esgotados por décadas de equívocos militares, os países ocidentais não podem reagir. E apoiar Al-Qaeda e Estado Islâmico contra a Rússia é algo que jamais poderia ser feito, ao menos não de forma explícita. O mais provável é que a reação norte-americana limite-se às já usuais expressões de russofobia por sua imprensa e a um inevitável torneio de bravatas entre os membros do Congresso.

O mais interessante é que o maior risco para a Rússia talvez seja o de a intervenção resultar não em uma derrota, mas sim em uma vitória retumbante do Presidente Assad contra o Estado Islâmico e contra a Al-Qaeda. Pois nesse caso, por várias razões, a transição de poder geopolítico global se aceleraria muito, e crises políticas extraordinariamente sérias poderiam levar o Ocidente até mesmo à implosão, atirando o mundo em uma fase de caos geopolítico. Os estrategistas em Moscou e nas outras novas capitais geopolíticas do mundo deveriam levar essa hipótese em séria consideração.

 

* Antonio Gelis-Filho, doutor pela FGV-SP, advogado e médico formado pela USP, é professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. Sua principal área de interesse acadêmico é a relação entre mudanças geopolíticas e estratégia de governos e de organizações públicas e privadas.

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