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Entrevista: China e Brasil fazem parceria estratégica num mundo multipolar

© AFP 2022 / FRED DUFOURBrasil fará parte do banco chinês de desenvolvimento
Brasil fará parte do banco chinês de desenvolvimento - Sputnik Brasil
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Começa nesta terça-feira a visita oficial de Li Keqiang ao Brasil e a outros países da América Latina. O Primeiro-Ministro da China traz em sua bagagem um pacote bilionário de investimentos, para projetos capazes de revitalizar a economia brasileira. O jornalista Mário Russo comenta os benefícios sociais, políticos e econômicos dessa visita.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Sputnik: Como você analisa essa aproximação da China com os países da América Latina?

Mário Russo: Os chineses são muito pragmáticos. Em termos de diplomacia, eles não costumam dar o chamado “ponto sem nó”. Nos últimos anos, desde a formação do grupo BRICS como um bloco econômico, os chineses têm dado uma atenção cada vez maior à América Latina – ao Brasil especialmente –, não só do ponto de vista diplomático, mas principalmente na agenda econômica. Isso tem sido feito com a realização de várias missões. Lembremos que no primeiro mandato da Presidenta Dilma Rousseff ela esteve na China assinando vários acordos de cooperação econômica e de atração de investimentos.

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A visita do Primeiro-Ministro Li Keqiang culmina exatamente com a assinatura desses acordos. Além do Brasil, ele vai visitar também Colômbia, Peru e Chile até o dia 26, e procurar estreitar essas parcerias econômicas, que já são grandes. A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil, superando os países europeus e até os Estados Unidos. Essa corrente de comércio vem aumentando, assim como os investimentos chineses no Brasil. Se a gente observar, ao longo dos últimos anos, nós vamos perceber várias marcas que já estão presentes no território nacional, algumas não tão visíveis do grande público, principalmente na área de infraestrutura e energia. Em infraestrutura, nos portos principalmente, e em energia, inclusive na exploração do próprio pré-sal em parcerias com a Petrobras. E também em artigos de consumo, bens de consumo duráveis, seja na área de eletroeletrônicos, de eletrodomésticos, seja agora também na área automobilística, com grandes montadoras já instaladas aqui no Brasil, além da área financeira também.

O fato é que Li Keqiang chega nesta terça-feira acenando com cerca de US$ 53,3 bilhões em investimentos só no Brasil, e isso é um montante bastante significativo, principalmente se levarmos em consideração que recentemente a China se comprometeu a investir em toda a América Latina cerca de US$ 250 bilhões nos próximos 10 anos. O que significa isso? Há duas vertentes: a primeira vertente é econômica, e a segunda é geopolítica. Eu vou começar pela segunda, que é a geopolítica, porque a América Latina de forma geral, com algumas raras exceções, ao longo dos últimos anos vem se distanciando da agenda de comprometimento com os Estados Unidos. Nós temos casos notórios comprovados facilmente, como nos casos de Venezuela e Peru, e em parte o Equador, a Bolívia e até mesmo a Argentina. Há duas semanas, a Presidente Cristina Kirchner fez uma visita a Moscou, onde foi recebida pelo Presidente Vladimir Putin, uma semana depois de ter terminado a Cúpula das Américas patrocinada pelos EUA, no Panamá, justamente com a intenção do Governo norte-americano de uma reaproximação com os países das Américas Central e do Sul.

E por que isso? Porque ao longo dos anos houve esse distanciamento, por diversas razões, políticas, econômicas, nem digo culturais, e a China está atenta a isso. E essa visita de Li Keqiang comprova isso, quer dizer, a grande vedete que é esperada dessa visita é o investimento em ferrovias. Na verdade é um complexo de infraestrutura e logística, portos, estradas e ferrovias. Vale lembrar que os chineses já têm novos projetos nesse sentido, incluindo uma linha ferroviária ligando Vitória, no Espírito Santo, e o Rio de Janeiro, a três ferrovias em Mato Grosso, para compor a ligação entre o Atlântico e as margens peruanas do Pacífico. Qual o interesse chinês em patrocinar a ligação da chamada Ferrovia Transoceânica, que é um projeto de 2008 que até hoje não saiu do papel? É sobretudo viabilizar o escoamento de grãos e outros produtos agrícolas brasileiros para a China. Quando falamos em produtos agrícolas, vale lembrar que a Ásia de modo geral, e não só a China, na última década tem sido uma grande importadora de matérias-primas, inclusive de minério de ferro. A Vale, que é a maior exportadora brasileira de minério de ferro, e uma das três maiores do mundo, tem inclusive grandes cargueiros chamados Panamax, cargueiros de milhares e milhares de toneladas, que podem levar muito minério de ferro, e que fariam hoje uma verdadeira volta ao mundo para chegar aos portos chineses e entregar esse minério.

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O aceno que o Governo chinês está prometendo também se completa com a abertura do mercado chinês para a carne bovina brasileira, o que seria um novo grande mercado importador de carne do Brasil. Além disso, na área de manufaturados também está se esperando a confirmação da entrega do primeiro lote de aviões da Embraer, num total de 40, à chinesa Changan Airlines.

Tudo isso tem uma agenda econômica e uma agenda geopolítica. A China está decidida a abocanhar uma parte dessa América Latina que tem sido sistematicamente ignorada pelos EUA ao longo das últimas décadas, por razões diversas. E ela vem com um cacife alto. Uma das suas grandes vantagens, inclusive, é que a China vem utilizando já há algum tempo as gigantescas reservas que possui – US$ 4 trilhões –, que são aplicadas através de fundos soberanos, uma coisa que o nosso Banco Central não faz, ou seja, utilizar reservas como instrumento de investimentos. A China tem feito isso de forma rotineira, gradativa, e não só no Brasil, mas para a América Latina.

A maior população da face da Terra tem uma demanda expressiva, mantida até hoje, apesar de toda a crise econômica de 2008, numa locomotiva de crescimento que se mantém, já chegou a 10% ao ano e nos últimos anos está na faixa de 7% a 8%, o que é um marco. Se observarmos as economias dos EUA e de todos os países da Europa, e a nossa própria economia brasileira, vemos que estão engatinhando. O ritmo de crescimento da China exige importações maciças de matéria-prima – minério, produtos de agropecuária – e a China vinha fazendo isso na África. Inclusive em parcerias, não só do Governo como das empresas privadas chinesas. Os chineses viviam comprando e fazendo acordos com diversos governos de países africanos para assegurar os alimentos que garantem o nível de segurança alimentar para a China.

Eu acho que têm muito a ganhar tanto o Brasil quanto a China, embora no ano passado a balança comercial entre os dois países tenha apresentado um recuo. Na verdade, foi de US$ 78 bilhões de dólares a corrente de comércio, o que representou uma queda de 6% sobre 2013. Ainda assim, isso representou o segundo maior resultado da série histórica do intercâmbio comercial entre os dois países. O Brasil exportou US$ 40,6 bilhões, uma queda de 12%, e as importações chinesas chegaram a US$ 37,3 bilhões, um leve aumento de 0,1%. Com esse resultado, a balança entre os dois países fechou 2014 com saldo positivo de US$ 3,2 bilhões favoráveis ao Brasil.

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Eu acho que a China, independentemente da visita do Primeiro-Ministro Li Keqiang acenando com investimentos pesados, vai se confirmando e reafirmando a cada ano como uma parceira estratégica do Brasil, o que é muito importante para o comércio mundial. Lembrando sempre o que o Presidente Vladimir Putin diz: que é preciso que o mundo acorde de uma vez por todas para saber que acabou a era da concepção unipolar, ou seja, tanto na parte da política, quanto na parte da economia, grandes países, países emergentes, como Brasil, China, Índia, África do Sul, os países da América Latina, têm um horizonte cada vez mais amplo de trocas, que não passam pelos tradicionais parceiros de sempre, parceiros que vinham até hoje determinando quais as regras, qual o jogo de interesse entre as nações. Eu estou muito otimista com essa visita do ministro chinês e vamos ver a partir desta terça-feira o que sai de concreto disso.

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