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Entrevista: Empresariado brasileiro tem grandes expectativas da Cúpula do BRICS em Ufá

© Marcelo Camargo/ Agência BrasilBandeiras nacionais dos países membros do BRICS
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No momento em que ocorrem sanções econômicas contra a Rússia – as quais devem durar ainda por algum tempo –, o empresariado brasileiro demonstra interesse em estabelecer contatos mais profundos com a Rússia. A opinião é do empresário Paulo Fernando Marcondes Ferraz, expressa em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil.

Paulo Fernando Marcondes Ferraz, presidente da Federação das Câmaras de Comércio Exterior e um dos líderes mais respeitados no setor, está convencido de que as relações comerciais entre Brasil e Rússia podem ser fortalecidas. Para isso, a entidade que preside vem incrementando contatos entre os empresários dos dois países, conforme ele revelou com exclusividade para a Sputnik.

O Sr. Marcondes Ferraz presidiu e foi sócio de grandes empresas voltadas para o comércio exterior e também atuou como consultor e representante de diversas companhias internacionais no Brasil. Além disso, foi diretor-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), presidente da Câmara de Comércio Indústria e Turismo Brasil-Grécia e árbitro do Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA).

A seguir, a entrevista com o líder empresarial.

Sputnik: Quais são as atribuições da Federação das Câmaras de Comércio Exterior?

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Paulo Fernando Marcondes Ferraz: Temos hoje 85 câmaras filiadas à Federação das Câmaras de Comércio Exterior. O nosso trabalho é de incentivo ao comércio exterior brasileiro, através das câmaras bilaterais dos mais de 60 países envolvidos. Nosso objetivo é ajudar e contribuir para o aumento do comércio exterior brasileiro. Este, basicamente, é o trabalho que nós desenvolvemos.

S: Como o senhor avalia o atual volume do comércio exterior do Brasil?

PFMF: Nós sabemos que o comércio exterior brasileiro anda precisando de nosso apoio, da ajuda de todos os empresários brasileiros, para melhorar nossas exportações. Temos um lado negativo nas exportações brasileiras este ano. Em maio tivemos 2,3 bilhões de dólares negativos. A forma que temos para ajudar esse comércio é trabalhar junto às câmaras e com os países relacionados a essas câmaras. É este o principal trabalho que fazemos.

S: A que podemos atribuir a iniciativa da Federação em restabelecer relações comerciais e profissionais com a Câmara de Comércio da Rússia e com importadores e exportadores russos de maneira geral?

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PFMF: Apesar de o presidente da Câmara fazer parte da nossa diretoria, nós não temos tido eventos e rodadas de negócios onde juntamos empresários brasileiros com empresários de outros países para discutir a possibilidade de negócios. Temos nesses eventos uma objetividade muito grande, e deles saem resultados positivos. Infelizmente, com a Câmara da Rússia nós não temos tido esses eventos que são da maior importância para melhorar o comércio do Brasil com a Rússia.

S: O que a Federação das Câmaras de Comércio Exterior pode sugerir, de concreto, para estabelecer relações?

PFMF: O mais importante seria fazermos uma ligação com a sua organização para promover eventos na Federação, trazendo empresários e quem tenha interesse em negócios com a Rússia, e nós fazermos um seminário, uma rodada de negócios para se discutir a possibilidade de novos negócios, para que possamos aumentar essa relação do Brasil com a Rússia.

S: Queremos informar em primeira mão ao senhor que o presidente do Conselho Empresarial Rússia-Brasil aprovou a sua ideia de aproximação entre o Conselho e a Federação das Câmaras de Comércio Exterior. Além disso, instruiu o seu representante para o Brasil de elaborar a pauta de ações práticas nesta direção. O que o senhor sugere incluir de imediato nesta pauta, levando em consideração sua longa experiência no comércio Brasil-Rússia?

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PFMF: Isso é uma boa notícia porque nós podemos desenvolver um programa de novas possibilidades, novos negócios, explorar o máximo que nós pudermos essas possibilidades. Através do Conselho Empresarial Rússia-Brasil, vamos chegar a alguns pontos objetivos e positivos.

S: O senhor poderia falar sobre sua grande experiência no comércio com a então União Soviética, para onde o senhor viajou 17 vezes?

PFMF: Fui um dos precursores do comércio com a União Soviética. Por volta dos anos 1970 tivemos muitas possibilidades de negócios, chegamos a fazer um pacote comercial. Acompanhei o Ministro Delfim Netto a Moscou, no final dos anos 1970, e assinamos alguns acordos. Tínhamos feito um acordo para comprar turbinas para duas usinas hidrelétricas que iam ser construídas no Brasil. Infelizmente houve um cancelamento de todo o programa energético brasileiro, e isso não foi à frente. Mas agora eu acho que o momento é extremamente propício para novos negócios, inclusive na área energética. Existe uma tecnologia na Rússia que pode perfeitamente ser utilizada no Brasil através de acordos de joint venture. Com a aprovação do acordo entre o Conselho Empresarial Rússia-Brasil e a Federação das Câmaras de Comércio Exterior, nós podemos explorar todas essas áreas de possibilidades de negócios entre os dois países.

S: Nós entendemos corretamente que agora, na época das sanções contra a Rússia, que continuarão durante um tempo, o empresariado brasileiro está demonstrando interesse em estabelecer contatos mais profundos com colegas da Rússia?

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PFMF: Este é um fato que não deve demorar a ser superado porque o país precisa desenvolver mais o seu comércio exterior. Acho que a saída para o país da crise que estamos passando é o desenvolvimento do comércio exterior, e a Rússia é um grande parceiro e pode vir a ser bem maior, quando certamente ajudará nesses números brasileiros da balança comercial.

S: Estamos a uma semana da 7.ª Conferência de Cúpula dos BRICS em Ufá, na Rússia. O que o senhor espera da participação do Brasil na reunião dos próximos dias 9 e 10 de julho?

PFMF: Nós estamos bastante esperançosos de que haja um entendimento para um maior desenvolvimento do comércio com a Rússia, principalmente nessa reunião dos BRICS. Temos grandes expectativas de que esta reunião resulte em alguns acordos, alguma objetividade em termos de desenvolvimento do comércio com a Rússia. Nosso Governo está muito sensível a essa possibilidade de desenvolvimento do comércio do Brasil com a Rússia.

S: Ainda no âmbito dos BRICS: o que representam os países da Ásia, especialmente China e Índia, para o comércio exterior do Brasil?

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PFMF: A China é o maior parceiro brasileiro hoje. É um grande comprador de minério de ferro, de soja e de uma série de outros produtos brasileiros. Seria interessante aumentar a venda de produtos manufaturados, que são os que proporcionam maior desenvolvimento para a indústria. Este é o ponto a ser discutido, para procurar uma forma de fazer acordos para venda de produtos manufaturados brasileiros. Temos uma série de produtos brasileiros que podem ser vendidos para a Rússia. A disputa com a China é grande por causa dos preços muito bons daquele país, mas considero ser possível competir com a China para a venda de alguns produtos ao exterior.

S: As parcerias externas do Brasil têm privilegiado os países da América Latina?

PFMF: Ter um acordo no Mercosul faz com que o Brasil dê preferência aos países que fazem parte dele. Mas há necessidade de modificações na estrutura de comércio, na estrutura dos acordos, para que isso se desenvolva mais ainda.

S: Isso tem reflexo nas parcerias do Brasil com o primeiro mundo, Estados Unidos e Europa?

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PFMF: Não, são absolutamente independentes. O comércio com os países da América do Sul, principalmente os países que estão dentro do Mercosul, já têm um andamento, que pode ser melhorado, sem dúvida alguma, mas isto não impede o comércio do Brasil com os países de primeiro Mmundo, de forma alguma. A presidente do Brasil acaba de viajar aos EUA, onde foi assinada uma série de acordos comerciais, e não há nenhuma razão para que não façamos o mesmo com a Rússia, país que tem um potencial enorme para negócios com o Brasil.

S: Neste ano nós teremos um evento muito importante entre os dias 14 e 17 de setembro, em Moscou. Será realizado um encontro da Comissão de Alto Nível, com a delegação brasileira chefiada pelo Vice-Presidente Michel Temer. Normalmente esses eventos são acompanhados de eventos empresariais, e pensamos em fazer um business fórum abrangendo vários assuntos de comércio entre nossos países. Acredito ser um primeiro passo de nossa operação conjunta promover esse evento e levar assuntos de interesse do empresariado brasileiro para a mesa de negociações. O que o senhor pensa disso?

PFMF: Eu acho da maior importância, e a Federação das Câmaras de Comércio Exterior estará presente, para participar e ajudar no desenvolvimento desse comércio.

S: Como ex-presidente da Câmara de Comércio, Indústria e Turismo Brasil-Grécia, o que o senhor pensa da atual situação político-econômica da Grécia?

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PFMF: O fato de a Grécia não ter pago o compromisso de terça-feira, 30, criou uma dificuldade, mas não sabemos ainda que desenvolvimento vai haver, se a Alemanha vai participar ou não com ajuda à Grécia. É um momento de expectativa, difícil de opinar sobre o que vai acontecer. Acho muito pouco provável que a Grécia saia do mercado comum. Acredito que a comunidade europeia vá ajudar de alguma forma para que a Grécia não saia da Zona do Euro, mas é muito difícil, neste momento, prever o que vai acontecer. Vamos ter que esperar o resultado do referendo [de domingo, 5] porque há uma possibilidade de o primeiro-ministro sair, já que o que está sendo atingido é a credibilidade pessoal dele. Uma mudança seria extremamente importante para se chegar a um acordo de interesse para o país.

S: Nos dias 19 e 20 de agosto, a Federação das Câmaras de Comércio Exterior promoverá, no Rio de Janeiro, o 34.º Encontro Nacional de Comércio Exterior – ENAEX 2015. O que será este evento?

PFMF: Apesar de termos ficado alguns anos sem realizá-lo, esse evento sempre teve uma importância muito grande para o Brasil. Na época em que eu fui vice-presidente da Associação de Exportadores, o ENAEX tinha uma importância tão grande que contava com a presença do presidente da República e de ministros. A AEB – Associação de Comércio Exterior do Brasil está comandando toda a organização do ENAEX, e nós vamos ter uma participação efetiva no evento, com um estande com todas as Câmaras filiadas à Federação, para que a gente possa, de alguma forma, não só participar mas também ajudar a todos os países que tiverem interesse no comércio com o Brasil.

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